sexta-feira, 9 de junho de 2017

Amber #58 - A notícia boa, e a ruim.

“Loiro?”, disse Schultz, “O que raios uma pessoa loira estaria fazendo por esses lados?”.

“O senhor não sabe quem seria? Parece que essa pessoa saiu correndo naquela direção, mas simplesmente sumiu”, disse Tsai, se abaixando o verificando o corpo do chinês, “Pelo visto queriam vocês dois mortos, pois o alvo desse chinês eram vocês que estavam na carroça. Tem ideia de quem possa ser?”.

“Francamente não. Existem muitas pessoas loiras na Europa”, disse Schultz, tentando se justificar. Ele tentava se concentrar pra falar, pois parecia hipnotizado pela beleza da chinesa.

“Pois pra esses lados, como pode ver, não existem tantos. Sem dúvida uma pessoa loira de olhos claros não andaria sem chamar a atenção por aqui”, disse Tsai, “Enfim, depois eu vejo isso. Conosco estão seguros. Por favor, nos acompanhe”.

No caminho até a residência do líder local era incrível o quanto as pessoas conheciam Tsai. Entre tantas pessoas que olhavam sorrindo pra ela, como se ela fosse uma cavaleira da esperança, muitas vezes pessoas se direcionavam a ela, a chamando de algo como “Gongzhu”.

“Gongju?”, disse Eunmi em coreano, “Será que significa a mesma coisa em chinês? Princesa?”.

“Sim. O som é parecido, mas sim, em coreano e em chinês significa princesa”, explicou Tsai, indo em frente, “Acho que é a forma carinhosa que as pessoas acharam de me chamar. Eu não gosto muito, mas tudo bem, não tenho motivos pra censura-los por isso. Vamos visitar o líder local, o senhor Wang e entregar a mensagem, por aqui, me sigam”.

Enfim chegaram na residência do líder, Wang Yaowu, deixando Eunmi em uma casa que era propriedade das forças chinesas para que pudesse descansar. Ele parecia ser um chinês forte, com um rosto bem quadrado, pescoço grosso e cabelo bem baixo, escuro. Ao ver Tsai sorriu, como se a estivesse esperando. Tsai fez uma breve reverência e começou a fala em chinês com ele. Depois apontou para Schultz, e ele entendendo o que ela queria dizer, mostrou o envelope, entregando-o para eles.

Wang e seus imediatos juntos de Tsai leram as informações. Eles discutiam durante alguns minutos, e Schultz ficou na frente deles, observando. Obviamente ele não entendia nada da língua deles, e volta e meia desviava o olhar pra janela, como se estivesse por dentro ficando muito entediado com aquela situação.

“Senhor Schultz, general Wang agradece pelo seu empenho e esforço”, disse Tsai, dando a mão a Schultz, “O senhor deseja voltar pra Alemanha? Podemos conseguir um voo, ou um navio que o leve para lá sem problemas”.

Seria tentador dizer que gostaria de voltar e sair daquele inferno. Mas Schultz se lembrou da pessoa que o havia trago até lá, mesmo que contra a sua vontade. Ele havia prometido para Eunmi que a levaria para a Coréia. E isso sem contar que ela estava numa nova localidade, que ás vezes parecia ser outro mundo. Viajar pro oriente é, de fato, como viajar para um outro mundo para alguém ocidental.

“Desculpe, Tsai, eu não posso. Eu já te disse, prometi que ajudaria a Eunmi”, nessa hora Schultz se virou, saindo da sala, “Acho que minha missão por aqui acabou. Vou buscar a Eunmi, e iremos pro norte, até a Coréia”.

Schultz ergueu a mão pra se despedir e foi andando pelo caminho de onde veio. Ao sair da residência do general foi até a base, onde os soldados se concentravam e onde haviam levado Eunmi. Não demorou muito pra chegar lá.

“Eunmi?”, disse Schultz, entrando no local onde Eunmi estava. A coreana apareceu, descendo as escadas.

“Schultz! E então? Como foi com o general?”, perguntou Eunmi, indo até ele.

“Deu tudo certo! Missão completa. Escuta, será que se a gente perguntar pras pessoas aqui, será que elas sabem onde posso encontrar essa pessoa?”, disse Schultz tirando da sua bolsa o papel que Saldaña havia escrito com o nome do fotógrafo que havia tirado uma das fotos dos monstros de Guernica na China.

“Changsha é muito grande. E é possível que ele não esteja aqui. Porque não pedimos ajuda para a--“.

Uma mão feminina puxou o papel da mão de Schultz. Ao se virar para ver quem era tomou um susto. Era Tsai.

“Chou Xuefeng”, disse Tsai ao ler o nome, “Quem quer que tenha escrito isso tem uma letra horrível. Que garranchos! Quem é? Amigo de vocês?”.

“Bom, se encontrarmos, ele pode ser o meu melhor amigo”, brincou Schultz, ainda tentando ficar calmo na frente de Tsai. Ela andou com o papel na mão e sentou-se numa cadeira, balançando a cabeça pra Schultz gesticulando pra que ele prosseguisse, “É uma longa história, mas vou resumir. Estive em Guernica anos atrás quando ela foi destruída. Porém não haviam apenas caças e artilharia. Haviam estranhos seres, verdadeiros monstros, que estavam por lá destruindo a cidade também”.

“Chou Xuefeng é o nome do monstro?”, perguntou Tsai.

“Não. Acontece que quando estávamos sobrevoando Hong Kong fomos pegos, eu fui torturado e a Eunmi...”, nessa hora Schultz olhou pra Eunmi, mas não conseguiu completar a frase.

“Te estupraram, Ri?”, disse Tsai, bem direta, chamando Eunmi pelo seu sobrenome. A coreana apenas respondeu balançando positivamente a cabeça.

“Bem, e o americano que estava lá disse que me soltaria se eu achasse o fotógrafo que tirou uma foto de um desses monstros. Ele escreveu o nome dele num papel pra mim, de uma forma bem tosca, e mandou eu ir atrás”, disse Schultz.

“Mas se você conseguiu fugir, não precisa fazer o que ele te mandou mais. Por que está indo atrás desse fotógrafo?”, perguntou Tsai.

“Eu quero ir atrás para achar pistas. Quero saber se eles estão envolvidos com a morte da prima de uma amiga. É uma das poucas pistas que temos”, disse Schultz, completando.

Tsai ouviu e ficou encarando por alguns momentos Schultz. Ela parecia confiar, não conseguiu ver nenhuma dissimulação no rosto de Schultz. Por fim se ergueu e foi até uma estante, tirando uma pequena caixa. Verificou alguns papéis dentro e tirou uma folha, mostrando pra Schultz. Era uma foto.

“É essa a foto?”, perguntou Tsai.

Schultz ficou abismado. Era exatamente a mesma foto que Saldaña lhe havia mostrado!

“Cacete! É exatamente essa foto! Então você sabe onde está o fotógrafo?”, perguntou Schultz.

“Não sabia sobre o fotógrafo, mas agora com o nome dele vai ser mais fácil. Apenas conhecia a foto”, disse Tsai, tirando um livro com várias listas anotadas a mão, “Chou, Chou, Chou... Achei. Chou Xuefeng. Mas tenho uma boa e uma má notícia”.

“Não acredito! Que demais!”, gritou Schultz de empolgação, “Quero saber a boa, é claro!”.

Tsai suspirou. E Schultz imaginou que talvez não seria algo tão bom, apesar do pedido.

“A boa é que aparentemente ele está vivo”, disse Tsai.

Para Schultz isso não era apenas uma notícia boa. Era excelente! Esse homem poderia dar pistas de onde estavam os monstros de Guernica. Ao ouvir as palavras de Eunmi ele ficou tão eufórico que não queria perguntar qual era a má notícia. Aquilo era muito bom pra ser verdade, enfim as coisas pareciam estar dando certo!

“Tá, mas e a ruim?”, perguntou Eunmi.

Nessa hora Tsai ficou extremamente séria, como se estivesse se esforçando para dar uma péssima notícia aos dois.

“A notícia ruim é que ele está em Nanquim”, respondeu Tsai.

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