segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Doppelgänger - #91 - Uma fria.

"Olá senhor, meu nome é David Frost", disse Frost, estendendo a mão para Al.

Al retribuiu, com expressão séria, apertando sua mão.

"Muito prazer. Sou Al. No momento sou o líder desse grupo que quer parar a insurreição de Arthur Blain", disse Al.

"E quem seria exatamente essa pessoa?", disse Frost.

"Existem informações nos dossiês que estamos te entregando, Frost. Mas basicamente é quando a conspiração se torna realidade. Arthur Blain é meu sobrinho, conhecido no nosso meio pelo codinome Ar. É um ex-agente que tem o comando de todo o sistema econômico e político mundial, além de ter também um objeto chamado Dawn of Souls, com a identidade e ficha completa de todos os agentes de todos os serviços de inteligência no mundo", disse Al.

"Nossa. Nunca ouvi falar dessa 'Dawn of Souls'", disse Frost.

"Assunto confidencial. Por isso você não sabe. Mesmo entre os membros da Inteligência, apenas alguns sabem da existência disso. Ele criou uma sociedade secreta poderosa com agentes que ele conseguiu recrutar no mundo todo. Nunca sabemos onde estão eles. Por isso não quero que confie em ninguém. Ar controla a mídia, e mesmo pra um jornalista como você, é algo bem complicado", disse Al.

"Não faz sentido. Eu sou jornalista. Tenho um compromisso com a liberdade de imprensa. Vivemos num país democrático e livre", disse Frost.

"Isso é o que querem que você pense, Frost. Pode começar mostrando como pauta a morte dos cinco Doe. Você terá uma surpresa e verá que não é assim que a coisa funciona", disse Al.

"E pra que exatamente precisam de mim?", perguntou Frost.

Natalya Briegel resolveu entrar na conversa.

"Frost, você não é um jornalista famoso, mas acredito que tenha um faro investigativo, não? O que estamos te dando é ouro nas suas mãos. Mas ao mesmo tempo que isso vai alavancar sua carreira, isso pode também te trazer muitos inimigos. Inimigos nas mais altas cúpulas das empresas, governos, todos vão querer a sua cabeça, assim como querem as nossas. Você pode ser um herói do mundo, ou pode ser apenas mais um Stieg Larsson", disse Briegel.

Frost ficou pensativo. Larsson era um famoso jornalista sueco que fez graves denúncias contra governo e teve uma morte igualmente misteriosa. Especialmente pois pesquisava pessoas de extrema-direita do seu país. Aquilo vindo de agentes da Inteligência era sem dúvida a confirmação da ideia que todos tinham.

"Ainda sabendo que sua vida estaria em perigo, você toparia ajudar?", perguntou Al.

David Frost pensou. Em poucos segundos milhões de coisas passaram na cabeça dele. Mas ainda assim, aquilo era muito tentador. Sua vida era um tédio mesmo. Apenas revisão de texto dos colegas superiores, matérias pequenas sobre coisas triviais, e nada daquilo que ele sempre sonhara quando fosse jornalista: coisas exclusivas, capazes de abalar estruturas, e que mesmo que ele morresse, morreria feliz pois aquilo era seu sonho. Seu sonho era ser um jornalista que cobrisse a verdade.

Sem dizer nada Frost estendeu a mão para Al. Os dois apertaram as mãos fechando o acordo.

"Vamos te passar as informações, Frost. Contamos com você", disse Al.

- - - - - -

A voz do alerta das estações no metrô londrino havia acabado de anunciar a próxima estação: King's Cross St Pancras. Uma das estações mais importantes do metrô londrino, pertinho da sede do The Guardian, onde David Frost trabalhava. Entrou correndo no prédio e subiu o elevador até seu andar, e por fim chegou na sua bancada.

"E aí Frost, achou alguma coisa?", disse seu colega.

"Achei sim. Parece que cinco empresários morreram misteriosamente. É um furo e tanto. Seus corpos foram achados em diversos locais de Londres", disse Frost.

"Nossa! Incrível! Leva logo do Tommy pra ele dar uma olhada! Isso vai ser manchete!", disse seu colega.

Frost gastou aproximadamente vinte e três minutos escrevendo uma pauta. Ele tinha inclusive fotos de John Doe - ou Bruno Andrada, o líder dos Doe. Estava escrevendo um perfil completo sobre quais empresas que ele influenciava, que era conselheiro e seus próprios negócios engolindo outros menores ao redor. Deu uma última olhada no texto e enviou um e-mail para Tommy, seu gerente.

Cinco minutos depois seu telefone tocou.

"Frost, pode vir na minha mesa?", disse Tommy.

Aquela era a chance dele! Frost foi para a sala do editor como se estivesse andando em nuvens. Aquilo era o doce caminhar rumo a promoção, rumo ao fim da procrastinação no trabalho, muita atividade, e tudo que existia de melhor.

"Feche a porta, Frost", pediu o editor.

Frost sentou e um silêncio tomou conta da sala. Tommy Smith era gordo, usava óculos, cabelo grisalho e uma voz aterrorizante. Ele não tinha cara de poucos amigos. Tinha cara de ter amigo nenhum, isso sim. E uma matéria daquela, na cabeça de Frost, era algo magnífico. Mas talvez Tommy não visse daquele jeito.

"Frost", disse Tommy, tirando o óculos, "Não vamos publicar isso. Foi um pedido do pessoal lá de cima. Quero que apague quaisquer resquícios dessa notícia, ela não será publicada em lugar algum".

Nessa hora Frost sentiu como se tivesse tomado um balde de água fria.

"Senhor, posso questionar o motivo?", disse Frost.

"Frost, não se mexe com figurões como esses. Não é assim que o mundo funciona. Nós não somos guardiões da liberdade que podemos publicar qualquer coisa, e recebemos a ordem de que isso não pode ser divulgado, mesmo você com todas essas provas. Somos uma empresa, e temos que obedecer e publicar o que empresários ordenam entre eles. Não somos pessoas que lutamos pela liberdade de expressão. Nós temos liberdade dentro do cercadinho que é a vontade dos empresários, e por algum motivo que eu não entendo direito não querem que publiquem nada sobre. Nem mesmo uma nota de falecimento. Nenhum desses caras existem, todas as informações serão supridas sumariamente por ordens lá de cima", disse Tommy.

Frost viu então com quem estava se metendo. Assim como Al havia dito, a notícia iria ser invariavelmente barrada. Apenas agradeceu e saiu da sala, voltando pra sua mesa. Ao sentar, seu colega virou pra ele e o questionou.

"Vieram perguntar se eu tinha alguma informação sobre isso que você trouxe, eu disse que não. É coisa quente?", disse seu colega.

Nessa hora Frost começou a pensar:

Minha nossa... Alto escalão? Então isso tudo que o Al e a Briegel falam é verdade? Caramba... Onde é que eu fui me meter. E como assim essa notícia não agrada os empresários? Eles têm uma cúpula entre eles do que pode ou não ser divulgado na grande mídia? Isso não é nem um pouco ético. Eu tinha ouvido falar disso, mas vendo agora estou vivenciando tudo isso.

Merda. Agora tô enfiado até meu pescoço nisso. Justine vai me matar..., pensou Frost em sua esposa, que ficaria furiosa ao saber de tudo, e dele abandonar tudo pelo sonho profissional.

"Ei, ei!", disse seu colega, estralando os dedos pra chamar atenção de Frost, "E aí? É quente a notícia?".

"Não. É fria. Na verdade é bem fria...", disse Frost, mostrando um desânimo.

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