segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Doppelgänger - #120 - O doppelgänger de Arch.

“Venha, Eliza. Temos que tomar cuidado com esses seguranças. Só prestarmos atenção, ok? O que eu mandar você fazer, você faz”, disse Neige.

Eliza Vogl estava apreensiva. Ela sabia que a qualquer momento poderia ser alvo dos homens de Ar. Ela era a maior cabeça a prêmio. E naquele momento qualquer um daria tudo para colocar as mãos nela e arrancar dela o Rosebud.

Neige havia recebido no seu comunicador via rádio o aviso de Al que havia encontrado um terminal do VOID. Era só questão de chegar lá e plugar o pendrive e deixar o programa fazer o resto. A questão era chegar lá. Ele era apenas um analista da NSA, ele não era esses agentes de campo que tinham treinamento em CQC. Mesmo Al não era lá um grande lutador, e Agatha e Lucca estavam no hospital. E se fosse necessário Neige lutar contra alguém, como ele faria? Nem ele tinha noção. Ele sempre ficava sussegado com Victoire do seu lado. Ela sabia lutar e o defenderia.

Talvez por usar óculos poderia usar a desculpa que muitos nerds dão, perguntando: Você bateria em alguém de óculos?

Mas a questão era a menina que estava com ele. Ele tinha que proteger Eliza Vogl, e o tempo estava urgindo. Ele estava no segundo andar da Bolsa de Valores londrina, procurando um terminal do VOID em uma sala com diversos computadores usados pelos funcionários da Bolsa. Ele tinha que apenas descer dois andares e ir até o salão onde negociam as ações.

Ok, pense, pense... Não dá pra usar o elevador, então o jeito é voltar por onde eu vim, pensou Neige, indo até a entrada. Ele tremia muito, e ficava com medo toda hora que ouvia os passos silenciosos de Eliza Vogl atrás dele.

“Eliza, espera aqui. Vou dar uma olhada pra ver se tem alguém”, disse Neige.

Ele encostou no beiral da porta, tremendo de medo, e colocou lentamente um olho pra fora. Por mais que Al dissesse que estava a caminho, e que era pra ele aguardar lá, Neige queria dar uma de valente e, na melhor das intenções, facilitar um pouco o trabalho levando Eliza até lá.

Mas o mundo não é feito de apenas boas intenções. Na hora em que ele se virou pra olhar se tinha alguém, um segurança viu seu rosto esgueirado ali.

Merda!! Ele me viu!!, pensou Neige.

“Olá? Tem alguém aí? Identifique-se agora, senão chamarei reforços!”, disse o segurança, apontando sua lanterna e se aproximando da sala onde Neige estava.

“Droga, Eliza! Ele me viu, e tá vindo!”, disse Neige, sussurrando pra Eliza Vogl.

“Ah não! E agora? O que a gente vai fazer?”, perguntou Eliza.

“Você é baixinha, quero que você se esconda e fique atenta a eles, se esconde em alguma dessas divisórias aí, embaixo da cadeira, sei lá! Ou atrás da cortina, mas cuidado pra não mostrar seus pés! Vamos correr que ele tá vindo!”, sussurrou Neige, tentando improvisar uma alternativa pra Vogl. A menina na hora começou a correr silenciosamente.

Mas uma nova voz ecoou no corredor onde o vigilante estava caminhando.

“Esse local agora é nosso. Sinto muito, mas teremos que te eliminar”, disse a voz feminina. Era possível ouvir o salto.

“O que diabos...?!”, gritou o segurança.

Quatro disparos. Era claro que as armas estavam com silenciadores. O som abafado dos tiros atingindo o segurança mal deram tempo pro homem gritar. Devem ter sido tiros para matar instantaneamente.

Agora Neige tremia ainda mais de medo. Havia um outro grupo de pessoas no edifício! E eles estavam lá pra matar as pessoas!

Al, cacete... Aparece logo, caramba!, pensou Neige, aterrorizado.

- - - - -

O grande salão onde os corretores ficam imensos em seus telefones e computadores estava apenas mostrando o protetor de tela em standby os logos da “London Stock Exchange” e “FTSE 100”. A luz era parca e o local estava em escuridão. Al estava voltando pra buscar Neige, já estava a poucos metros do local onde Ar, Dietrich e Rockefeller estavam conversando.

Agachado, olhando calmamente para onde estava indo, Al ia avançando, metro a metro, até a entrada do outro lado do salão, usando os computadores como proteção pra não ser visto.

Havia um guarda no topo caminhando, fazendo ronda. Al parou em uma esquina pra esperar ele passar. Talvez ele poderia vê-lo ali embaixo, mesmo que a única iluminação viesse dos protetores de tela dos computadores.

“Ah... Minha coluna, droga”, disse Al, sentindo as dores depois de andar tanto tempo agachado.

A idade realmente está chegando... Merda. Seria muito bom se fossem apenas esses cabelos brancos, pensou Al.

Ele, escondido ainda, sentou-se pra descansar a coluna e esperou meio minuto pra olhar de novo pra ver se o segurança já havia dobrado o corredor acima.

Al ouviu um som abafado. Pra quem trabalha na Inteligência sabia que aquele som era inconfundível. Era o som de uma arma disparada com um silenciador. Al voltou a se agachar e baixou pra olhar a direção de onde o tiro estava vindo.

O segurança estava caído no chão, e quatro pessoas estava puxando seu corpo. Seu rosto estava virado pro lado, e era claro ver o buraco que havia sido feito na sua testa.

Hã? Quem são esses caras?, pensou Al.

As pessoas estavam com roupas stealth, roupas usadas em operações de espionagem especiais do exército. Pretas. Pareciam agentes experientes.

Merda, não posso perder mais tempo, preciso alcançar logo o Neige!, pensou Al.

Foi então avançando de computador a computador até a porta, agachado. A dor parecia que estava passando, uma vez que o desespero estava tomando mais conta de seu coração. Al apenas via a porta da saída que ele deveria alcançar, pra pegar Eliza Vogl e enfim trazê-la com o Rosebud pra acabar com tudo isso. Estava tão focado que apenas uma coisa poderia tirar seu foco do seu objetivo. Apenas uma coisa:

Novamente Al viu as costas daquela pessoa que ele sabia que era inconfundível.

Mano?, Al novamente pensou ao vê-lo caminhando.

Parecia seu falecido irmão, Arch. Novamente. Caminhando calmamente entre os computadores, indo em direção da mesma saída em que ele estava indo. Por mais que realmente parecia muito com os trejeitos de Arch, Al sabia que aquilo com certeza era uma cilada.

Não, Al, foco, foco! Não pode ser o Arch. Arch está morto! Larga disso... Mas e se for o Ar de novo com essas brincadeiras dele? Se for ele mesmo, ele deve ser a pessoa que se troca mais rápido no mundo, pois não tem nem uns dois minutos que acabei de vê-lo ali na sala..., pensou Al.

Como ambos estavam indo na mesma direção, Al continuou seguindo para a saída, sempre mantendo uma distância do suposto Arch, que estava na sua frente. Viu inclusive o próprio Arch cruzando a entrada do salão. Era apenas uma questão de Al subir a escada na sua frente, ir até o segundo andar, e tirar Neige e Eliza Vogl de lá. Ele poderia deixar pra pegar o Ar, que estava claramente disfarçado de Arch pra depois.

Foi aí que Al, que mantinha o olhar em Arch, esperando ele cruzar o corredor para ele então subir a escada virou seu rosto em direção de Al. E aí seus olhares se cruzaram no meio daquela penumbra.

Não era possível. Era muito parecido. Bem mais envelhecido, é claro, afinal Arch deveria estar beirando os cinquenta anos se estivesse vivo. Mas com certeza era daquele jeito que Arch estaria se estivesse vivo. O cabelo grisalho jogado pra trás, os olhos azuis, a barba apenas no queixo, a barba de “bode”, e um detalhe que, embora fosse incômodo, fazia todo o sentido: um dos seus olhos era branco. Não tinha íris. Fruto da época pouco antes da sua morte em que ele fora torturado e perdera um olho.

Mas o olhar, o jeito, a expressão, era como se seu irmão não tivesse morrido e estivesse ali, na sua frente! Al tremeu, sentiu quase como se seu coração tivesse parado. Por um lado sua mente dizia que aquilo era uma ilusão, que não era Arch vivo realmente. Mas por outro lado seu coração queria ver aquilo mais de perto. Não poderia ser verdade! Ele conseguiria copiar tão fielmente seu irmão, ou aquele lá era seu irmão de verdade mesmo?

Era um dilema que havia colocado ele com duas escolhas na mão. Exatamente como foi com Victoire, momentos atrás. A missão, ou sua vida pessoal?

Merda... E agora? E se o Neige estiver com problemas? Mas que droga... Porém pode ser que seja o Ar disfarçado. Ah, mas que besteira, Al. É claro que o Ar disfarçado de Arch! Como você teria dúvidas ainda sobre isso? Bom... Acho que já sei, pensou Al.

Muitas vezes nós estamos com o destino na nossa mão, em nossa vida. Ainda que nós tenhamos uma escolha óbvia e correta na nossa frente, muitas vezes acabamos agindo com nosso coração e fazendo uma segunda escolha. E achamos até mesmo uma justificativa pra nós mesmos pra fazer o que não é correto. Tudo para podermos satisfazer o que queremos e ao mesmo tempo manter uma consciência limpa. Foi isso que Al decidiu naquele momento.

Vou atrás desse falso Arch. Preciso ver mais de perto com meus próprios olhos. É claro que o Ar disfarçado. Vou derrubar ele e depois trazer Eliza Vogl pra cá. Com certeza eles não devem estar em apuros, pensou Al, indo em direção do doppelgänger de seu irmão mais velho.

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