sábado, 28 de maio de 2016

O arquiteto em Matrix Reloaded e budismo.

Eu gosto muito de Matrix. Gosto muito de todos os filmes, mas gosto em especial do segundo, Matrix Reloaded. Depois eu colocaria em segundo lugar o primeiro Matrix e o que menos gosto é o terceiro, Matrix Revolutions. Eu adoro todos, e sempre assisto quando vejo que tá passando.

Engraçado que cada vez que eu vejo tem um detalhe novo que eu não havia percebido das outras vezes. E embora o filme seja lembrado pela grande evolução em termos de efeitos visuais, Matrix tem muita filosofia e até conceitos budistas embutida. E se for pra falar do filme vai dar um post bíblico, então quero focar na difícil parte de entender do final, quando Neo encontra o Arquiteto:



O diálogo completo achei nesse link.

A primeira parte do diálogo é meio óbvia de se entender, o Arquiteto fala que Neo é como uma equação fora das outras equações, como se fosse alguém que havia sido escolhido mesmo. Mas vai fazer mais sentido ainda na explicação mais pra frente, eu prometo. Por isso não vou falar muito ainda sobre o escolhido ser a "equação errada".

A primeira parte interessante se dá logo após esse diálogo, quando ele fala sobre a construção de Matrix:

"A primeira Matrix que eu projetei era evidentemente perfeita, uma obra de arte, impecável, sublime. Um triunfo equiparado apenas ao seu fracasso monumental. A inevitabilidade de sua ruína é tão evidente para mim agora quanto é uma conseqüência da imperfeição inerente a todo ser humano".

Interessante que isso bate um pouco com uma idéia de "jardim do éden". A primeira matrix era um mundo perfeito, e sem problemas os seres humanos simplesmente não viviam. Lembram-se que no primeiro filme deixam bem claros que os seres humanos servem pra gerar energia para as máquinas, logo seria necessário que os humanos tivessem noção de que o mundo fosse real para que vivessem e assim gerassem mais energia. Não dá pra apenas vegetar!

Talvez essa questão seja que o ser humano não é feito para uma vida perfeita e tranquila. E ninguém está livre disso. No budismo, por exemplo, ninguém vai te prometer uma vida sem problema algum. Mas vai te dar meios para que os supere e siga em frente. Pois uma vida sem problemas é uma vida sem crescimento, sem desafios, sem sobrevivência e sem exercício das nossas capacidades. Uma vida que aparentemente é plena, na verdade é nada menos que estagnação, e isso sim seria o nosso fim.

Exemplo básico: se o mundo é perfeito, pra que por exemplo teríamos que nos preocupar em procriar? Tirando a questão do amor, o ser humano tem como objetivo na procriação lutar por um mundo melhor para que seus descendentes vivam. Ter filhos é um ponto decisivo de amadurecimento de muitas pessoas imaturas, por exemplo. Se o mundo é como a primeira Matrix, pra que precisar se sujeitar, entre outras coisas, à esperança de um mundo melhor pros filhos quando o mundo já é perfeito o suficiente?

"Assim sendo, eu a redesenhei com base na história de vocês para refletir com maior precisão as variações grotescas de sua natureza. Todavia, mais uma vez, eu fui frustrado pelo fracasso".

Parece que o segundo teste era o inverso, criar um mundo que refletisse as variações grotescas na natureza humana. Em suma: um mundo onde apenas teriam coisas ruins. Mas engraçado que também foi uma falha aí.

Acho que a questão aqui seria de, apesar dessa segunda matrix ter desafios no cotidiano, não havia superação ou recompensa após superar os ocorridos. Uma coisa que falam muito no budismo é que não existe má sorte. Mesmo quando te acontece algo ruim, é uma oportunidade escondida para que você cresça, depois que superar. Parece que a matrix ideal seria um equilíbrio mesmo, pois parece que nessa segunda matrix haviam apenas problemas e todos os aspectos ruins dos seres humanos, mas não a experiência e aprendizado após superarem.

Talvez uma matrix imergida em guerras, escravidão, chacinas, coisas do gênero. Se a luta pela vida, por mais que tentasse, resultaria numa inevitável morte, então pra que raios lutar pela vida? Todos morreram, e foi uma falha, igual na primeira matrix.

"Desde então, compreendi que a resposta me escapava, porque ela necessitava de uma mente inferior, ou talvez uma mente menos afeita aos parâmetros da perfeição. Portanto, a resposta foi encontrada, por acaso, por outrem, um programa intuitivo, inicialmente criado para investigar certos aspectos da psique humana. Se eu sou o pai da Matrix, ela sem dúvida seria a mãe".

Essa parte é como o Arquiteto criou a Oráculo. A Oráculo seria um programa que entenderia os humanos, que aprenderia de forma intuitiva (isso é, aprenderia por meio da convivência) e que, por conta desse aprendizado, seria "inferior", pois entenderia o que estava faltando ali.

A fala acima é definição do papel da Oráculo mesmo. Os resultados dela aparecem na próxima fala:

"Oh, por favor... Como eu dizia, ela se deparou por acaso com uma solução por meio da qual quase 99,9% de todas as cobaias aceitavam o programa, contanto que lhes fosse dada uma escolha, mesmo que só estivessem cientes dela em um nível quase inconsciente".

Seres humanos aceitariam o programa contanto que lhes fossem dados a questão da escolha. É o princípio básico do budismo, a lei da causa-e-efeito, o popularmente carma.

A questão das cobaias aceitarem é que isso é algo inerente da mente humana e da maneira com que vemos o universo à nossa volta. Tudo o que você faz, volta pra você, seja bom ou ruim. Uma pessoa que, por exemplo, tem uma relação difícil com alguém se, ao invés de atacar de volta a pessoa, tratar essa pessoa bem, em algum momento essa bondade e sinceridade irá retornar pra si e a pessoa que te trata mal não vai mais fazê-lo, pois você não alimenta a raiva do outro. Mas pra isso você também tem que estar livre de esperar qualquer coisa em troca, em outras palavras, libertar-se do seu ego, dos apegos de esperar algo em troca. Caso contrário não vai conseguir.

No budismo não existe reverência a nada, e menos ainda esperar milagre cair do céu. É exatamente como o Arquiteto diz: temos uma escolha. Somos nós que fazemos nosso destino. Ao escolhermos fazer o bem, no mínimo o que você vai ter é a consciência limpa de levar uma vida justa. Por isso essa versão da matrix é a que talvez tenha dado mais certo. Pois a vida do ser humano é regida por essa lei da causa-e-efeito. Sem ela, não seria possível existir vida.

"Embora esta resposta funcionasse, ela era óbvia e fundamentalmente defeituosa, criando, assim, a anomalia sistêmica contraditória, a qual, sem vigilância, poderia ameaçar o próprio sistema. Por conseguinte, aqueles que recusavam o programa, ainda que uma minoria, se não vigiados, constituiriam uma probabilidade crescente de catástrofe".

Já dizia o filósofo SAFADÃO, Wesley: "99% anjo, perfeito, mas aquele 1% é vagabundo".

Bom, 99,9% das pessoas aceitariam e viveriam a matrix, e todas essas estão adormecidas na rotina da matrix, levando suas vidas sem questionar, aceitando todos os autos e baixos da vida cheia de sofrimento e, claro, servindo pra virarem bateria pras máquinas.

Mas, por conta de algum fator caótico, 0,01% dessas pessoas seriam uma anomalia do sistema, e levariam outras pessoas a esse mesmo despertar, e poderia causar uma catástrofe pois a matrix precisa que as pessoas vivam baseadas nessa vida de escolhas, nessa vida da lei da causa-e-efeito num looping infinito.

(E claro que as máquinas não iriam querer saber se havia sofrimento, ou algo do gênero. Eles queriam mais é que os humanos se fodam mesmo)

No filme, os 0,01% são as pessoas que conseguiram sair da matrix, como Neo, Morpheus e Trinity. Mas podemos fazer um paralelo disso como esses 0,01% sendo o Buda. Levando em consideração que o Buda histórico (Sidartha Gautama) ao alcançar o despertar conseguiu ver o mundo além das escolhas. Que as pessoas do mundo poderiam levar vidas melhores, mesmo com os problemas do dia-a-dia, e treinar a mente para lidar com esses problemas enquanto empreende em ações para praticar o bem.

E não apenas isso. Como o próprio Arquiteto disse, caso as pessoas começassem a levar essas vidas igual esses 0,01%, cada vez mais esse número cresceria, e com uma mente mais tranquila, levando vidas melhores onde cada humano tivesse controle sobre seus sofrimentos, seriam reações a menos para gerar eletricidade pras máquinas, que obtém sua energia exatamente da capacidade que o ser humano tem de sofrer consequências das suas escolhas - e não caso o ser humano pudesse lidar com isso tudo de uma forma positiva.

Logo depois de falar isso o Arquiteto fala que Zion será destruída e que a matrix e todos os seres humanos serão extintos. Mesmo que isso acarrete alguns apagões de energia para as máquinas, reiniciar o sistema seria imperativo, pois os 0,01% não eram mais apenas 0,01% de antes. Estava crescendo, e isso causaria uma bagunça danada.

Por fim, a última fala que queria destacar do Arquiteto é uma das últimas que ele fala no filme:

"É interessante ler suas reações. Seus cinco predecessores eram, por conta de seu projeto, baseados em uma mesma premissa, uma afirmação contingente responsável por criar um profundo vínculo com o resto de sua espécie, facilitando a função do Predestinado. Enquanto os outros experimentaram isto de maneira genérica, sua experiência é bem mais especial. Vis-à-vis, amor".

No caso do Neo existe a questão do "amor", especialmente pela Trinity. Mas isso não desmente que todos os que foram os escolhidos antes de Neo tinham, nas suas palavras, "um profundo vínculo com o resto da sua espécie". E, inspirados nisso, foi que chegaram até lá.

Isso dá pra fazer um paralelo final com budismo. Vamos nos colocar há 2500 anos atrás. O Buda, Sidartha Gautama despertou pro Nirvana. Adquiriu sabedorias, verdades sobre a mente humana, e enfim, se tornou aquele 0,01%. Dizem que ele ficou num dilema enorme se compartilharia aquilo que ele havia adquirido, ou se ficaria só com ele.

Assim como é a empatia (esse vínculo humano que o Arquiteto fala) que moveu o Buda a compartilhar o que ele descobriu que pra todos pudessem chegar no mesmo estado que ele, as pessoas que despertam de alguma forma, mesmo depois de milênios, inspirados pelo esforço do buda, também tem esse objetivo. Agir como um grande veículo (mahayana) e entender que iluminação é como o fogo de uma vela: você pode com uma única vela acender milhões de outras e a chama vai continuar igual. Felicidade nunca diminui ao ser compartilhada com os outros.

É esse o profundo vínculo que os que fogem dos 99,9% desenvolvem. Se você achasse uma maneira de sair da Matrix, depois de entender que todas as pessoas que lhe são importantes estão presas lá, levando vidas de pouca felicidade, muito sofrimento e tristeza, você não faria um esforço pra tirá-las de lá? :)

Vamos tomar a pílula vermelha e cair fora da matrix, galera! Ter o domínio da sua própria mente, enquanto empreende atos de bondade com os outros. Esse é o segredo.

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