quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Doppelgänger - A história dentro da história (11)

Na minha frente estavam Al e um outro rapaz numa luta feroz. O ano era 2000, e o local era Rosário, na Argentina. Al dava socos, chutes e empurrões contra essa pessoa, que parecia e fedia como um mendigo velho. O morador de rua estava realmente fora de si.

Anos mais tarde descobri que esse mendigo era ninguém menos que o próprio Lucca, que havia tido a persona de Schultz, o mentor de Arch, implantado nele através de Schwartzman.

O que ninguém sabe é o que aconteceu depois. Al conseguiu parar Lucca, que nesse momento já havia perdido sua alma, e havia se tornado Nataku, com as personas e memórias implantadas, como um boneco sem vida. O local estava todo bagunçado. Al se recompôs e veio na minha direção. Por um momento achei que ele ia me matar. Eu tinha apenas uns 12 anos, e morria de medo.

“Venha comigo garoto”, disse Al, me puxando pelo braço. Eu não tive escolha. Saímos do prédio, mas antes eu virei e disse adeus à Brigitte, a governanta, e uma mulher enviada pela minha mãe pra cuidar de mim. Ela estava ferida com um tiro no joelho disparado por Nataku. Foi a última vez que eu a vi.

Eu cresci longe da minha mãe. Ela disse que eu era filho de um homem muito inteligente, e que era por isso que eu também era inteligente. Desde pequeno eu sempre frequentei as melhores escolas, e descobri que eu tinha uma aptidão especial pra números. Eu era um gênio da matemática, e com 12 anos eu já era phD em matemática e economia.

Eu não sei bem o que aconteceu. Eu morava na França e tinha uma vida tranquila. Brigitte disse que eu corria perigo de vida e devíamos ir para o mais longe possível pois estavam atrás de mim. Pessoas aparentemente queriam me matar, e achei que Al iria me matar naquele momento. Eu era apenas uma criança, e ele me puxou pra fora do prédio, me colocando dentro de um carro.

Eu estava mudo. Completamente assustado. Tremia, tremia muito.

Al entrou no carro do meu lado e acendeu um cigarro. Deu duas tragadas e olhou pra mim.

“Não precisa ter medo de mim. Aquele maluco ia te matar, provavelmente. Pode me chamar de Al”, disse Al.

Ainda assim eu não conseguia dizer nada. Al ainda assim continuou.

“Eu sei quem é você, dispenso apresentações. Preciso de você, garoto. Talvez você possa me levar pra sua mãe, além do que preciso evitar que outras pessoas coloquem as mãos em você”, disse Al.

O garoto enfim quebrou o silêncio. Na verdade nem ele mesmo conhecia direito sua mãe. Só sabia que ela era a pessoa que o sustentou, mas ele sequer a havia visto. Ao mesmo tempo não sentia falta – ele nunca teve uma mãe, como poderia ter saudade de ter uma mãe se ele nunca teve uma?

“Desculpa, senhor”, eu disse, “Eu não tenho contato com minha mãe. Eu nem sei onde ela está”.

Al me pareceu meio frustrado. Ouviu toda minha estória e olhava pela janela, tragando seu cigarro, e depois mais um. Chegamos num container, e Al ali recebeu uma ligação. Era sobre uma mulher chamada Victoire, que havia sido presa. Na época não entendi nada. Ele ficou profundamente perturbado. Enquanto isso algumas pessoas tratavam dos meus ferimentos.

Enquanto Al estava quieto na porta observando o movimento, uma linda moça de cabelos cor-de-beringela estava cuidando de mim. Eu tinha alguns poucos arranhões, e ela estava aplicando um antisséptico.

“Está se sentindo melhor?”, ela perguntou.

“Sim”, eu respondi.

“Você não fala muito, né? Mas fique tranquilo. Com a gente você tá protegido”, disse a garota.

“Moça, porque estão atrás de mim? Não tô entendendo nada do que tá acontecendo”, eu disse.

A garota do cabelo cor-de-beringela tomou ar e respondeu calmamente.

“Nós somos da Interpol. Aquele homem ali, o Al, está atrás das pessoas que mataram o irmão mais velho dele. Além disso, as pessoas roubaram um importante chip com os nomes de todos os agentes. Se isso vier a público, irá abalar o mundo inteiro, pois revelarão todas as identidades dos milhares de agentes ao redor do globo. Isso vai causar muito estrago”, disse a moça.

“Mataram o irmão mais velho dele? Nossa...”, eu disse.

“Acontece que o cofre que está essa lista tem uma chave muito específica, que não abre com código, nem digitais, nem mesmo identificação da retina. Ela pode ser aberta por meio do DNA. E, embora seu DNA não seja idêntico à da pessoa, você tem muitos genes similares. Um fio de cabelo seu vale milhões para essas pessoas. E, por conta da sua genética eles não teriam o menor escrúpulo pra virem atrás de você, garoto”, disse a moça.

“Minha nossa. E justo meu DNA? Que raio de chave é essa? Eu nunca ouvi falar de uma coisa dessas”, eu disse.

“A pessoa que fez isso foi o irmão mais velho do Al. Ele deixou na verdade várias chaves, mas a chave final é essa ligada ao DNA. É o legado, um presente que ele havia deixado pro Al, por isso reage ao DNA do irmão mais velho do Al, do próprio Al, que é o irmão mais novo dele, e o seu DNA, que compartilham sequências similares”, disse a moça.

Então eu liguei uma coisa à outra. Se o DNA original era o de Arch, e ele deixou pra reagir com DNA que tivessem similaridades com os dele, então o de Al reagiria por ele ser um parente, ter o mesmo sangue do irmão mais velho. Mas... Eu? Então, tecnicamente, eu seria parente desse homem?

“Pera lá, então quer dizer que...?”, eu disse, mas Al chegou perto de mim.

“Arthur Blain, de agora em diante teremos que andar bastante juntos. Como ela contou agora você já teve saber. Eu sou seu tio, e meu irmão mais velho, já falecido, é o seu pai”, disse Al.

Eu fiquei abismado. Eu não tinha nenhuma família, e do nada eu descobri que tinha um pai, quem era ele, e que tinha um tio, que eu aprendi a admirá-lo muito, pois era uma pessoa muito inteligente, e parecia que enfim iria conseguir recuperar a tal Dawn of Souls. E eu gostava de observar. Ele era tipo um mestre que me ensinava mesmo quando não percebia. Tentava copiar ele em tudo, e durante esse tempo todo vivíamos juntos. Havia um laço muito forte. E mesmo naquele tempo eu descobri como era bom ter uma família. E ter o Al como meu tio era a melhor coisa do mundo.

O tempo passou até que um dia ele chegou na nossa casa, dizendo que teríamos que partir pro exílio.

“Vamos, façam logo as malas, não temos tempo! Precisamos ir logo”, disse Al, tirando as roupas do armário e jogando na cama.

“Mas o que aconteceu? Pera lá... Não conseguiu recuperar a Dawn of Souls?”, eu perguntei.

“Ar... Sim. Exatamente isso. Nós perdemos”, disse Al, com frustração em cada sílaba. Eu fiquei abismado. E se caísse nas mãos erradas? Parece que seríamos nós três em algum país desconhecido. Al, sua esposa Val, e eu, que era apenas um moleque de doze anos.

Fiquei quieto e comecei a arrumar minhas malas. Terminei e, quando fui pro quarto do Al ele estava sentado na cama, chorando. Fiquei comovido com aquilo e o abracei. Al sempre foi um exemplo pra mim, era uma pessoa que eu adorava, e queria vê-lo feliz. Mesmo apesar dele sempre ser sério, com cara de poucos amigos e tudo mais. Al era meu tio, minha família, a única pessoa com o mesmo sangue que me aceitou. Ele chorava no meu ombro.

“Escuta Ar, olha bem pra mim”, disse Al. Eu olhei pra ele.

“De agora em diante não quero que me chame de Al, nem de tio. Tudo bem que você nunca me chamou de tio, mas gostaria que me chamasse de irmão. Quero te tratar e te criar como meu irmãozinho. Quero te colocar no mesmo patamar que eu e seu falecido pai chegamos. Entendeu?”, disse Al.

“Sim, Al... Quer dizer... Mano”, eu disse.

E assim fomos para o exílio. Tínhamos uma vida humilde. E tinha Al como meu irmão mais velho e a Val como uma espécie de mãe. Ambos eram muito especiais pra mim. Mas parece que a Val tinha seus problemas graves de depressão, e ela era uma mulher muito fria e séria, apesar de sempre nos tratar bem e com o amor, mesmo que do jeito dela.

Al tinha alguns problemas com ela, mas sempre eram gentis uns com os outros. Porém, Val amava outra pessoa. E por mais que ela até sentisse sentimentos por Al, não era com o Al que ela queria ficar. Eles tiveram que casar à força para usarem isso como disfarce e conseguirem morar em outro local junto de mim.

E eu sempre pesquisava mais e mais sobre meu irmão. Eu já estava, assim como o Al, resolvendo e fazendo assessoria em pequenos casos da Inteligência. Nós fazíamos uma dupla imbatível, e eu talvez o via com a mesma admiração que ele via o Arch, meu pai, mas o Al era o irmão mais velho que eu me espelhava. O tempo passou, e chegamos em 2006. Eu já tinha dezoito anos.

Porém algo aconteceu que deixou tudo de pernas pro ar. Depois de uma briga que haviam tido, a Val cometeu suicídio, se jogando contra um carro em uma ponte. Al chegou e viu toda a cena, e sua esposa, a mulher que ele tanto amou, morreu em seus braços.

A garota do cabelo cor-de-beringela era alguém especial pra mim também. Era a coisa mais próxima de uma mãe que eu havia tido, pelo menos naquele tempo. Mas Al mergulhou numa depressão profunda ao ver sua esposa morrer na sua frente. E vi como a perda do irmão mais velho quando ele era criança, e a perda da esposa que ele tanto amou havia abalado ele de tal forma que ele não mais queria saber de nada. E fomos para a Inglaterra, e enfim ele entrou numa aposentadoria forçada, graças a intervenção de uma velha bem influente.

“Mano, vamos! Podemos reconstruir nossas vidas! Sei lá, podemos fazer o sonho do meu pai se tornar realidade, aquele mundo que o Arch sempre quis! Podemos começar um negócio também, estamos na Inglaterra, aqui temos muitas oportunidades!”, eu dizia, insistindo.

Mas Al estava tão deprimido que tinha forças pra nada. Óbvio que eu fiquei triste com a morte da Val, assim como ele, mas... Isso havia passado. Mas o trauma nele ficou. Seus olhos haviam perdido o brilho, ele não era aquela pessoa forte que havia me salvado há tempos atrás. E ele havia me ensinado tudo o que eu sabia, filosofia, antropologia, ciências, espionagem, dialética, etc. Me ensinou a ser ainda mais capaz de ser o dono do meu destino! E agora que eu queria reconstruir a vida com ele, ele não queria.

“Ar, você já é crescido, já tem 18 anos, é dono do seu nariz. Me desculpe... Eu preciso ficar sozinho. Preciso começar tudo sozinho. Preciso ter uma vida normal, já que agora enfim eu posso ter a chance disso”, disse Al.

“E o que isso quer dizer? Sozinho? Não quer viver junto de mim? Vai me abandonar, seu irmão mais novo?”, eu perguntei.

“Sinto muito, Ar. Talvez um dia a gente se trombe por aí. Mas agora... Eu preciso ficar sozinho. Não tenho forças mais pra sonhar. Pois duas vezes meus sonhos morreram em meus braços. Primeiro com meu irmão mais velho, e seu pai. E agora, com a morte da mulher que sempre amei”, disse Al.

Fiquei muito triste. Muito mesmo. Não queria ter visto aquela cena. É óbvio que eu poderia me virar sozinho, mas eu queria meu irmão do meu lado! Tudo bem que eu não tinha passado pelas coisas que ele tinha passado, mas eu era tão bom quanto ele. Não... Eu sou na verdade melhor que ele! Eu posso ser e fazer o que eu quiser.

Um dia recebi um convite inesperado e fui pra França. Lá, reencontrei minha mãe, Émilie Blain. Ela também me apresentou o maior nêmesis do Al, uma mulher que todos pensavam que estava morta, a italiana Francesca Vittorio. A mulher que havia manipulado ele por anos a fio, que havia ditado todos os seus passos e controlado o Al, sem que ele nunca suspeitasse.

“Filho, fiquei feliz por ter abandonado a tutela do Al”, disse Émilie.

“Sim. Aquele não era o Al que eu sempre admirei. Aquele era um fraco. É alguém repugnante. Como eu pude admirar e me espelhar numa pessoa assim? Agora é só um idiota depressivo, triste demais pra levar até uma vida comum”, eu disse.

“Muito bem, garoto”, disse Francesca Vittorio, “Acho que você então vai ser um ótimo sucessor. Você já tem uma mente incrível. Imagino o que faria com um pouco de poder nas suas mãos”.

“O que eu faria? Bom, me deem tal poder que deixarei pra vocês duas o melhor camarote pra assistir o que posso fazer”, eu disse.

Aquelas duas mulheres me deram influência tanto política quanto monetária. Rapidamente consegui gerar tanto capital que conseguia manipular cada instituição financeira e cada moeda em todo o globo. O sistema financeiro é algo muito fácil de entender, e algo capaz de se explorar graças às suas muitas brechas. Mas eu ainda queria minha vingança.

E a primeira vingança foi contra minha mãe. Fiz a crise econômica global de 2008 explodir. Émilie Blain, esposa de um milionário francês viu todo o seu império ruir. Seu esposo se suicidou, e ela também o seguiu para o além-vida. Eu nunca a vi como uma mãe mesmo. Francesca Vittorio de mentora se tornou minha subordinada, mas ainda havia uma pessoa que eu deveria eliminar. Uma única pessoa no mundo que poderia me parar.

E essa pessoa é o Al.

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