Livros 2026 #3 - Um prefácio para Olívia Guerra (2023)


Existem livros que quando a gente termina de ler a gente se sente como naquele meme "absolute cinema", mas no caso seria "absolute literatura". Faz tempo que não lia um livro tão rico, tão completo, desses que mesmo tudo ali sendo ficção a gente sente aqueles personagens como se fossem vivos, cheios de não apenas complexidades, mas completos por si mesmos.

Esse livro tem uma coisa artística nele que eu só consigo achar um único adjetivo pra me referir a ele: pura maestria.

O livro é narrado por Maristela Guerra, filha de uma escritora chamada Olívia Guerra, cuja fama só se deu depois do suicídio dessa última, ao fazê-lo na frente da filha, se jogando da sacada do prédio de onde moravam, quando a Maristela era apenas uma criança vendo tudo.

Amor, se você soubesse… a tristeza é um monstro bem gosmento apaixonado por buraquinhos. Gosta de entrar e de se sentar dentro da gente. Fica pequeninho para a gente nem desconfiar do quanto é horrível. Fica pequeno para passar pelo buraco da agulha que a gente tem de monte na pele. O monstro se aloja e diz que vai embora só se a gente morar no lugar certo, na hora certa e no dinheiro certo. E a gente vai correndo em busca das coisas certas e percebendo e desconfiando e teimando.

Olívia Guerra era uma escritora talentosíssima, mas que não teve nenhum tipo de reconhecimento em vida. Apenas depois de sua morte, e toda a comoção por conta de seu suicídio, acabou por elevá-la a um status de quase uma entidade literária, ganhando fama, rendendo muito dinheiro, e essa aura que só quem é descoberto depois da morte é capaz de produzir.

Só que Maristela, a filha, vive o dilema de conhecer tanta gente que admira e se inspira na sua mãe escritora, mas tudo o que ela queria era entender e ter sua mãe ali com ela de volta, como sua mãe, e não a escritora que todo mundo aclama por.

O livro é narrado não apenas pela Maristela, mas também com trechos de diário da Olívia, onde ela tenta reconstruir quem sua mãe era de facto. 

Eu gostaria de dizer aqui que acho a mentira uma necessidade fundamental da infância. que a violência da verdade deve ser evitada até o limite do possível. que a verdade cruel crua absoluta é uma necessidade do adulto, e não da criança. queria que tivessem mentido para mim. queria que até hoje me escondessem. queria que me explicassem com palavras simples e mágicas. sua mãe foi para o reino das fadas. sua mãe agora é um anjo. sua mãe agora mora dentro de seu coração. mas ouvi o laudo, ouvi a queda e a sirene, e vi (embora em minha mente tenha sobrado apenas a mão quebrada; o resto apaguei) o corpo.

Maristela é uma personagem tão complexa que, para lidar com a dor da tão repentina perda da mãe, ela cria uma outra persona, a Mari 1, que é a que tenta encorajá-la, seguir em frente, e forçar de alguma esse amadurecimento, enquanto ela própria (que virou a "Mari 2") continua tentando achar sentido em meio a todo aquele luto e saudades que sente de sua mãe.

O livro também conta com diversos outros coadjuvantes que ajudam a dar ainda mas profundidade à protagonista Maristela: como o pai que teve que aprender a se virar sem a esposa para cuidar da filha, a avó que tentava de alguma forma repor a ausência da filha para sua neta, seu irmão que sempre se sentiu deixado de lado, e outros menores que vão aparecendo ao longo da história.

A escrita da autora Liana Ferraz é pura arte. Ela me lembra muito a Aline Bei, mas menos teatral, mas tão introspectiva quanto. Essa escrita concatenada, quase como uma poesia, mas sem o ritmo fixo, alternando entre parágrafos onde a prosa é desenvolvida, com linhas que parecem versos, mas numa transição sempre consistente e com seus pesos balanceados.

Conto que estou ali para poder cuidar de meus filhos. Que tenho medo de morrer jovem. Que sempre achei que não completaria vinte anos e que agora, com vinte e cinco, tenho certeza de que não chegarei aos trinta. Sinto-me melancólica. Náufraga. A vida não é para mim. Vivo com a água no pescoço, fazendo uma força imensa para manter o nariz para fora e respirar.

Uma outra sacada genial da escritora foi saber usar o recurso da tipografia com uma genialidade ímpar. O estilo da letra fala muito, nos transporta pra outra época, nos ambienta em novos ares, coloca artigos de jornal no livro, e outras formas de imersão com algo tão simples e tão bem usado pela autora!

A complexidade do luto e do abandono é algo que dilacera nosso coração do começo ao fim. As reminiscências do momento em que ela viu a mãe se jogando, e a dificuldade de se trilhar a vida sem ter sua mãe ao seu lado é uma dor constante no livro. Tentar se reerguer várias e várias vezes, o olhar da vida que mudou, a necessidade de amadurecimento rápido, tudo isso é tratado de uma forma tão poética e profunda no livro, que eu só consigo tirar meu chapéu para essa verdadeira obra de arte escrita pela autora.

Fiquei com o coração apertado em diversos trechos, mas não é um livro feito apenas de tristezas. Assim como a vida, é cheio dessas coincidências, dessas construções que a gente nem imagina mas que nos trouxeram até hoje, em meio a lembranças nostálgicas, e também trechos felizes. Apesar de ser um livro curto, é um daqueles que a gente tem a impressão de ter visto uma vida inteira, em seu tempo quase que integral, uma habilidade igualmente complicada de se fazer em tão curto espaço de páginas.

Um livro lindo como a vida, mesmo tendo a morte como pontapé inicial.

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