quarta-feira, 23 de março de 2016

Doppelgänger - #137 - DEICIDIUM II

Ar estava começando a se erguer. Já estava sentado. Al mal tinha forças pra fazer isso, permanecia jogado no chão.

“Acho que agora tenho que falar sobre mim também”, iniciou Al.

“O que? Depois de falar tanta asneira de mim agora vai falar sobre você?”, disse Ar, ainda furioso.

Al virou o rosto e encarou Ar calmamente.

“Eu sinto muito por tudo o que eu te fiz. Muito, muito mesmo. Me perdoa, por favor. Eu sei que o que mais pesou foi que eu era um exemplo muito grande pra você, não é mesmo?”, confessou Al.

“É óbvio que você era! Você foi a pessoa que me criou, me treinou, e me tornou o que sou hoje! E depois me abandonou e foi pro fundo do poço, como um derrotado que você sempre foi, vivendo tentando alcançar o que seu irmão mais velho era, que você nunca será!”, disse Ar.

Al, com os olhos lacrimejados parecia recuperar o fôlego. Havia se erguido e também já estava sentado. Colocou a mão no ombro de Ar calmamente. Estava claramente tomado pela emoção.

“Ar, eu nunca vou conseguir fazer nenhum mal contra ti. Talvez eu poderia até tentar, mas cada coisa que faria contra você doeria o triplo em mim. Você que esteve junto comigo e a Val naqueles tempos difíceis, era você quem estava do nosso lado, compartilhando as dificuldades. Você é a minha única família, a única pessoa que restou pra mim. E eu também de você. Vamos parar com isso. Por favor!”, disse Al.

Por um momento Ar ficou olhando atentamente pra Al. Os olhos de ambos haviam se encontrado, e eles estavam se vendo como há muito tempo não se viam. Ar havia mudado muito. Talvez Al não teria mudado tanto desde a morte da esposa, que culminou no afastamento de Ar. Mas naquele momento, tomado pela escuridão e pelo alaranjado daquele fogo todo, parecia um momento em que eles nunca haviam compartilhado em tanto tempo.

“Corta essa!”, disse Ar, se erguendo.

Al estava surpreso. Com a expressão mostrando seu susto viu Ar agarrando-o pelo pescoço com as duas mãos e o erguendo.

“Vamos, levanta seu idiota. Pelo menos morra com a cabeça erguida!”, disse Ar, usando toda sua força pra erguer Al, que mesmo exausto, tentou se manter em pé.

“Me desculpa, Ar! Me desculpa por ter me rendido à depressão quando minha esposa morreu!”, disse Al, tentando apelar pra alguma compaixão que tivesse em Ar ainda.

Ar ainda segurava Al pelo pescoço. Ar deu uma brutal cabeçada depois da última fala de Al, que o fez cambalear para trás, com a mão na cabeça, sentindo muitas dores. Chamas ficavam cada vez mais furiosas atrás de Al. E Ar teve a ideia de se jogar contra Al, empurrando-o contra as chamas atrás dele.

“Quem vai virar cinzas é você, seu idiota!”, gritou Ar, correndo em direção de Al, para empurrá-lo com toda sua força para as chamas.

Merda! Ele está tomado pela fúria!, pensou Al.

Ar veio correndo pra cima de Al. Este percebera que ele estava cego de fúria, e que não teria condições dele, na altura da sua idade, combater Ar de igual pra igual. O jeito era usar a força dele contra ele mesmo. Al simplesmente desviou.

Ar foi com tudo e passou por Al, sem nem tocá-lo. Desviou a tempo e bateu nos servidores do VOID, derrubando-os. Vários fios partidos jogaram faíscas pra cima, enquanto Ar se erguia novamente.

“Seu espertinho, eu vou te matar agora!!”, gritou Ar, com marcas de ferimento no braço.

“Ar, se provavelmente minha esposa estivesse viva, eu não descarto que talvez seria eu que estaria do seu lado, nessa sua insurreição. Mas a morte dela abriu um buraco enorme em mim, uma cicatriz que nunca consegui de fato curar! Eu não queria saber de mais nada, exceto viver num eterno luto por ter perdido ela nos meus braços! Eu não consegui lutar, eu não consegui me erguer! Queria enfim ter uma vida comum, com problemas comuns, como uma pessoa comum! Estava farto de ser uma ferramenta de interesses maiores!”, disse Al. Mas Ar não parecia ouvir.

“CALA A BOCA!!”, gritou Ar.

Novamente Ar, furioso, correu pra cima de Al tentando agarrá-lo. Mas, novamente, Al desviou sem problemas, e Ar acabou se chocando contra outros servidores do VOID, derrubando todos do lado oposto de que ele havia caído da primeira vez.

“Eu queria ser pra você o que meu irmão foi pra mim. Mas eu nunca consegui isso. Meu irmão era um avatar da justiça, uma pessoa justa e bondosa, e eu nunca consegui ser como ele pra você. Nunca. E isso tudo é culpa inteiramente minha, Ar.”, disse Al.

Ar ainda tentava se erguer, no meio de mais lixo do VOID que ele havia aterrissado.

“Infelizmente não sou um ser humano como meu irmão foi. Eu tenho falhas, e muitas. E eu sinto muito, muito mesmo por tudo o que eu te fiz. Eu não sou nenhuma lenda, não sou nenhum super agente da inteligência. Sou um cara comum e melancólico, triste por ter perdido a esposa que tanto amou e o irmão que tanto se inspirou. Eu sou apenas um sobrevivente. Porque sei que morreria igual um animal a qualquer momento, sem glórias, sem ninguém. Essa é a verdade sobre mim”, disse Al.

Ar estava terminando de se erguer. Seus olhos estavam furiosos. Ele havia perdido o controle de si mesmo.

“E se não for tarde demais, será que não poderia me dar a chance de te ajudar?”, pediu Al.

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