domingo, 4 de outubro de 2015

Doppelgänger - #102 - OVERDOSE.

Lucca, como sabia muito de artes marciais, conseguiu se recompor depois de ser jogado alguns degraus abaixo. Porém suas costas e seu braço que estava deslocado estavam doendo muito ainda. Naquele momento estava achando que realmente teria sido uma boa ter ouvido Agatha e ter ido ao hospital.

Mal ele teve tempo de se erguer e Schwartzman apareceu na frente dele, dando uma voadora, lançando ele mais alguns degraus abaixo. Lucca se apoiou na parede pra se erguer e olhou pra baixo: a five-seven estava dois degraus abaixo dele.

“E aí? Você mandou procurar alguém do seu tamanho, e não apenas tenho o seu tamanho como sou mais forte que você!!”, gritou Schwartzman, descendo, preparando mais uma investida.

Porém nessa hora Eliza Vogl pulou nas costas de Schwartzman, agarrando e puxando o cabelo dele pra trás, tirando todo o seu equilíbrio.

“Eliza!! Sua doida!! Eu disse pra você ficar lá em cima!!”, gritou Lucca.

“Lucca! Pegue a arma agora, atira!!”, gritava Eliza Vogl, puxando o judeu firmemente pra trás.

“Merda!! Não, Eliza, esse tiro vai passar por ele e vai te acertar!! Você tá doida?”, gritou Lucca.

“Eu não ligo! Você já me salvou várias vezes, e talvez eu morta possa ser realmente mais útil. Eles vão continuar atrás de mim, vai ser inevitável! Acabe logo com isso!”, gritou Eliza.

Lucca estava com a arma engatilhada. Apenas um disparo poderia mudar toda a história, e estava em suas mãos. Schwartzman continuava se contorcendo tentando tirar a menina que o estava atrapalhando. Lucca não tinha muito tempo de decidir.

Mas ele havia prometido. Prometido que iria proteger a menina com todas suas forças. Ele não poderia quebrar sua promessa. Mesmo que custasse novamente sua vida.

Lucca colocou a arma na sua cintura. Ele tinha um plano melhor.

“Eliza!! Solta ele AGORA!!!”, gritou Lucca indo em direção de Schwartzman.

As palavras pareciam que haviam entrado na alma da pequena Vogl, que soltou o homem do jaleco ensanguentado instantaneamente. Lucca começou a dar vários golpes nele. Schwartzman ainda estava zonzo da surpresa que foi a pequena Eliza ter pulado nas suas costas. Lucca parecia ter sido dominado por uma cólera.

Nossa, da onde eu sei todos esses golpes? Eu não consigo me lembrar de quando eu os aprendi, eles parecem que saem de maneira automática!, pensou Lucca.

Ele havia virado uma máquina de combate. Chutes, socos, voadoras, ganchos, aquilo parecia uma verdadeira aula de combate se desenrolando na frente dos olhos de Eliza. E Lucca parecia empurrar com seus golpes Schwartzman escadas acima. Nem mesmo os olhos dela conseguiam direito acompanhar o que estava acontecendo. O judeu não gritava de dor, mas dava pra perceber a respiração, o ar saindo dos pulmões, o sangue sendo jorrado da sua boca, e o suor de Lucca dominando seu rosto.

Por mais que Schwartzman tentasse contra-atacar, ele simplesmente errava o golpe. Até que enfim caiu, faltando quinze degraus até o topo do Monumento.

Lucca sacou sua arma e mirou no rosto de Schwartzman.

“É o fim, Schwartzman”, disse Lucca.

Schwartzman usou então a sua última cartada.

“Você é minha criação, Lucca!”, ele disse, e novamente o enjoo começou a tomar conta de Lucca.

As pupilas de Lucca dilataram, e um enjoo começou a dominar seu estômago. A ânsia foi subindo, por mais que ele não tivesse mais muita coisa no seu estômago. O enjoo do medo.

“Sim, você é a minha criação. Eu te ressuscitei dos mortos, eu aprimorei cada centímetro seu, eu te criei a imagem e semelhança de um deus!”, disse Schwartzman.

Nessa hora Lucca simplesmente caiu no chão e começou a vomitar. E foi dominado por medo. Falar “minha criação” era apenas o início dessa frase que ficou ecoando na sua mente todos os anos em que ficou em coma, com seu corpo sendo usado como cobaia. Sentiu as dores de todas as cirurgias sem anestesia, as diversas vezes que ficou imerso em água, as poucas vezes que abriu os olhos e via seu corpo sendo dilacerado com ele vivo, desmaiando de dor logo depois. Aquele vômito nunca foi nojo. Era medo. Um comando que estava impresso no seu cérebro, dito pela voz correta, na entonação correta.

Schwartzman, com o corpo todo ferido, mas ainda sem sentir nenhuma dor se ergueu. Pegou Lucca pelo colarinho e o puxou até o topo do Monumento. O topo do Monumento do Grande Incêndio de Londres dá pra ver grande parte da City londrina, mesmo que os prédios já estivessem bem mais altos do que o centenário monumento. É uma plataforma protegida por um arame, uma vez que várias pessoas tentaram suicídio séculos atrás. No topo existe uma imagem de uma urna dourada em chamas, marcando o local onde o incêndio de 1666 começou.

“Venha cá, seu inútil”, disse Schwartzman.

Lucca começou a ser chutado por Schwartzman. Chutes, chutes e mais chutes, como se ele fosse um moribundo. O italiano não tinha alternativa. Ele tinha que superar esse medo e reagir! Tantas vezes ele esteve tão perto, e agora quando estava pronto pra dar um fim nisso simplesmente novamente algo aconteceu e ele não conseguiu.

Foi aí que Lucca, deitado no chão, recebendo os golpes de Schwartzman no topo do Monumento segurou a perna do judeu. E ficou mudo. Não tinha forças nem mesmo pra falar nada.

“Você ainda tem força pra me segurar?”, disse Schwartzman, puxando sua perna de volta. Mas inexplicavelmente Lucca não soltava, “Droga... Me solta! Ora, seu... Se é assim que você quer, vou ficar mais forte ainda!”.

E Schwartzman usou novamente o spray nele mesmo.

“Ah... O doce aroma da vitória”, disse Schwartzman, voltando a golpear Lucca. Inacreditavelmente os golpes pareciam ainda mais fortes que antes, e Lucca não sabia se aguentaria muito tempo. Sentia que seus órgãos estavam esmigalhados por dentro, e o sangue cada vez mais jorrava da sua boca.

Porém Schwartzman parou e encarou Lucca. Seus olhos estavam mais do que nunca alterados, seu corpo parecia pulsar cada um dos nervos, cheio de erupções, pelos ouriçados, seu corpo estava nitidamente sob o efeito de uma espécie de overdose.

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