terça-feira, 4 de outubro de 2016

Amber #4 - O poder para proteger os outros.

18 de abril de 1937

A missa de domingo havia acabado. As pessoas estavam saindo, mas Briegel continuava lá, de joelhos, em um dos muitos bancos da igreja. Viu umas poucas pessoas cumprimentando o padre, e quando terminou suas preces se ergueu e foi em direção ao padre.

“Bom dia, padre. O sermão de hoje foi muito bom”, disse Briegel.

“Roland, filho. Que a paz de deus o acompanhe. Como vão as coisas?”, perguntou o padre Alan De Clercq.

“Atualmente? Uns probleminhas. Fiquei anos enrolando o Himmler desde que Hitler subiu ao poder, jogando os trabalhos pros novatos, mas acho que ele tá sabendo que eu não tô afim de fazer o trabalho sujo pra esse governinho”, desabafou Briegel.

“Mas você tem feito muito bem, filho. Escuta, a missa acabou, quer conversar com isso tomando um chá com um velho padre?”, propôs o padre.

“Claro! Mas o meu é com limão, por favor”, disse Briegel.

Os dois foram aos aposentos do padre. Eram bem pequenos, e o padre pode ficar mais à vontade, deixando a batina mais formal das missas de domingo no modesto baú que tinha. Apenas com a batina preta e simples parecia bem mais amigável. Rapidamente aqueceu a água e trouxe a chaleira com o chá pronto, só faltando adoçar. Na xícara de Briegel havia uma rodela de limão. Ofereceu uns biscoitos também ao seu amigo.

“Pronto, me desculpe a demora. Pode falar, Roland”, disse o padre De Clercq, servindo chá ao Briegel. Se durou cinco minutos o preparo foi muito. Mas o padre De Clercq sempre tinha um coração bondoso e tentava causar o menor trabalho possível aos outros.

“O senhor é como um pai pra mim, padre. E o senhor sabe as dificuldades que venho enfrentando. Não familiares, mas com toda a corrupção e os rumos que a Alemanha está tomando”, disse Briegel, tomando um gole do chá. Na hora ele percebeu que era o chá delicioso que apenas o padre sabia fazer na combinação certa: hibisco com gengibre e limão siciliano, “Nossa, ficou uma delícia seu chá, como sempre. Eu não gosto muito de chá, mas o chá que o senhor faz é sempre excelente”.

“Briegel, eu sou padre, mas como você sabe eu não gosto muito dessas formalidades. Gosto de trazer os ensinamentos de Cristo de uma forma mais prática. E, quando você fala do chá, o quanto gosta, eu lembro de algo que aprendi com a vida”, disse o padre.

“E o que seria?”, perguntou Briegel.

“Tudo na vida que fazemos depende do nosso coração. Duvido que Jesus teria conseguido alguma coisa apenas por ser o ‘filho de Deus’, sabe? O poder dele não estava em ser uma divindade, mas sim na imensa bondade que ele tinha com as pessoas. Isso é o maior exemplo que podemos ter dele. Quando fazemos a coisa com carinho, com bondade, não importa, esse sentimento todo vai para as coisas, e cedo ou tarde a pessoa que receber isso vai sentir essa sinceridade. O importante é agir sem pensar em ter algo em troca. Consegue me entender?”, disse o padre, tomando um gole de chá.

“É, o senhor parece que sempre sabe o que me dizer na hora certa. Pois é exatamente isso que estou passando. Ter que trabalhar pro Führer me enoja. Eles querem saber onde estão esses engenheiros pra colocar eles pra produzir ainda mais armamento pra esse país entrar em guerra. Eu tô enrolando há meses, mas parece que agora estou encurralado”, disse Briegel.

“Ora, então pense nas vidas que você vai salvar, filho. Não dá pra dizer que esses engenheiros sejam também cegos sobre o que Hitler está fazendo com esse país. E eles são vidas que devem ser protegidas. Você ganhou um dom único, de inteligência, força e determinação. Quem decide é você pra que vai usar”, disse o padre.

“Trabalhando na SD acho que há apenas um destino pra esses dons que o senhor fala que eu tenho. Destruição, morte, guerras, e outras coisas ‘bonitinhas’…”, disse Briegel, desanimado.

“Não! Briegel, se você tem isso não é pra machucar ou matar as pessoas. Você tem que usar isso pra proteger as pessoas! Vocês, agentes da Inteligência, são os únicos capazes de realmente fazer uma diferença nesse país, afinal são vocês que executam as ordens e fazem as coisas acontecerem. Você escolheu fugir, mas fugir só se pode fazer durante um tempo. Agora nas suas mãos está com a escolha de agir por eles e ajudar esse regime. Mas você pode escolher usar esses poderes para o bem, para proteger pessoas ao invés disso”, disse o padre.

“Meus talentos podem ser usados pra proteger pessoas, e não machucá-las…”, disse Briegel, olhando pro seu reflexo no chá.

“Vá e proteja os engenheiros. Você pode ajudá-los a se exilarem em algum lugar seguro, e dizer que fugiram, ou morreram pro governo. Você tem meios pra isso, você é um agente da Inteligência. É verdade que isso é mentir, e mentir é um pecado terrível, mas saiba que todos nós temos uma responsabilidade como seres humanos também. Você vai estar protegendo vidas, arriscando a sua própria”, nessa hora o padre apontou com a cabeça pra uma imagem de Jesus crucificado na parede ao lado deles, no topo, “Já teve alguém que se sacrificou pra proteger as pessoas. Pode ter certeza que enquanto você estiver se sacrificando, não vai acontecer o mesmo contigo. Pois esse aí vai te proteger, enquanto você usar os meios que você tem pra proteger os outros”.

Briegel deu os últimos goles da sua xícara.

“Por isso é bom conversar com o senhor. O senhor sempre sabe exatamente o que se passa no meu coração”, disse Briegel.

Nessa hora o padre Alan de Clercq repousou sua mão em cima da de Briegel e olhou bem nos olhos daquele que ele considerava como se fosse o filho que nunca teve. Briegel olhou pros olhos do padre belga, que estava acompanhando-o há anos, e apesar dos cinquenta e sete anos e olhar cansado de quem se dedicava ao próximo vinte e quatro horas por dia, via também uma paz, algo que transpassava pelo rosto e entre as rugas.

“Sua boca, sua mente e seu corpo são seus instrumentos. Você pode ir nessa missão. Mas se você escolher com o coração de proteger os outros, tudo vai correr bem, não importa onde você caminhe. Salmo vinte e três, lembra?”, brincou o padre, sorrindo.

“O senhor é meu pastor, e nada me faltará... Certo?”, brincou Briegel.

“Sim. Mas a parte importante pra você nesse momento é: ‘Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo’, tudo bem?”, disse o padre.

“Tá ótimo. Amanhã embarco pra Munique. Quer que eu traga algo pro senhor? Eu prefiro os chocolates de lá do que os chocolates da sua terra, haha!”, zombou Briegel.

“Ei! Os chocolates belgas são bem melhores que os de Munique! Vou ter que dar uma penitência se falar outra heresia como essa!”, brincou Alan de Clercq enquanto Briegel saía pelo portão principal da igreja rindo depois de fazer o sinal da cruz.

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