segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Doppelgänger - #93 - O Monumento.

15h20

"Pode comer tranquila. Desculpa, sei que aqui não é um lugar muito bom, mas acho melhor não chamarmos muito a atenção", disse Nataku.

Ao seu lado estava Eliza Vogl, comendo um burrito barato. Estavam num restaurante mexicano, perto do distrito bancário de Londres. Na sua frente estava a King William Street, que dava em um dos pontos mais emblemáticos da City londrina: O Monumento (The Monument).

"Você não vai comer nada?", perguntou Vogl.

Nessa hora Nataku ficou surpreso. Eliza Vogl era uma menina muito bondosa acima de tudo. Deixou mais ou menos metade do burrito para seu amigo.

"Desculpa, Liza... Eu não estou com muito estômago", disse Nataku, apreensivo.

Afinal, lá fora estava Schwartzman, caçando-os em algum lugar.

"Entendo. Mas olha, é melhor comer alguma coisinha. Você tá praticamente de jejum ainda. Eu já estou satisfeita. Eu sou pequena, eu como pouco", disse Eliza Vogl, sorrindo.

Aquele sorriso ingênuo havia tocado o coração de Nataku. Ás vezes se perguntava se era ele mesmo que protegia a pequena Vogl ou se era o contrário. Já tinha uma meia hora desde que ligado pra Agatha. Por um motivo que ele não entendia ele sabia que Agatha van der Rohe era a única pessoa que ele poderia confiar. Havia algo inexplicável pra ele. Ela o transmitia segurança.

"Nataku, eu acho que você não deve ter perdido totalmente sua memória", disse Vogl.

"Ah, como é?", disse Nataku, tentando entender.

"É verdade que talvez seu cérebro tenha sido danificado ao ponto de perder partes da memória, mas o cérebro é um baita de um mistério. Você mesmo me disse que tem lapsos de memória, de pessoas que você foi, lembranças perdidas, mas sem dúvida são resquícios do que sobrou do tal Lucca que você foi um dia. Afinal, suas habilidades como membro da Inteligência não foram perdidas", disse Vogl.

Aquilo fazia sentido. Mas não preenchia as imensas lacunas. Pelo menos não ainda.

Os dois terminaram o burrito e saíram para andar nas ruas da City, com o sol se pondo. Nataku puxou conversa.

"Porque exatamente o Ar quer fazer isso com você? Pensando bem, todas as informações de provas poderiam ser conseguidas com outros cúmplices dele. Não entendo o motivo pra quererem sua vida", disse Nataku.

"As provas contra o Ar não são nada se não tiver alguém que possa parar os planos dele. E somente eu sei do sistema o suficiente para pará-lo", disse Eliza Vogl.

"Você sabe do plano?", perguntou Nataku.

"Sei por cima. Mas não sei datas, nem pessoas envolvidas. Pode estar acontecendo agora, com pode acontecer daqui a cinco anos. O que eu sei é como a máquina funciona. E como parar. A senhora Saunders também tinha o mesmo conhecimento, obviamente", disse Vogl.

"Entendi. Por isso o governo protegeu tanto a senhora Saunders. Mas ninguém, exceto a própria Saunders sabia da sua existência. Acho que no fundo ela tentou te proteger, não?", disse Nataku.

"Exato. O Ar recrutou um exército de pessoas da Inteligência pra lutar pelos ideais dele. Embora ele tenha o controle da mídia e do sistema econômico, existe ainda as engrenagens desse imenso sistema que ele criou", disse Vogl.

Nataku e Vogl estavam chegando na frente do Monumento do Grande Incêndio de Londres.

"Engrenagens?", perguntou Nataku.

"Sim. Ar criou um sistema muito engenhoso. Existe um supercomputador, o VOID, uma Inteligência Artificial, algo tão secreto que acho que nem mesmo seus amigos sabiam. Esse computador rastreia e sabe de todas as operações bancárias do mundo, além de ser a que move o dinheiro de um lugar pro outro. Foi um dinheiro enorme investido pelo exército, o Ar conseguiu investir ainda mais para que esse computador fosse inteligente o suficiente para tomar as decisões mesmo que ele seja preso. Por isso Ar sempre está a um passo a frente. Ele sabe tudo o que acontece por meio do VOID. E está espionando todos vocês, afinal hoje em dia tudo é feito pelo computador. É simples", disse Vogl.

"Nossa. E onde diabos esse negócio tá?", perguntou Nataku.

"No lugar mais seguro de todo o Reino Unido. Mais ainda que o 10 Downing Street. Em um cofre, na sede do Banco da Inglaterral", disse Vogl.

Nataku se sentiu frustrado. Esse lugar é impenetrável.

"A influência dele é inegável. E como é um computador forte como é, o principal é proteger o hardware dele. Faz sentido colocar num cofre. Tô me sentindo meio que num filme do Exterminador do Futuro", disse Nataku, com um sorriso amarelo.

Porém Eliza Vogl sorriu. E deu até uma gargalhada.

"Você é engraçado!", disse Vogl.

"Mas supondo que o Ar seja pego, e o VOID parado, ainda existiriam vários agentes por aí que seguem os ideais malucos do Ar. Como parar isso?", disse Nataku.

"Para isso precisam de um jornalista bom. O único jeito é levar essa história pra ser publicada numa mídia externa. Como os leaks que acontecem hoje em dia. Aconteceria provavelmente uma guerra interna entre agentes da Inteligência, muitos poderiam perder o emprego ou serem até caçados, mas é a única maneira", disse Vogl.

"E a economia mundial?", disse Nataku.

"Esse é o ponto mais complicado. Na verdade é uma variável. Sem o VOID e menos ainda o Ar causando destruição e riqueza em lados diferentes do globo, novamente a economia virará um faroeste. Não vivemos num mundo onde existe apenas um John D. Rockefeller com todo o dinheiro do mundo. O dinheiro está muito distribuído, e existe muito mais dinheiro rolando no mundo hoje em dia. Só que ao invés das carniças, eles iriam direto pra carne. E sabemos que empresários são seres bem egoístas. Vão querer mais e mais dinheiro. E o futuro do mundo está bem obscuro para depois desse ano de 2012. Isso é, se o plano do Al dar certo", disse Vogl.

"Sim. Talvez aí sim que a Crise Econômica que começou com o Ar em 2008 continue por muitos anos ainda", disse Nataku, cabisbaixo.

"Além do VOID, existe uma outra fissura no sistema do Ar. O Legatus tem uma falha muito grave. Hoje em dia grande parte do dinheiro que circula no mundo é baseado em créditos eletrônicos, que ganham valor graças a títulos do governo. Só que pro dinheiro se multiplicar, o Legatus pega os créditos criados e empresta dinheiro a si mesmo. Não parece fazer sentido, mas isso é perfeitamente aceitável dentro do mundo bancário. Bancos podem emprestar dinheiro a si mesmos e criar dívidas dentro de si mesmo para criar dinheiro em créditos eletrônicos do nada", disse Vogl.

"Uau, você é um gênio mesmo, Vogl", disse Nataku.

"Mas tem uma falha nesse sistema. Se pressionar, destruiria o Legatus, e toda a fortuna que o Ar criou com toda essa especulação", disse Vogl.

Mal Eliza Vogl terminou sua fala quando enfim a dupla chegou na frente do Monumento. Na frente deles a pilastra dórica se erguia até além dos prédios da City londrina. Mas atrás deles estava ninguém menos que Schwartzman, seguindo-os sorrateiramente.

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