quarta-feira, 16 de março de 2016

Doppelgänger - #136 - DEICIDIUM I

O punho de Al havia acertado Ar em cheio. Este recuava pra trás tentando se recompor, e antes que conseguisse recuperar o equilíbrio, Al veio com todo impulso, e em um empurrão se jogou de cabeça contra Ar, que bateu forte na parede de um dos servidores do VOID.

Ar não soltava um único grito. Al o agarrou pelo seu sobretudo e o puxou de volta da parede, segurando firme com uma mão e desferindo socos com a outra. Depois do terceiro soco Al acabou soltando o sobretudo de Ar, e o impulso de um quarto soco o jogou no chão, que caiu deslizando no chão deitado, até ficar bem próximo de chamas que haviam alcançado o chão.

Al foi caminhando até ele. Faltavam apenas alguns passos, e Ar virou seu rosto, com o nariz sangrando e os olhos vermelhos, dizendo:

“É só isso?”, disse Ar, “Você pode ser inteligente, mas acho que teria sido melhor trazer Victoire ou Agatha. Elas teriam batido bem mais forte. E você sabe disso”.

Era verdade. Al estava completamente sem ar. Sua respiração estava ofegante, e sua mão, que havia usado pra desferir os socos em Ar, estava doendo muito. E Al achava que tinha usado toda sua força. Mas sequer tinha feito cócegas em Ar. Nem mesmo um grito ele tinha soltado.

O jeito era usar as palavras.

“Bom, vou começar falando sobre você, imbecil”, iniciou Al, “Você acha que pode manipular o mundo pra criar essa utopia, usando a imagem do meu irmão, e do seu pai, uma pessoa pura que sempre quis o bem de todos! Você brinca com a economia, empresas e governos como se fosse seu joguinho particular! Você não tem noção nenhuma do que está fazendo, seu idiota! E se as coisas saírem do seu controle?”

Ar estava se erguendo calmamente enquanto Al falava. Tirando o sangue escorrendo do nariz, parecia que nada havia acontecido.

“Essa é a ideia. O caos! O homem durante sua história sempre passou por momentos de transformação. Caso contrário estaríamos presos em feudos ainda. Saíamos dos feudos e criamos o capitalismo. Derrubamos a monarquia, e veio então a república. Agora vamos sair da selvageria, e vamos todos viver uma sociedade enfim igualitária onde ninguém será submisso a nenhum governo. Uma anarquia que todos ajudarão uns aos outros, um mundo perfeito!”, disse Ar.

“É exatamente isso, seu idiota! Você fica se escondendo por detrás desse seu plano de aperfeiçoamento social, mas você parece que não entende que você não foi o primeiro, nem mesmo o último a pensar isso!”, disse Al.

“Ora, cala essa boca! Guerras acontecem por causa disso! Os dois lados sempre vão defender sua justiça como a correta!”, disse Ar, vindo pra cima de Al.

O golpe de Ar dessa vez doeu muito mais do que da outra vez. Al tentava se defender, colocando os braços em frente ao corpo, mas foram muitos golpes. Sequer teve tempo de respirar, tentando se defender dos golpes, e recuando passo a passo. Quando encostou na lataria do VOID (ou do que ele tinha sido um dia), Al pegou e se jogou pra cima de Ar, empurrando-o.

Ar foi jogado, caindo novamente no chão.

“Sim, muita gente tentou isso! As ideias que meu irmão tinha foram herdadas do coronel Briegel, de uma missão que ele viveu durante a Segunda Guerra Mundial! Foi depois de lá que nasceu o plano do Chrysalis, que você diz que é original seu. Não, Ar... Muita gente, muita gente tem tentado isso. Mas ninguém conseguiu! E talvez passarão décadas, séculos, milênios, e ninguém vai conseguir! É verdade que coisas como democracia não são as melhores opções. Mas entre as opções, é a melhor que temos, e temos que defender ela! Entre os males, é o menor pior!”, disse Al.

“Cala essa boca!! Tô cansado de falar com você, você nunca vai me ouvir!”, disse Ar, se erguendo e indo pra cima de Al.

Cada vez mais os golpes vinham com mais e mais fúria, mas dessa vez Al usou a força do seu adversário contra ele mesmo. Assim que ele veio pra cima, Al se agachou, desviando do golpe e aplicando uma cotovelada peitoral do seu adversário.

Ar recebeu o golpe, e quando ia se virar, recebeu do seu tio uma rasteira jogando-o no chão. Al montou em seu tronco e começou a desferir diversos socos, cada vez alternando entre um punho e outro na cara dele. E enfim, depois de alguns golpes, Ar deu o primeiro grito de dor. Talvez estivesse enfim funcionando.

Mas Al estava velho. E cada vez mais ele ia ficando mais tonto. Os golpes, que estavam fortes, estavam fracos. Até que ele caiu pro lado, cansado.

Ah, que merda... Agora não, argh!, pensou Ar. Mas seu corpo não respondia mais. A luta contra a idade era uma luta perdida.

Os dois estavam jogados no chão. Um do lado do outro. Al estava sem energia, olhando pro teto, cada vez mais escuro, sendo tomado pela fumaça negra, cada vez mais presente.

“Sabe o que mais me machuca? Você usar o meu irmão, o seu pai, pra justificar seus atos. Justificar pessoas sofrendo. Você manipulou eu, manipulou pessoas que estiveram ao lado dele, e eu falhei nessa missão desde o começo. Ainda estamos em 2012, e o mundo está caminhando pra um futuro cada vez mais sombrio. Eu te criei como meu irmão mais novo Ar. Eu queria ser pra você o que meu irmão foi pra mim. Isso que eu achava correto”, disse Al.

Mal sua visão tinha ficado boa novamente e Al vê, ao seu lado, de pé, o próprio Ar. Ele fita Al, como um predator olhando sua presa, prestes a abater.

“Sua vingança não é contra mim. É contra o mundo que todos nós demos sangue pra proteger. Ar, meu irmãozinho...”, disse Al, com lágrimas, “...Meu querido sobrinho... Pare com isso. Eu imploro”.

Ar ainda em pé ao seu lado. Começou então a chuta-lo com brutalidade.

“Seu inútil!”, dizia Ar, enquanto alternava as falas entre os chutes no corpo de Al, “Quando eu precisei de você, não estava lá! Não esteve do meu lado! Se afundou na depressão depois que perdeu a esposa! Vive com outra identidade em algum lugar do mundo, escondido de todos! Eu queria você do meu lado! Eu queria você construindo comigo o mundo que o seu irmão sempre quis!”.

Mas Al ainda persistia. Por mais que o corpo pedisse para desistir, ele continuava tentando se manter acordado. Mesmo com todas as dores, não apenas no seu corpo, mas na sua alma.

A vontade de viver. Eu preciso continuar. Não importa se for contra o meu irmão, pessoas irão sofrer se eu desistir. Eu não posso desistir! Eu não fui tão longe pra completar o treinamento com meu mestre e agora não usar. Uma pessoa lógica pode ter certa vantagem de não usar seus sentimentos na investigação, mas eu posso usar meus sentimentos. Eu posso superar isso! Eu tenho que fazer diferente! Nada supera essa vontade de viver!, pensou Al, como num flashback do treinamento final do seu mestre.

Ar cansou de chutar. Al já não gritava. Talvez estivesse morto.

Ele se abaixou e olhou no rosto de Al. Ainda piscava e respirava. E Al foi lentamente se erguendo, até ficar sentado no chão, de frente pro seu sobrinho.

Da onde ele tirou forças?, pensou Ar.

Al não queria mais bater. Não queria mais violência. Depois de tomar um Ar, sorriu um sorriso cheio de sangue nos dentes para Ar, mas ainda totalmente amistoso.

“Escuta... Eu sei que falhei. Não fui um irmão, ou tio perfeito pra você como meu irmão foi pra mim, mas...”, disse Al, sorrindo amistosamente, “...Se não for tarde demais, será que poderia me dar a chance de te ajudar? De me redimir de tudo o que te fiz? Me dê a chance de consertar. Por favor”.

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