quinta-feira, 7 de julho de 2016

Livros 2016 [#6] - Gone Girl

Dia 17 de junho fui pra uma entrevista ali perto do Shopping Morumbi e passei na Livraria na volta e dando uma olhada nos títulos em inglês que tinha lá achei que deveria tentar um livro atual. Eu ando lendo muita coisa clássica, com linguagem bem rebuscada, e fico boiando ás vezes.

Comprei baratinho (acho que uns vinte reais) o livro da autora Gyllian Flynn chamado Gone Girl (lançado por essas bandas como Garota Exemplar), e terminei hoje. Tem até filme, lançado recentemente.

O livro é muito bem escrito. Me lembrou muito outro livro que eu adoro, o 1Q84, do Haruki Murakami. A história fica alternando entre os dois protagonistas: Nick Dunne e sua esposa, Amy Elliot Dunne. Casados há cinco anos, justo no aniversário dos cinco anos de casamento Amy simplesmente desaparece do mapa.

Esse é o começo da primeira de três partes do livro, chamada Boy loses girl. Os capítulos nessa parte ficam alternando entre o presente, com Nick tentando explicar pra polícia o que aconteceu, e Amy e seu diário, contando desde o princípio do namoro até o casamento e as coisas que aconteciam que culminaram no seu desaparecimento.

Nessa parte Nick acaba sendo tomado como suspeito de ter na verdade matado sua esposa, pois haviam encontrado sangue dela no local. Nos diários da Amy que vão se seguindo ficamos conhecendo um pouco mais sobre o Nick, que embora eles fossem um casal que tivesse uma ótima química inicial, conviver com uma pessoa durante muito tempo é difícil, e acaba se tornando algo bem entediante. E Amy começou a perder o interesse, especialmente por ela ser uma mulher meio avoada nas idéias dela.

(Sim, Amy é basicamente uma dessas loucas por aí)

Mas o Nick também não é lá flor que se cheire. Problemas com o pai que tinha uma criação rígida, desempregado, de mal com a vida, e até em uma das muitas brigas que rolou, ele acabou se exaltando e inclusive batendo nela. Sempre dá pra se imaginar o Nick como alguém depressivo e a Amy como uma bomba prestes a explodir.

E a coisa nessa primeira parte vai só piorando. Descobrem que o Nick tinha uma amante, uma aluna dele da faculdade de vinte e poucos anos (Nick tem quase quarenta), a Andie. Os policiais, levados pela opinião pública que ia contra Nick por ele ter "matado" a sua esposa que estava grávida criou um fuzuê imenso na comunidade, onde jornalistas viviam na sua casa, e programas de fofoca só pioravam ainda mais a situação pra ele.

Aí então começa a segunda parte do livro, chamada Boy meets girl. Até esse momento do livro embora Nick venha dizendo que é inocente e que a Amy simplesmente desapareceu, achamos que a Amy é vítima da coisa, e aí a coisa realmente muda!

Sendo bem direto era tudo parte do plano da Amy. Ela é uma psicopata mesmo, porque ela chega a se cortar pra conseguir o seu sangue e espalhar pela casa pra fingir ter sido agredida pelo Nick, chega a usar urina de uma colega dela grávida pra criar um falso teste de gravidez positivo, e que ela está bem viva com dinheiro no bolso e bem longe dali, curtindo a vida com um outro nome, vendo toda a comoção que sua suposta morte trouxe.

E nesse meio tempo Nick resolve contratar um advogado, chamado Tanner Bolt, que é muito conhecido por ser advogado de várias causas que a pessoa que ele defendia sempre era culpada. E isso, óbvio, a mídia cai em cima. Nick acaba dando várias mancadas, como dar uma entrevista bêbado desesperado dizendo que amava muito a Amy, e até ir num programa de tevê estilão "Casos de Família" pra ser entrevistado e provar sua inocência e que descobriu que amava muito a Amy.

Do outro lado do país Amy vive alguns dias vendo toda a desgraça de longe e apenas aproveitando o momento, pois seu plano era ir pra um navio, se entupir de pílulas e cair no oceano pra morrer (eu já disse que ela é louca?). Amy é uma pessoa extremamente cuidadosa pra que ninguém a descubra. Ela inclusive tinge o cabelo pra um tom mais escuro e o corta, mas como a vida tava tranquila ela resolve arranjar um emprego por lá mesmo, mas os "amigos" que ela tinha feito desconfiam que ela está fugindo de alguma coisa, e roubam todo o dinheiro dela (ela não usava cartões de crédito pois poderiam rastrear ela) e ela sem nenhum tostão fica totalmente vulnerável.

Quando enfim a entrevista que Nick dá na tevê ajuda a limpar um pouco a barra dele, duas coisas acontecem. Primeiro a sua amante novinha, a Andie, dá uma declaração na imprensa contando quem era Nick Dunne na real. E depois a polícia resolve prender Nick pois detetives encontraram uma salinha escondida dele com diversas coisas que queimariam o filme dele. Entre elas, uma caixa cheia de filmes pornôs desses pesadíssimos, sabe?

Amy do outro lado, sem dinheiro, resolve ir atrás de Desi, um ex-namorado dela, que ela havia inventado que ele a havia estuprado e a mídia comprou a ideia dela. E mesmo o cara não tendo estuprado a Amy, ele ficou com reputação manchada e preso. Desi era o único que Amy tinha como cúmplice, pois ainda assim ele era apaixonado por ela (e ela, obviamente, sabia como usar isso ao seu favor), e ele oferece uma baita duma mansão pra ela viver e tudo mais ao seu lado. Só que Desi se mostra como outro maníaco (tanto quanto Amy) e a prende na casa, e ela sem dinheiro nem nada passa semanas trancada lá. Até que ela bola um plano pra sair de lá.

Nesse meio tempo Nick descobre que Amy na verdade está o enquadrando, que ela era uma sociopata que acusava ex-namorados de estupro, de terem batido nela, sendo que era ela quem forjava todas as evidências e tinha uma lábia muito, muito, muito convincente. Amy sempre se pôs como boazinha, e era excelente na mentira, e havia ferrado a vida de várias pessoas antes de Nick. E que agora, por conta do tédio do casamento, e por Nick não ser mais um marido legal como era no começo, ela queria se vingar dele, jogando ele num abismo onde todos o criticariam e ele terminaria atrás das grades mesmo sem ter feito nada.

Aí começa a terceira e última parte, a Boy gets girl back (or vice-versa):

Logo no começo dessa parte a Amy reaparece, depois de 40 dias desaparecida. Chega abraçando o Nick e tudo mais, e óbvio que a polícia vai lá tentar saber o que aconteceu. Amy mente dizendo que havia sido sequestrada por Desi, e que ele a havia prendido na mansão dele, e pra ela sair ela teve que dopar ele e cortar a garganta dele, chegando a obviamente matá-lo, mas ela alega sempre legítima defesa.

E, não sei como, ela não deixou nenhuma pista (acho que essas pessoas acham que forenses são burros, sei lá). Poderiam colocar o pessoal do CSI pra achar provas contra a Amy, hehe.

Nick obviamente não gostou nada disso. Imagina voltar a ficar com uma esposa que sumiu e forjou um plano perfeito pra inventar crimes contra ele, manipulando mídia, família e todos a acreditarem que ele tinha feito algo? Amy inclusive chega a confessar pra ele o que tinha feito, mas ela era tão esperta que pra evitar qualquer tipo de escuta, ela fazia isso debaixo do chuveiro e sussurrando no ouvido dele, hahaha.

Mas apenas com a confissão era muito pouco. Mas ninguém encontrava nenhuma evidência. E Nick, vivendo sob o mesmo teto que Amy, morria de medo dela um dia chegar e tentar matar ele, do jeito que fez com Desi. Ele fica com medo da própria sombra. Isso sem contar que aquela gravidez dela era furada, e isso havia acabado com o maior sonho do Nick, que era de ser pai.

Nick resolve então pelo menos expor tudo num livro. E fica pelo menos uns dois meses direto no computador escrevendo um livro pra expor ao mundo quem é Amy Elliot Dunne. E Amy diz que apenas voltou pra recomeçar sua vida como esposa, que entendeu que Nick havia aprendido sua lição, e que agora seria um bom marido. E sim, ter sido mantida no cativeiro de luxo de Desi também a deixou refletindo sobre isso, pois embora Nick não fosse um marido que a amava (e inclusive havia batido e a traído) ele ainda dava uma coisa que era inestimável pra ela: liberdade, que Desi havia tirado dela.

No final o livro Nick esfrega na cara dela o livro que ele estava escrevendo contando a todos sobre quem era Amy Elliot Dunne (o título era bem sugestivo: Psycho Bitch, ou em bom português, Psicopata vadia) mas aí Amy diz que tinha uma coisa que ela queria mostrar também: um teste de gravidez positivo. Eles vão no médico e depois de um exame de sangue descobrem ser verdade que ela realmente está grávida. Mas Nick nem encostou nela nesses meses, então o que rolou?

Amy foi esperta. Pegou esperma que o Nick havia doado e fez inseminação artificial com isso. Sim. Bizarro. E diz que já que ela está realmente esperando o tão sonhado filho dele é pra ele apagar todos os registros desse livro e não publicá-lo, senão ela vai fazer com que ele nunca possa ver o filho, inventando algum crime, que é a maior habilidade dela.

Afinal, a filosofia da Amy é a seguinte: quem não vai acreditar numa mulher que diz ter sido espancada, estuprada ou violentada por seu marido? Todos vão dizer que ela está certa, mesmo que ela invente isso, pois mulheres são todas unidas, vão todas dizer que o cara mesmo é culpado, mesmo que ele seja inocente. E que mulheres seriam burras de não tomar proveito dessa "vantagem".

Nick fica junto de Amy, e na cena final do livro ele está todo cheio de carinhos na barriga da Amy grandona, já prestes a dar a luz. Amy diz: "Nick, por que você é tão maravilhoso comigo?", e ela esperando que ele respondesse algo como "Porque você merece, e eu te amo", mas na real Nick responde: "Porque eu sinto pena de você". Amy pergunta "Porquê?" e Nick termina o livro respondendo: "Porque toda manhã você tem que acordar e ser você mesma". Isso é, uma assassina, psicopata, manipuladora e, enfim, uma pessoa sem caráter algum.

(ah, para registro: a escritora é mulher)

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Bom, eu poderia tecer vários comentários aqui sobre comportamento e tal, mas acho que não vem ao caso. Cada um toma como verdade o que quiser, assim como eu tenho a minha que obviamente não vou sair falando por aí, hehehe. Meu ponto é outro:

Mulheres são uma coisa bem recente na história da humanidade. Até o século XX mulheres não "existiam", eram apenas seres para procriação ou prazer sexual. Nesse século vimos mulheres tendo direito de trabalhar, estudar, criarem uma família e muitas outras coisas que conquistaram ou ainda estão conquistando. Isso é inegável, e muito bom!

Só que, mulheres como personagens na sociedade ainda é uma coisa muito atual. Ainda é algo que está sendo construído. Um exemplo é que é bem difícil criar uma personagem feminina convincente - e isso inclui suas virtudes e suas falhas - pois é uma mente diferente, um comportamento diferente, um modo de pensar totalmente novo que até mesmo as mulheres estão descobrindo.

Enquanto essa descoberta da alma feminina não chega, muitos autores usam a tática mais aceita socialmente: fazê-las perfeitas. Como mulheres perfeitas, guerreiras, batalhadoras, mas nem sempre mostrando outros atributos como fraqueza, falta de caráter, fofoca, etc, pra não manchar essa espécie de arquétipo feminino que está sendo construído.

Mas o que a autora faz aqui é exatamente o que vai contra isso. Ela cria a Amy como sendo uma psicopata mesmo, capaz de matar, capaz de usar sua posição como mulher na sociedade pra inventar que havia sido estuprada e tudo mais. Por exemplo, pra prender o Desi, Amy disse que havia sido estuprada. Pra isso ela enfiava garrafas na sua vagina durante dias pra criar hematomas de violência sexual, amarrava cordas e ficava roçando na sua pele pra dizer que havia sido amarrada e atraiu o Desi pra cama e transou com ele sem camisinha e fez ele gozar na sua vagina pra depois ir pra polícia e dizer que havia sido violentada, machucada e que poderiam até fazer o exame nela que ela ainda tinha esperma do estuprador na sua vagina - mas a relação foi consentida!

Isso bate de frente com essa crença hoje em dia que a mulher é sempre a vítima. Óbvio que isso tudo é uma obra de ficção, e sabemos que na vida real muitas mulheres infelizmente são estupradas, mas a Amy, como uma personagem fictícia, sabe como a sociedade funciona, sabe que existem leis que vão protegê-la, e exatamente por isso as usa ao seu favor.

Em suma: Amy é uma mulher que mancha essa reputação que as mulheres estão construindo. E talvez isso não seja lá tão ruim, sabe? Isso cria personagens extremamente vivos, pois têm lá suas falhas e tudo mais. E cada vez mais estão surgindo coisas do gênero, e isso é muito bom (como "Orange is the new Black"). Não vai tirar as conquistas das mulheres até agora, pelo contrário! Uma personagem dessas mostra um outro lado da imagem impecável que mulheres fictícias são obrigadas a mostrar. Amy tem muitas falhas, e isso óbvio que é repugnante, mas a torna uma personagem super viva e interessantíssima.

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