quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Amber - WORD UP! (1)

3 de março de 1933

Você se lembra quando conheceu seu melhor amigo? Diria que aquela pessoa que até então você não conhecia poderia criar um laço tão grande contigo, um laço que estaria firme mesmo depois de anos?

Essa é a estória de quando Briegel conheceu Schultz pela primeira vez.

Roland Briegel estava com a mesa atolada de papéis. Seu pai, o ainda influente Heinrich Briegel, colocou seu filho para trabalhar no recém-criado serviço de Inteligência alemão, o Sicherheitsdienst, ou simplesmente SD. A estrutura estava crescendo. Parecia que foi ontem que eles eram apenas um grupo de agentes trancados em um apartamento discreto, enviando informações diretamente ao próprio Heinrich Himmler, um dos homens mais poderosos do Terceiro Reich, e braço-direito de Adolf Hitler. Hitler havia acabado de se tornar o chanceler alemão, e uns três dias antes havia declarado um estado de emergência no país, com a desculpa de que era pra proteger o povo alemão de uma fictícia insurreição comunista. Um investimento maciçona espionagem estava se iniciando ali, e a SD se tornaria, junto com a Gestapo, as duas organizações que fariam todo o trabalho sujo por debaixo dos panos na Alemanha nazista.

“Briegel, preciso que você organize esses formulários aqui. Parece que nossos agentes de campo acharam mais informações sobre uns comunistas de merda”, disse Reinhard Heydrich, líder da SD e também chefe de Briegel.

A vida de Briegel era um tédio ali. Ele sabia que ele não havia nascido pra ser um soldado mesmo. Mas aquilo era um saco. Muitas vezes ele saía e olhava pela janela o céu cinzento de Berlim. O frio estava começando a dar lugar à primavera, mas a cidade parecia ainda mais cinzenta. E a cada dia um lugar menos livre. Pessoas estavam sendo caçadas lá fora, e ele sendo um agente da Inteligência se sentia muito mal em ser obrigado a trabalhar nisso.

“Ei, Briegel, venha cá!”, chamou novamente Reinhard Heydrich.

Briegel estava disposto a morrer. Talvez a única coisa que trazia um pouco de luz à sua vida era Alice, sua filha, que todo dia o aguardava em casa sorridente. Não dava pra viver num país que estava se tornando o que estava se tornando. Ele tinha uma grana, e um plano. Deixar uma carta e todo o dinheiro que havia herdado e trabalhado duro para Alice fugir para algum lugar. Talvez a América. Não era um país dos sonhos naquela época, mas era melhor que nada. Ao menos era livre. Briegel sabia que o que ele iria fazer seria considerado a mais alta traição. Mas ele não queria apenas ser morto gratuitamente. Ele ao menos machucaria de alguma forma o Terceiro Reich que estava nascendo naquele momento. Ou com sorte, acabaria com a semente da Segunda Guerra Mundial que estava germinando naquele momento.

“Briegel! Tá me ouvindo? Venha aqui agora!”, gritou Reinhard Heydrich.

Briegel observava as nuvens no céu na janela. E pensava que talvez seriam as últimas imagens que ele veria. Estava decidido a morrer. Mas ao menos causaria algum ferimento naquele governo ditatorial e corrupto que nascia ali.

“Ei, seu idiota, aonde está com a cabeça olhando pra aí?”, gritou Reinhard Heydrich, puxando-o. Briegel despertou dos seus pensamentos. Havia alguém ao lado dele.

“Ah, senhor Heydrich, me perdoe… Eu tava com a cabeça longe”, se desculpou Briegel.

“Só não te mando pra rua porque você é filho de quem é! Presta mais atenção, senão você vai ver só!”, repreendeu Heydrich. Briegel olhou com uma cara atenta, mas por dentro estava entediado. Seu chefe prosseguiu, apresentando-o a pessoa que estava ao seu lado, “Quero que ajude-o aqui. O nome dele é Ludwig Schultz, ele foi transferido da SA pra cá. Ele vai te ajudar com a papelada ali, ensine pra ele o que deve ser feito, sim?”.

“Muito prazer!”, disse Schultz, sorridente, estendendo a mão, “E o seu nome é…?”.

“Briegel. Roland Briegel. Muito prazer”, disse Briegel, apertando firmemente a mão de Schultz, “Você é bem novo pra estar aqui, não?”.

“Ah, valeu! Eu tenho 27 anos, sou um bebêzão ainda!”, disse Schultz, rindo depois de si mesmo, “E você? É daqui mesmo?”

“Eu tenho 38 anos, fiz agora, em fevereiro. E eu sou natural daqui mesmo, em Berlim”, disse Briegel, indo pra mesa e puxando a cadeira pra Schultz se acomodar pro trabalho.

“Puxa, que demais! Eu sou de Stuttgart! Acho que você percebeu pelo meu jeitão de gente boa! Nós de Stuttgart somos as pessoas mais bacanas desse país! E quer saber? Você teve sorte! Se tivesse um prêmio pro cara mais gente boa da cidade de pessoas mais gente boa da Alemanha toda, sem dúvida eu ganharia esse prêmio!”, disse Schultz, altivamente.

Briegel piscou duas vezes os olhos fitando-o. No fundo estava achando aquele novato um saco.

“Certo, entendi”, disse Briegel, cortando a conversa e mostrando os papéis, “Bom, aqui primeiro a gente tem que organizar isso e dep…”.

“Que dia foi seu aniversário?”, interrompeu Schultz.

“O quê?”, perguntou Briegel.

“Seu aniversário! Você disse que foi em fevereiro, não?”, perguntou Schultz, com o menor interesse na papelada.

“Fiz dia oito. Oito de fevereiro”, disse Briegel.

“Puxa! Fala sério! Vai ser facinho lembrar do seu aniversário então. O meu é o contrário do seu. Você faz dia 08/2. Eu faço dia 02/8! E a gente ainda se conheceu no dia 3 do 3 de 33! Cara, parece aqueles negócios que tava escrito, destino, et cétera!”, disse Schultz. Briegel virou seu olhar pra papelada e meio que deixou Schultz falando sozinho. Schultz continuou falando mais um pouco, mas pouco tempo depois se juntou com Briegel pra fazer o trabalho.

Até o fim do expediente os dois organizaram toda a papelada que Briegel sozinho levaria uma semana pra organizar. Isso espantou até ele mesmo. Por mais que ele parecesse um cabeça-de-vento, esse tal Schultz era extremamente eficiente. É verdade que o jeito simpático dele ser incomodava Briegel, que era uma pessoa mais séria, mas era algo que ele poderia ir levando.

Ou melhor: talvez nem ele teria tempo de fazer amizade. No rápido tempo entre as pausas Briegel ia pra sua mesa e escrevia uma carta pra Alice, dizendo que deixaria todo o dinheiro pra ela, e que ele tentaria matar Himmler no dia seguinte, quando todos teriam uma reunião com ele pra apresentar mais nomes de pessoas que, supostamente, estariam trabalhando pra União Soviética pra “derrubar os nazistas”. Briegel só não contava que Schultz observava Briegel tenso escrevendo a carta, e mesmo sem mal conhecê-lo, estava preocupado com o que aquilo devia ser.

Na saída Briegel enfiou a carta na sua bolsa, mas esqueceu de fechá-la. Deixou o escritório da SD e estava indo pegar o bonde, aguardando pra atravessar a rua.

“Ei, o que é isso que você andou escrevendo? Uma cartinha de amor?”, brincou Schultz, enfiando a mão na bolsa de Briegel e tirando a carta de despedida à Alice.

“Ei! Devolva isso, Schultz!”, disse Briegel, num sussurro forte como um grito.

Mas Schultz já havia passado o olho na carta e lido por cima. Calmamente então entregou de volta a Briegel.

“Nossa, que tenso isso. Cara, será que podemos conversar?”, perguntou Schultz.

“Não. Preciso ir pra casa agora”, disse Briegel.

“Espera aí! Então vou ser direto. Eu pedi minha transferência da Sturmabteilung (SA), porque eu tô ligado no que tá rolando. Esse Hitler que subiu ao poder é um doente mental e vai fuder esse país. E sei que ele vai acabar com todo mundo da SA rapidinho, então era melhor eu cair fora de lá antes que competição ficasse acirrada. Tá na cara que o bigodinho vai matar mó galera lá”, disse Schultz.

“E daí? Porque você tá me falando isso?”, perguntou Briegel.

“Cara, eu detesto esse governo mais do que você pensa! Mas isso que você quer fazer é suicídio! Ou melhor, eu diria que isso é um desperdício!”, disse Schultz.

“Desperdício? Do que?!”, disse Briegel, que estava perdendo a paciência com o novato.

“Cara, nós somos da Inteligência. Podemos fazer melhor isso! Podemos derrubar o Führer e sairmos ilesos dessa coisa toda! Eu quero muito fazer isso, muito mesmo. Mas parece que esse povo todo desse país passou por uma lavagem cerebral, e ficam levantando a mão pra esse bigodinho como se ele fosse um deus, um césar, ou sei lá”, disse Schultz, colocando a mão no ombro de Briegel, “Se a gente se esforçar, rapidinho a gente vai subir e vamos ser os melhores agentes. Uma vez lá no topo podemos bater de frente com os grandões. E como sabemos tudo o que anda rolando, vamos saber os pontos fracos e poderemos atacar, dar informações privilegiadas, e implodir esse governo todo por dentro. Depois, sei lá, a gente vai trabalhar na Interpol, com rios de dinheiro e como heróis que derrubaram o nazismo aqui! Meu plano é infalível, e vamos sair inteiros dessa!”.

É verdade que Briegel era uma pessoa fria e mais cautelosa. Ao mesmo tempo era uma pessoa bem melancólica, especialmente quando as coisas não estavam bem. Mas Schultz era o oposto. Ainda sequer tinha um plano, mas tinha um objetivo bem firme e definido. Talvez nem mesmo ele sabia naquele momento como chegar lá, mas Schultz iria se jogar no meio do abismo sem pensar antes.

“E aí, tá comigo?”, perguntou Schultz, estendendo a mão a Briegel.

Mas havia algo em Schultz. Briegel sabia que poderia confiar. Que não precisava escrever uma carta se despedindo da sua amada filha. Ele veria o sorriso dela depois, e no outro dia também, e no outro também. O plano era incerto, indefinido, mas naquele momento Schultz havia contagiado Briegel com sua esperança.

“Tá bom. Vou ouvir o seu plano então”, disse Briegel, apertando a mão de Schultz.

“Ótimo! Escuta, eu esqueci seu nome, como se você se chama mesmo?”, perguntou Schultz.

“Briegel. Roland Briegel”.

“Ah, eu não vou te chamar de ‘Roland’ não. Nada a ver contigo! Você não tem cara de ‘Roland’ nem a pau!”, disse Schultz.

“Não me chame pelo primeiro nome. Me chame de Briegel, por favor”.

Schultz nessa hora olhou cerrando os olhos, como se estivesse raciocinando.

“Já sei! Você disse lá no trabalho que você era o exército antes. Na sua idade sem dúvida você já devia ser coronel. Tá aí! Vou te chamar de Coronel! Coronel Briegel, nossa, isso vai te fazer comer muitas minas por aí! Mulherada fica toda molhadinha com homem de farda!”, brincou Schultz.

Schultz abraçou Briegel de lado, e os dois foram andando. É verdade que Briegel detestou o apelido ali, dado de improviso. Mas mal ele sabia que esse apelido pegaria nele de tal forma que muita gente tomaria um susto quando soubesse que o recém batizado “Coronel Briegel” se chamava na verdade “Roland Briegel”.

“Legal! Mas vamos pra um lugar tranquilo! Um lugar que vai dar pra conversar de boa sem medo de alguém de fora ouvir”, disse Schultz.

“Vamos então, vai. Pra onde?”, perguntou Briegel

“Conheço um bordel ali na esquina, tem umas meninas que fazem uma chupetinha que vou te falar, cara! Toda noite bato cartão ali! Vamos chegar já  socando a porva anunciando bem alto: ‘Ei gatinhas ao redor do mundo! Tenho uma coisa aqui pra mostrar a vocês, então chamem todos os meninos e as meninas!’, disse Schultz, enquanto ia ao lado de Briegel em direção ao bordel.

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