sábado, 26 de dezembro de 2015

Doppelgänger - A história dentro da história (12)

Era o primeiro dia de Natalya Briegel na Inteligência. Ela era uma simples analista, mas sabia que não podia se atrasar. Por mais que seu pai fosse conhecido como o respeitado e carinhosamente apelidado de “Coronel Briegel”, por mais carinhoso que ele pudesse ser com sua filha única, não queria que ela fosse apenas uma sombra do seu pai por ter o mesmo sobrenome. Natalya teria que ralar muito se quisesse deixar de ser chamada de “Natalya” e pudesse ser chamada de “Briegel” pelos outros. O sobrenome tinha um peso imenso.

“Está atrasada”, disse uma voz simpática a ela.

Quando Natalya se virou viu um homem loiro, que aparentava ter quarenta anos, mas provavelmente tinha muito mais do que isso. Seus cabelos eram meio platinados e dourados, seus olhos azuis não escondiam sua ascendência alemã. Era um dos funcionários mais requisitados na Inteligência, uma verdadeira lenda no setor. E também um grande amigo do seu pai, e companheiro de trabalho.

“Ah! Senhor Schultz! Me perdoe. Acabei pegando um pouco de trânsito pra chegar aqui”, disse Natalya, que logo depois de dar a clássica desculpa esfarrapada lembrou que Schultz a conhecia muito bem, e sabia que aquilo era mentira.

“Trânsito? Por acaso da linha Picadilly tava com excesso de trens em circulação?”, disse Schultz, puxando a orelha dela amigavelmente.

Natalya Briegel era uma mulher bonita. Embora hoje existam diversas mulheres trabalhando na Inteligência, naquele tempo muitas vezes o trabalho das mulheres era apenas servir o café ou organizar a papelada. Natalya teve muitas dificuldades para poder mostrar que não estava lá para servir café. Ela estava lá para trabalhar, e pegar pesado igual todos os outros homens ali. Mas teria que lutar muito ainda pra conquistar seu espaço.

Ainda assim, desde que ela entrou, levou longos cinco anos até que fosse chamada pra sua primeira missão em campo.

“Recebemos uma informação dos militares norte-americanos que um ataque nuclear que estava sendo planejado contra a União Soviética foi interceptado por agentes da KGB. A situação é muito grave. Estamos seriamente na beira de uma guerra nuclear sem precedentes. Nunca nada assim aconteceu desde a Crise dos Mísseis em Cuba, anos atrás”, disse o coronel Briegel para sua equipe.

Natalya estava sentada no fundo na sala. Era uma jovem de apenas vinte e sete anos, e depois de tanto tempo aguentando o machismo que imperava naquele local, enfim ela havia trabalhado e mostrado para o que tinha vindo. Havia se destacado em tudo, com muito louvor, e a situação tinha ficado até indelicada se ela não fosse enfim aceita no time dos agentes de campo.

Mas sua primeira missão era justamente junto com uma equipe parar o início de uma guerra nuclear. Só. E no meio da Guerra Fria. Ou seria um começo grandioso ou desastroso. Natalya não sabia se sorria de orelha a orelha ou se tremia de medo.

“É, e lá vamos nós de novo!”, disse Schultz reunindo seu time, enquanto saía da sala depois de uma reunião com o coronel Briegel.

“Era um ataque de fato que o governo americano queria fazer contra os soviéticos?”, perguntou Natalya, para confirmar.

“Sim... Eles fazem a merda toda e depois nós temos que arrumar a bagunça que essas crianças como presidentes fazem. Desde que os soviéticos derrubaram aquele avião coreano matando o chefe daquela organização anticomunista umas semanas atrás, parece que os americanos estão loucos pra uma retaliação”, disse Schultz.

“Larry McDonald, certo?”, disse Natalya, sobre o congressista anti-comunista que havia morrido na queda do avião das linhas aéreas coreanas.

“Exato. Mas como é de praxe, esse será mais um conflito que ninguém vai nem imaginar que aconteceu. Afinal, vamos todos nós arrumar essa coisa toda”, disse Schultz, indo pro seu escritório se aprontar.

Seria mais uma guerra decidida pelos espiões. Como quase todos os conflitos evitados na época da Guerra Fria, onde espiões eram os verdadeiros mantenedores da paz mundial. Mesmo que isso significasse arriscarem suas próprias vidas.

Americanos haviam movido seus navios, e estavam prontos para disparar mísseis nucleares contra a União Soviética a qualquer momento. A queda do avião não poderia ficar impune, e o mundo ouvia as declarações de Ronald Reagan dizendo que os países dentro do Pacto de Varsóvia eram o “eixo do mal”. O clima era completamente hostil.

Entre as pessoas que estavam no time do ocidente estavam Schultz, Natalya Briegel e o coronel Briegel. Pai e filha na primeira missão juntos. Já haviam se passado dois dias, e o time havia sido dividido em dois. Um time precisava encontrar e passar as informações para os agentes da KGB que o ataque não iria acontecer, e um outro time cuidaria para que o ataque não acontecesse de fato, que estariam junto dos comandantes das frotas enquanto outra parte desse segundo time estaria em Washington tirando a ideia maluca de iniciar uma guerra nuclear do presidente e do seu gabinete.

Natalya estava junto de Schultz. Justamente como espiã no meio da União Soviética.

“Você tá tremendo?”, perguntou Schultz.

“Um p-pouco”, disse Natalya.

“Fica tranquila. Vai ser moleza”, disse Schultz.

Ambos entraram escondidos em um trem cargueiro indo para Leningrado, atual São Petersburgo. Ao cruzar a fronteira deveriam deixar o trem e a partir de lá ir a pé. Mas era novembro, e o inverno russo se mostrava bem mais frio do que imaginavam que seriam. Como ambos eram fluentes em russo, ao encontrarem um pequeno vilarejo bateram em uma das portas do local pra pedir ajuda.

Um jovem russo abriu a porta. Ele viu os dois, cobertos de neve, com casacos pesados e com o corpo todo branco e simplesmente ficou paralisado depois de abrir a porta.

“Quem é, filho?”, perguntou a mãe, da cozinha.

O garoto não respondeu.

“Podemos entrar, garoto? Somos do sul, estamos indo pra Moscou, nosso carro enguiçou, e precisamos fugir da nevasca”, disse Schultz.

O garoto permanecia mudo.

Nessa hora a mãe, esperando a resposta do filho que não havia chegado apareceu. E deu de cara com Schultz e Natalya, disfarçados de russos, na porta da sua casa.

“Minha nossa! Por favor, entrem! Vocês estão congelando! Sentem-se, por favor”, disse a mãe.

Schultz e Natalya entraram. E se apresentaram.

“Olá, meu nome é Dimitri Ionov, e essa é minha filha, Natalya Ionova”, disse Schultz.

“Muito prazer. Essa é a casa da nossa família, os Vasin. Essa é meu filho mais novo, Aleksei Vasin”, disse a mãe.

“Muito prazer”, disse Natalya ao garoto. Ele estendeu a mão e cumprimentou. Ainda assim o garoto não disse nada.

Esse garoto está muito estranho. Mesmo depois de nos apresentarmos ele ainda não nos cumprimentou. Não deve ser timidez isso, pensou Natalya.

“Vou na cozinha buscar sopa quente para vocês. Por favor, esperem mais um pouquinho, tudo bem?”, disse a mãe.

O garoto continuava encarando os dois. Até mesmo Schultz estava começando a se sentir incomodado.

A senhora estava demorando muito, e por mais que Schultz tentasse quebrar o gelo, o garoto não sedia. Continuava parado, encarando eles.

“Somos de Svetlograd. Conhece? Fica no meio do Mar Cáspio e do Mar Negro. Não faz tanto frio como aqui, é bem mais fresco”, disse Schultz, tentando quebrar o gelo. Mas o garoto continuava imóvel. Até que quatro homens armados com espingardas apareceram na frente dos dois, mirando em Natalya e Schultz.

“Sabemos quem são vocês! Nossos camaradas disseram que são espiões do ocidente! Saiam já daqui, senão todos vocês vão morrer aqui mesmo!”, disse um dos homens.

Enfim o jovem Aleksei estava se mexendo. Deu meia volta e foi pra cozinha onde sua mãe o esperava. O garoto era apenas uma distração.

“Merda, a KGB parece que estava na nossa frente, haha! E agora, Natalya? Você que tá no comando da missão. O que você mandar, eu faço”, disse Schultz, com um sorriso amarelo.

Natalya não sabia o que fazer. Menos ainda o que dizer. Ela mal tinha completado trinta anos, e ouvir isso de Schultz, uma pessoa que mais a inspirou e que era um símbolo de destreza e sucesso dizendo que ela eram quem estava encarregada da missão era demais pra ela. Segundos depois ela enfim entendeu.

Ninguém dava um voto de confiança nela. A única mulher agente de campo de toda a Inteligência teve que lutar muito pra chegar onde estava. E ninguém havia dado sequer um voto de confiança nela até então. E justamente a primeira pessoa que tinha dado um voto de confiança pra ela estava ali do lado dela. Schultz.

Era a chance da vida dela. E ela não poderia deixar isso fugir das mãos dela!

Natalya não apenas negociou amigavelmente com todos os homens armados, como também conseguiu com que eles a levassem até um agente da KGB que passou aos seus superiores que aquilo não era um ataque, e sim um exercício militar. É óbvio que era mentira, e é claro que os Estados Unidos estavam prestes a atacar a União Soviética se os comunistas não estivessem um passo na frente e pego eles. A informação mal havia subido até o chefão da KGB e enfim o Kremlin havia recebido um comunicado pela hotline de que era apenas um exercício, e não um ataque.

Mas a verdade daquela que ficou conhecida como operação Able Archer naquele ano de 1983 ficaria como segredo de estado, e os únicos que saberiam de tudo o que aconteceu além dos políticos da alta cúpula era aquele time de espiões, entre eles Natalya, Schultz e o coronel Briegel.

“Você se destacou na sua primeira missão a ponto de ser a pessoa mais jovem a conseguir essa patente. A partir de agora, você, Natalya Briegel vai entrar para o rol dos melhores agentes da Inteligência mundial. De agora em diante você será a agente M”, disse seu pai, chefe do gabinete, entregando a honraria para a filha.

E assim Natalya Briegel iniciou na Inteligência. E passou ainda muitos anos trabalhando. Viu Schultz ganhar um pupilo, que em pouquíssimo tempo teve uma ascensão mais meteórica que a sua própria. Essa pessoa era Arch.

Já era o ano de 2001, e Natalya, que havia focado em sua carreira profissional estava enfim com vontade de fazer o que a correria do dia-a-dia nunca a havia permitido: constituir uma família.

“Senhora Briegel, por favor, sente-se”, disse o médico.

Natalya sabia que aquilo não deveria ser algo bom. Seu obstetra sempre fora uma pessoa muito sorridente e simpática, e estranhamente estava naquele dia sério e distante. Os exames do seu filho estavam prontos e entregues, e ela estava rigorosamente em dia com seu pré-natal. Por mais que tenha passado por missões complicadíssimas na sua vida toda, essa talvez seria a sua missão mais complicada.

“Senhora Briegel, recebi os exames do seu filho, que está agora aí na sua barriga, e o que tenho não é nada animador. Por conta da sua idade avançada, quarenta e cinco anos, temo dizer que seu filho não nascerá saudável como você desejava”, disse o médico.

“Como assim, doutor? O que os exames indicaram?”, disse o médico.

“Ele está sofrendo de uma má formação no seu útero. Sei que foi por conta do seu trabalho e da sua rotina você adiou muito a gravidez, mas as chances disso acontecer eram imensas, além do risco que sua gravidez poderia acarretar”, disse o médico.

“Em outras palavras ele vai nascer...”, disse Natalya, esperando o médico responder.

“Sim. Com uma séria defiência ment...”, disse o médico, que foi interrompido por Natalya.

“...Um filho retardado?”, disse Natalya, enfurecida.

Natalya estava entrando na décima semana de gravidez. E não entendia porque a natureza tinha que ser assim. Ela estava ocupada trabalhando, tentando ser alguém da vida, defendendo seu país e justo agora em que ela gostaria de entrar numa nova fase da vida, que teria enfim um filho, fruto de um doador de um banco de esperma, que iria cuidar dela na sua aposentadoria e estar junto dela alegrando sua vida, recebia a notícia de que o seu filho teria uma deficiência mental, deixando-o dependente dela pela resto da vida?

Ela não aceitava aquilo. Não queria ter um filho “retardado”, como ela dizia. Era pedir muito? Porque o mundo tinha que ser tão injusto? Será que ela deveria ter sido como todas as outras mulheres e ter virado uma dona de casa e nunca ter tentado viver na ânsia e no desejo de dar orgulho pro pai que ela tanto amou e tanto a apoiou?

“Aborto. Eu vou abortar esse feto”, disse Natalya.

O aborto é legalizado no Reino Unido há muitos anos. E esse era o desejo de Natalya Briegel. Não queria deixar essa criança nem mesmo nascer. Sem pestanejar foi até um clínica que realizava abortos e agendou uma consulta. Pagou a consulta e no outro dia enquanto se preparava para tirar o carro e ir até lá ela viu na estante uma foto do seu pai.

E naquela hora se lembrou do seu pai. Que mesmo que ela não tivesse nenhum tipo de problema mental, seu pai havia criado ela sozinha, sem sua mãe, mas com muito amor. Que seu pai, mesmo apesar de todas as suas fraquezas, sempre esteve do lado dela, apoiando, jogando ela pra cima, acreditando nela. E agora, com um filho ainda na barriga, um filho que ela enfim poderia ter a chance de ser para ele o que seu pai foi para ela, seu desejo era mata-lo e morrer sozinha no futuro.

Papai... Mesmo nos momentos em que eu não pude dar nenhum orgulho para você, você ainda assim acreditava em mim, pensou Natalya, olhando o porta-retratos do seu pai.

Nessa hora ela acariciou sua barriga.

E ainda assim, na primeira dificuldade que me aparece, eu quero simplesmente desistir e virar as costas. Será que nas incontáveis vezes que passamos dificuldades juntos, se você tivesse me deixado mesmo ao invés de acreditar em mim, será que eu teria chegado tão longe?, pensou Natalya.

Meses depois seu filho nasceu. De fato, ele nasceu com uma séria deficiência mental. Mas ainda assim, ele era o ser mais lindo que Natalya Briegel havia visto.

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