quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Doppelgänger - A história dentro da história (10)

Essa é uma estória de amor.

Início de 1986

"...o contato é Ramachandra Bose, tenente da SAS, será ele quem...", dizia Arch, dando o briefing da missão.

Porém, Lucca estava de olho em outra coisa.

Do outro lado da sala estava uma belíssima asiática. Seus traços eram finos, seus lábios eram ligeiramente grossos, e justo naquele dia ela estava com um lindo batom vermelho. Seus seios pareciam pequenos, mas bem firmes, e sua pele dava pra ver que era clara como seda. Embora o tipo físico de asiáticas era de mulheres com troncos grandes e pernas curtas, ela era o oposto disso. Suas pernas eram longas e tortas - como a de asiáticas comuns - e seu bumbum tinha aquele formato quadrado que elas normalmente têm.

Mas pra Lucca, aquelas pernas tortas e magrelas, e a bundinha quadrada era incrivelmente sexy.

"...alvo em questão é Siegfried Vogl. Alemão. Parece que tem ligações com o...", disse Arch, fazendo uma pausa depois de ver que Lucca estava distraído olhando pra uma recém chegada do Sector 9, uma japonesa da inteligência nipônica, Noriko Yamamoto, "LUCCA! Preste atenção!", gritou Arch.

"Ah!", disse Lucca, pulando de susto, "Desculpa Arch. Eu estou prestando... Agora". Todos riram do susto depois do grito de Arch.

Lucca era o braço direito de Arch nos tempos da Inteligência. Os dois sempre iam a diversas missões juntos, e se tratavam com muita intimidade. Eram grandes amigos. E mais tarde, no jantar, ambos conversaram no refeitório do prédio da Interpol.

"Escuta Arch, aquela novata, a Yamamoto. Sabe se ela tá solteira?", perguntou Lucca.

"Sim, ela está solteira. Porque a pergunta?", perguntou Arch.

"Ora, é óbvio! Ela é muito bonita, né?", disse Lucca.

Arch olhou sério pra Lucca. Segundos depois o olhar sério virou deboche e ele riu acidamente para Lucca.

"Qual é...? Sabe o que eu li? Que nós buscamos etnias diferentes para o coito, como se buscássemos genes que não temos no nosso DNA pra procriar. Por isso dizem que nos apaixonamos por tipos totalmente diferentes dos nossos. Você com essa cara de pizzaiolo italiano afim de misturar seus gametas com aquela filha de sushiman", brincou Arch.

"Olha Arch... Com essa aí eu misturaria é tudo. Como é linda!", disse Lucca.

"Só não deixe isso atrapalhar o trabalho, sim? Fiquei sabendo que ela é muito difícil. Abre o olho!", disse Arch, terminando o jantar.

E então Lucca e Yamamoto começaram a trabalhar juntos. E foram se conhecendo cada vez mais. Meses depois já haviam começado uma amizade. Mas Lucca sabia que ela era realmente muito difícil. E que por mais que ele se esforçava, jamais conseguia direito um tempinho com ela. E aquilo só dava mais e mais vontade.

Homens são seres bem podres. Quem escreve isso é um homem, e eu melhor que ninguém sei que homens são seres muito podres. Talvez se Noriko Yamamoto fosse das mais fáceis, independente de ideais feministas ou não, Lucca teria feito o que ele queria e deixado ela de lado. Mas de fato, Noriko Yamamoto era uma pessoa extremamente seletiva. E ela preferiria um namorado asiático, de preferência japonês, como ela. Seus pais sempre a fizeram sentir orgulho dela mesma. E ela, mesmo no padrão japonês, era uma mulher muito atraente, sempre atraindo os olhares nas ruas. Para ocidentais então, era muito mais linda. Um tipo que atraía de ocidentais e orientais.

Ela sempre dava desculpas para não encontrar com Lucca. Para homens cafagestes Noriko estava bem vacinada. E ainda mais por ser muito bonita, ela sabia que essa mesma beleza deixava os homens ao seu redor bastante tensos. Homens têm medo de mulheres bonitas. E quando a mulher é bonita e ainda muito difícil, menos homens ainda tinham coragem de tentar algo.

Mas a sede de Lucca era maior.

E aí ele começou a olhar ela de outra maneira. Como a amizade foi florescendo, ele viu que ela não era apenas um rostinho bonito. A cena que ele mais recordava com carinho foi quando ela fez um tsuru - o passarinho de origami japonês - pra ele.

"Bom, eu e a Émilie vamos nessa. Você vai ficar ainda aí?", disse Arch.

"Espera aí que eu vou também. Eu que sou o motorista da rodada, lembra?", disse Lucca.

Eles estavam num bar, confraternizando o sucesso em mais uma missão. Todos estavam desde o começo, mas quanto mais a noite ia chegando, mais eles iam embora. E na mesa só tinha ficado Arch, Émilie, Lucca e ela, Noriko Yamamoto. Lucca estava sem sorte, pois seria a pessoa quem daria carona. Não ia beber, pois dirigiria o carro. Mas ficou surpreendido com o que Arch, já meio bêbado, com a Émilie amparada pelo próprio Arch - também meio bêbada - haviam decidido algo diferente naquela noite.

"Vamos pegar um táxi. Mas não vai beber, hein! Leva a japonesa pra casa. Se comporta..", disse Arch.

E Lucca enfim estava sozinho com a Yamamoto. Mas depois de meses de convivência, depois de tanta amizade, ele nem sentia mais tanto tesão. Sentia tesão, claro, mas era algo diferente. Ela não era mais aquele corpo branquelo com as pernas tortas, peitos empinados e bunda quadrada. Noriko era uma mulher inteligentíssima, e tinha umas manias muito parecidas com ele, como trancar e destrancar a porta duas vezes antes de sair, alergia a amendoim e era boa de desenho. Além de gostarem de Beatles e música latina.

Além de bonita, ela era gente boa também!

"Ai, ai... Chega. Se me derem mais um Cosmopolitan eu vou vomitar", disse Yamamoto.

"Acho que é melhor você beber água. Toma isso aqui", disse Lucca.

Noriko Yamamoto bebeu dois goles. Mas tudo parecia girar. Ela perdeu a conta e estava tomando um porre.

"Sabe Lucca, você é legal", disse Noriko, bem bêbada, "E eu sei que você é doidinho pra me comer, seu canalha. Mas eu não vou te dar... Não, não, não. Essa periquita aqui tá reservada só pra pintos selecionados. Ninguém entra aqui de oba-oba".

"Noriko, fala mais baixo, estão olhando pra cá, hehe", disse Lucca, sem jeito, com um sorriso amarelo. Noriko estava realmente muito alterada.

Por mais que estivesse muito alterada e alegre, Noriko ainda tinha plenas faculdades. E pegou um guardanapo e começou a dobrar algo. Aquilo parecia uma máquina, cada coisa dobrada parecia milimetricamente planejada. No final, quando percebeu, um passarinho japonês, um tsuru, estava feito. Noriko entregou pra ele.

"Pegue. Esse passarinho traz sorte. Pode ser que te dê sorte pra conseguir o que você queira", disse Noriko.

Foi aí que Noriko ficou quieta. Seus olhos ficaram marejados, e Lucca não sabia o que estava acontecendo. Parecia olhar do nada, seu corpo ereto, sentado na cadeira. O italiano ficou na dúvida do que estava acontecendo e se levantou, ficando do lado dela em pé. Colocou o tsuru no bolso do blazer.

"Noriko, tá tudo bem contigo?", disse ele, dando uns tapinhas. Ela parecia estar em transe.

Depois disso Noriko Yamamoto vomitou na calça de Lucca. O cheiro do alcool, misturado com os snacks comidos naquela noite, misturado tudo com suco gástrico produziram uma obra aromática que incomodava o bar inteiro. A menina poderia ser bonita por fora, mas por dentro havia algo muito podre. Lucca a pegou, pediu desculpas pro dono do bar pela bagunça e a levou pro carro.

Ele resolveu levar Noriko pra casa dela. Ela estava começando a recobrar a consciência, conseguiu colocar a chave e entrar no seu pequeno apartamento. Ela foi até o quarto dela e deu uma toalha pra ele tomar um banho. Lucca tomou um banho, vestiu um roupão que ela tinha (já que ela não tinha nenhuma roupa masculina no armário) e Lucca sentou no sofá esperando por ela.

Noriko ainda estava um pouco bêbada. Andava com dificuldade. Ao levar coberta pra Lucca que estava no sofá ela simplesmente caiu em cima dele.

Era enfim a chance do italiano de transar com ela.

Mas Lucca não o fez.

Nem ele sabia o motivo.

Por mais que ele tivesse aquele desejo inicial por ela, esse tempo de convivência, e a amizade, fizeram ele sentir o oposto. Se eles fizessem sexo naquele momento provavelmente estragaria tudo. A amizade, o companheirismo, e tudo aquilo que era mais importante que o corpo e seu rosto lindos que tanto o atraiam.

E ele pegou e deixou ela no quarto. Noriko agarrou num sono. Lucca voltou pra sala e dormiu no sofá, longe dela. O italiano ainda acordou com o sol raiando, lavou suas roupas, passou na secadora, e saiu discretamente. Provavelmente nem Noriko percebera que ele saiu. Menos ainda que tanta coisa tinha acontecido naquela noite.

No dia seguinte, depois do almoço, Lucca encontrou Noriko nos corredores da Interpol. Ele foi em direção dela.

"Noriko, tudo bem? Podemos conversar um minutinho?", disse Lucca.

"Claro! Pode falar", disse Noriko.

"Olha, Noriko... Na verdade eu nem sei por onde começar. Falar com mulheres nunca foi um problema, mas eu tô aqui tremendo. Ha-ha! Engraçado, né?", disse Lucca, que de fato, tremia.

Noriko olhou com estranheza.

"Escuta, eu sei que isso é meio estranho, ainda mais por sermos amigos. E não vou negar que eu sempre achei você muito bonita! E provavelmente eu queria apenas uma noite com você. Mas olha... Nesse tempo todo da gente conversando, vi que a gente tem muito a ver! E nos damos muito bem com nossa amizade", disse Lucca, pegando na mão de Noriko, que continuava com os olhos arregalados, de surpresa, "Por isso eu estava pensando em levar isso pra um outro nível. Se você quiser, é claro!".

Noriko Yamamoto estava simplesmente muda.

"Noriko, você quer namorar comigo?", disse Lucca.

O coitado tremia de medo. É muito difícil descrever o que um homem sente nesse momento. Ficamos ao mesmo tempo com coragem e muito amedrontados. Sabemos que queremos arriscar, queremos que essa pessoa tente entender o nosso sincero sentimento. Muitas coisas passam nas nossas cabeças, mas apenas uma certeza é plena: de que chegamos num momento que não podemos mais viver sem essa pessoa.

E os momentos com a pessoa duram parece que milésimos, e os momentos longe parece que duram séculos. Se pegam pensando nela, querendo saber como ela está, se pode simplesmente estar quietinho do lado delas, ou apenas olhar pra ela uma vez, ouvir a voz doce dela. Como é duro ter uma pessoa longe dos olhos e dentro do coração.

Amor é como uma droga. Tomamos o alucinógeno que é a presença da pessoa, nosso coração palpita em adrenalina, queremos dar desculpas pra estar ao lado da pessoa, e ao mesmo tempo quando essa pessoa se vai sentimos uma falta imensa, como se algo faltasse em nós.

Noriko Yamamoto não era apenas um rostinho bonito. O que havia dentro dela era uma pessoa muito gentil e bondosa. Alguém que Lucca não queria apenas por uma noite. Ele queria ela pra sempre! Uma pessoa pra compartilhar vida, andarem juntos, apreciarem a vida juntos. Talvez até filhos. E sairiam filhos bonitos! Pelo menos com os dois super bonitões. Lucca não queria mais ela apenas para uma noitada. Queria ela pra sempre!

"Olha Lucca, você tem certeza mesmo?", disse Noriko, puxando sua mão, que estava com Lucca.

Lucca não tinha nada a oferecer pra ela. Exceto a sinceridade do seu sentimento.

"Claro que eu tenho! Por favor, me dá uma chance!", disse Lucca, se aproximando alguns passos dela.

Noriko deu alguns passos pra trás.

"Nós somos muito diferentes. Acha mesmo que vai dar certo?", disse Noriko, dando passos pra trás.

"Sim! Eu sei. Mas pense que isso nos complementa. Eu quero muito te fazer feliz. Eu quero muito que isso não fosse apenas uma amizade!", disse Lucca, avançando alguns passos.

"Você tem toda essa fama de conquistador barato. E se você apenas me quiser por uma noite?", disse Noriko, ainda se afastando de Lucca, dando uns passos pra trás.

Porém, Noriko encostou numa pilastra. Era uma parede do corredor. Não tinha mais pra onde se afastar. Então ela parou. Lucca, ao invés de avançar, parou na frente dela.

"Não quero você apenas por uma noite. Não pense isso de mim. Eu te amo, te amo muito! Não quero você por uma noite, pelo contrário. Quero você por todas as noites pelo resto da minha vida", disse Lucca, que parou de avançar, ficando parado na frente de Yamamoto. Ele não tinha motivos mais pra avançar. Era tudo ou nada.

Os dois se olharam. Olhos nos olhos. Parecia que a sinceridade do sentimento de Lucca havia chegado em Yamamoto.

"Então tá, vai. Mas se você fizer alguma coisa... Olha, você vai ser só comigo!", disse Noriko, que nem soube completar a frase.

Lucca sorriu. Um sorriso amplo e sincero.

"Que ótimo!! Posso te beijar?", perguntou Lucca, totalmente sem jeito, mas igualmente bonitinho.

"Seu idiota...", disse Noriko, "...Isso é coisa de se perguntar?".

E foi a japonesa dessa vez quem avançou e lascou um lindo beijo no italiano.

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Meados de 1987

Noriko leu atentamente a caixa do teste de gravidez. Depois disso, leu novamente. E depois de novo. Ela nunca imaginara que passaria por aquela situação. A menstruação dela já estava atrasada há quinze dias, e ela estava começando a se sentir tensa.

Ai, Noriko, porque nessa pressa toda esqueceu justo de tomar a pílula? Vamos lá... Não deve ser nada isso, pensava ela enquanto pegava o potinho pra urinar dentro.

Molhou o teste e deixou. Releu a caixa. Três minutos. Os três minutos mais longos da vida dela. Se olhava no espelho, de roupão, e ficava pensando como seria quando uma criança aparecesse ali. Como ficaria a barriga de gestante. E os peitos, aumentariam? Naquela hora muitas coisas passaram pela sua cabeça. Foram tantas coisas que os três minutos passaram como três segundos. E ela pegou o teste e comparou com a caixa, lendo em voz alta.

"Se uma linha rosa aparecer, significa que está grávida", e ela virou o olho pro teste. A cor rosa brilhava, viva como nunca.

Ela jogou o teste no lixo e sentou no vaso. Seus olhos começaram a lacrimejar de desespero. Agora ela carregava um filho na sua barriga. Uma nova vida daqui a nove meses chegaria ao mundo. Um fruto do amor dela com Lucca. Como que por obra do acaso Lucca entrou no apartamento, justo naquela hora.

Noriko lavou o rosto, enxugou as lágrimas. Quando ouviu a voz do seu amado ela ficou mais tranquila. Se fosse pra alguém ser o pai daquela criança, não tinha pessoa melhor do que o homem que ela mais amava.

Mas ainda assim ela não contou nada pra ele. Achou que ainda não fosse o momento.

Porém, pro seu azar, semanas mais tarde começou o processo do expurgo de Arch. E Lucca teve que se exilar, pois foi caçado por ser o braço direito do traidor Arch. Noriko, que tinha tantos planos de constituir família com seu amado no final nem mesmo chegou a contar pra ele sobre a novidade. Passou o pré-natal sozinha. Deu a luz sem o pai da criança, enquanto seu amado era caçado por ser o braço direito do traidor Arch injustamente.

Seu filho, uma linda criança mestiça e saudável foi raptada por Émilie. Mas essa é uma outra história. Hoje esse filho já é grande, tem a mesma idade de Ar. E vive feliz junto de Noriko Yamamoto no Canadá.

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