Adeus, Gerard.
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| Gerrit Bartels :: ☆ 26/10/1963 - ✝︎ 29/01/2026 |
É muito triste perder um amigo. Talvez num momento como esse a gente tenta relembrar a última vez que nos vimos, lembrar do que falamos naquela última vez, quase como se tentássemos nos apegar aquele último momento que não sabíamos que seria a última vez que nos falaríamos.
Eu me afastei da Shinnyo-en faz alguns anos já. Não vou entrar aqui nos motivos disso ter acontecido, são questões pessoais e relacionadas à fé que não vêm ao caso destrinchar aqui. Mas desde que me afastei eventualmente eu dava um pulo no templo budista que com tanto afinco me dediquei a quase dez anos da minha vida. E numa dessas visitas ao acaso lá estava o Gerard.
Foi antes dele se mudar para a Holanda com a filha. Já fazia anos que nós não nos encontrávamos, e ele estava cuidando da manutenção do templo, pedindo minha ajuda para que eu viesse um dia lá com ele pintar uma parede. Mas já fazia muito tempo que eu não frequentava como antes, não me sentia mais confortável de ficar lá direto, então eu lembro que desconversei quando ele me chamou para ajudá-lo. E como já adiantei, meses depois fiquei sabendo que ele havia se mudado para a Holanda, acho que com a filha mais velha, primeiramente para cuidar da mãe idosa, mas parece que decidiu ficar lá de vez, pelo o que eu ouvi falar.
Quem diria que essa seria a última vez que o veria vivo.
Parece que nesse momento em que eu revisito essa memória tento, dentro do nosso intelecto tão limitado, de tentar encontrar padrões ao nosso redor para dar sentido ao nosso mundo, achar uma última mensagem que ele poderia ter me deixado. E se apegar nisso como se fosse uma espécie de legado que esse meu amigo me deixou.
Quando comecei a praticar o budismo, eu era um dos poucos sem etnia japonesa ou asiática. Embora isso nunca me fosse um impedimento — eu tenho muitos amigos e amigas próximos que possuem ancestralidade japonesa, por exemplo — meu amigo Gerard foi um dos primeiros lá atrás que se aproximou de mim, justamente por nós dois termos essa coincidência de não termos nenhum sangue amarelo em nossas veias.
No começo eu até o achava meio chato, ele falava meio alto, com aquele sotaque holandês que fazia o "s" chiado como se fosse carioca, mas essa primeira impressão rapidinho se foi. E vi naquele amigo uma pessoa madura, como um irmão mais velho, alguém que tinha um conhecimento amplo sobre muita coisa, uma noção de responsabilidade e dedicação inspiradoras, e acima de tudo muito acolhedor e descontraído.
Gerard todas as vezes me cumprimentava, brincava comigo, e eu achava isso o máximo. Não demorou muito para que eu fizesse amizade também com sua esposa, filhas e filho. Vi essa molecada crescendo, e embora todos hoje fossem adultos, fiquei pensando na imensa dor de seguirem agora na vida sem o pai tão amoroso e único que devia ser ele. Os filhos também pareciam amar ele profundamente.
Amanhã será a reinauguração do templo, e como eu queria que você estivesse lá, meu amigo! Você que sempre se dedicou tanto, tinha uma fé exemplar, e um verdadeiro espírito inabalável. Lembro até uma vez que eu o vi de longe numa edição do Festival do Japão assessorando o então governador Alckmin.
Mas acho que a maior memória que vou guardar, foi um dia, lá em 2019, antes de pandemia, antes de qualquer coisa. Eu havia acabado de almoçar com a *******, entramos no templo juntos, e o Gerard estava na recepção. Lembro que na hora que ele nos viu entrar, ele arregalou os olhos nos encarando, mas aquela expressão parecia uma surpresa boa. Como se de alguma forma ao nos ver juntos um filme havia se passado na cabeça dele.
Gerard não disse nada. Ficou quieto ali nos observando, eu o cumprimentei, ele abriu um sorriso, cumprimentou também a *******, e depois que ela se dirigiu para a sala do altar, Gerard chegou em mim e disse:
— Eu tive uma visão agora. E sinto que em breve você vai deixar a casa dos seus pais, e sua vida vai engrenar.
E eu naquele dia, todo apaixonado pela *******, ouvir aquilo daquele meu amigo tão querido, quase como um recado vindo diretamente dos Budas para ser passado por mim, preencheu meu coração ainda mais. Aquele dia foi tão feliz que é difícil imaginar um outro dia na vida que me marcou tanto. E esse recado do Gerard era a cereja do bolo. Com aquela visão, e tudo o que eu havia vivido com ela, a vida enfim parecia que daria certo. Que na minha frente havia um caminho pronto para trilhar, que eu havia encontrado a mulher da minha vida, e meu amigo ali através de uma visão espiritual havia confirmado isso, de uma maneira totalmente espontânea, como se fosse mesmo um recado espiritual.
Mas como o mundo espiritual gosta de aprontar comigo, infelizmente a relação com a ******* não decolou. Ela me deu um ghosting total, acho que ainda deve ter mensagens dela sem me responder na caixa de entrada dela no instagram desde 2019. E ela não vai mais responder. A visão desse meu amigo não se realizou, aconteceu a pandemia, me afastei da Shinnyo-en, e tudo que nunca deu certo começou a dar ainda mais errado.
Tem coisas na vida mesmo que a gente não tem controle nenhum. Na verdade quase nada na nossa vida temos algum controle.
Sinto muito Gerard, espero que não fique decepcionado por não ter tornado real essa visão tão bacana sobre meu futuro que você havia tido. Ás vezes as coisas na nossa vida simplesmente não acontecem, e não temos nada a fazer sobre.
Amanhã gostaria que estivesse aqui. Amanhã provavelmente vou até reencontrar a *******, pode ser que ela venha para a reinauguração. Mas dela eu já não espero nada, infelizmente nenhum milagre acontecerá para que terminemos juntos e tudo aquilo que você havia vislumbrado na sua visão espiritual se tornará real. E não tem problema algum, vida segue, talvez meu coração vai se abalar se revê-la, mas como ela não é de São Paulo logo vou esquecer.
Mas não consigo deixar de imaginar que, na minha festa de bodas dos sonhos, você estaria ali na primeira fila como meu padrinho. Afinal foi para você que aquela visão tão bonita havia sido enviada. Havia um motivo para você estar ali e me dizer aquilo. Eu estaria lá, vendo minha noiva entrar, e todas aquelas dificuldades que havia passado na vida já seriam de um passado distante. E por ser você o que me confirmou o que meu coração sentia, seria ali o amigo mais querido que gostaria que estivesse no meu lado.
Espero que esteja conosco em espírito amanhã. É muito triste pensar que amanhã vou ao templo e você não estará lá.
Você faz muita falta, meu irmão.

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