sexta-feira, 1 de abril de 2016

Doppelgänger - #139 - Fogo azul.

“Acabou”, disse Ar, olhando para o corpo de Al no chão, “Nos vemos daqui a pouco no inferno”.

A fumaça dominava o local. E sem dúvida nem mesmo Ar aguentaria muito tempo ali. Ele observava Al jogado no chão, apagado. Parecia um moribundo mesmo. Ar sabia que não tinha muito mais tempo. Logo estaria também sufocado e tudo estaria acabado.

“O plano está feito. Vai ser bom ver sua reputação jogada no lixo, e eu ascendendo ao céu como um mártir. Um herói. Tudo já foi encaminhado pelo VOID. Eu vou morrer, mas morrerei vitorioso. Outros continuarão meu plano!”, disse Ar, olhando pra Al, meio que falando sozinho também.

Ar sentiu gotas de água caindo na sua cabeça. Naquela confusão de toda a fumaça, a falta de luz, escuridão, não sabia direito se aquilo era verdade ou se era uma alucinação.

Hã? Que líquido é esse? Droga, não consigo ver muita coisa nesse escuro todo, pensou Ar.

Um barulho leve tomou conta do local. Parecia que os dutos de ar, que antes enquanto o VOID estava ligado estava sugando a fumaça pra fora, estava funcionando misteriosamente. E estava sugando a fumaça pra fora novamente.

Ar ainda olhava, mas não entendia o que estava acontecendo.

Será que o VOID ainda está ativo?, pensou Ar, que já estava encharcado pelo líquido. Sugou um pouco que estava escorrendo no seu rosto e provou: Isso... Parece água! Impossível! Os sprinklers no teto que eu não consegui ligar resolveram funcionar justo agora?

O fogo já estava praticamente apagado. Os sprinklers foram mais que suficientes. Mas ainda havia algo ali...

Ar se virou pra trás e levou um susto.

- - - - -

Uma gota deslizava no meu rosto. Fazia cócegas.

Daquela vez, quando eu estava praticamente morto, foi quando eu encontrei o meu mestre e enfrentei a Ravena. Fiquei trancado em sua hipnose, enquanto ela, uma médium poderosa, usava toda sua força espiritual pra me manter lá. Eu estava preso.

Mas quando eu resolvi lutar contra aquilo, quando resolvi lutar contra as minhas memórias, os meus medos, havia um elo ainda entre meu espírito e o meu corpo.

Acho que nada no mundo poderia me despertar como essa gota que deslizava no meu rosto. Nada. Nem gritos. Nem dor. Poderiam até me arrancar meu coração pulsando do meu peito que nem mesmo isso me despertaria. Sentir uma gota deslizando no meu rosto me remetia a ume memória que nunca consegui apagar da minha memória. Memória ligada à emoção, que talvez estivesse tão encrustada no meu inconsciente que talvez nem mesmo eu desse conta disso.

Naquele dia eu estava no colo dela. Estava deitado. Eu tinha medo. Éramos muito jovens, e fomos forçados a nos casar e viver em um exílio. Um exílio que significaria uma nova vida para nós também. Uma vida longe da Inteligência, sem mais sermos manipulados pelo governo, empresas ou interesses da alta sociedade. Poderíamos ter uma vida comum, com emprego comum, talvez até mesmo constituir uma família.

E enquanto eu estava com a cabeça no colo dela, eu sentia que isso me confortava. Era tão bom! Era macio. E ela havia colocado a mão dela no meu ombro, e depois deslizou até meu rosto. Isso me deixou arrepiado. Eu queria colo. Um colo que nunca tive, pois aquilo tudo era muito novo pra mim, para nós.

Nós havíamos sido criados pra espionar, pra salvar governos, descobrir segredos, resolver mistérios. Mas ali estávamos tentando iniciar uma vida comum e nem sabíamos como começar.

O cabelo dela cor-de-beringela estava jogado por cima de mim. Meu rosto estava virado de lado, senti o cabelo dela jogado no meu pescoço e fazendo cócegas na minha orelha, com aquele cheiro tão gostoso. E aí senti uma gota caindo na minha testa.

Virei o rosto. E jamais vou esquecer isso. Eram lágrimas dela.

Ela chorava pois assim como eu, ela não sabia o que seria dela. Justo ela, que sempre foi tão fria? Jamais havia sorrido, chorado, demonstrado raiva. Mas naquele momento, com nós dois amedrontados vivendo na escuridão em um país com língua, costumes e cultura totalmente diferente dos nossos ela se rendeu. Foi a única vez que a vi chorando até aquele momento.

A segunda vez que eu a vi chorando foi logo depois que ela foi atropelada, pouco antes de morrer nos meus braços.

A gota deslizava no meu rosto, fria. Mas aquecia meu coração e me dava coragem, como nunca nada no mundo poderia me dar.

- - - - -

Os sprinklers estavam começando a parar. Algumas luzes de emergência foram ligadas, a fumaça estava sendo drenada e dava pra distinguir um pouco melhor o que estava na frente.

E o que Ar viu o fez levar um susto como nunca antes havia levado na vida.

Ar não podia acreditar. Al estava rastejando. Seu sangue estava misturado com aquela água toda, deixando um rastro vermelho no chão. Ele mal havia se movido alguns centímetros, mas era possível ver que ele ainda estava vivo, mesmo depois de ter levado aquele tiro!

“Nada melhor pra nos despertar do que um pouco de água no rosto, não é mesmo, Ar?”, disse Al, ainda no chão, virando o rosto pra Ar, sorrindo.

“Mas que merda! Você não pode simplesmente se render e morrer pacificamente?”, gritou Ar, empunhando a sua arma.

Nessa hora uma coisa inexplicável aconteceu. Parecia uma explosão, uma das paredes simplesmente veio ao chão e um fogo azul e branco começou a brotar de lá. Parecia que vinha até dentro da sala carregado por alguma força sobrenatural, e estava muito difícil distinguir as coisas que uma vez estavam escuras naquela claridade imensa que se abriu do nada.

Ar não disparou, e se virou, apontando a arma pro local da explosão. Seu coração palpitava muito, a claridade era imensa em seu rosto, as chamas azuis e brancas pareciam engolir a sala inteira, era algo surreal e inexplicável. Uma fumaça branca estava aparecendo no chão no redor e chama e indo além, calmamente. Inexplicável.

Al, no chão também não entendia nada. Suas pupilas ainda estavam acostumadas com aquela escuridão toda e estava com dificuldade de distinguir qualquer coisa, sequer conseguia manter os olhos abertos.

A única coisa que os dois viram é que um vulto estava vindo em direção deles naquele momento...

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