O sangue na caixa de papelão.


(Aviso: Esse texto é uma crônica de algo que se passou comigo num hospital veterinário, se você é sensível ao tema sofrimento de cães, não recomendo a leitura desse post)

Nunca gostei de veterinários. Não que eu tenha sido tratado mal enquanto frequentava algum, ou algo do gênero, mas visitas a veterinários não estão na lista dos meus passeios favoritos. É algo que, se eu puder evitar e ficar em casa, eu prefiro.

Por mais que eu entenda que ali a grande maioria dos casos são de cães ou gatos que são tratados, cuidados, e eventualmente curados de seus problemas, ainda me vêm à cabeça a maldita eutanásia. E, claro, qualquer pessoa que possui animais de estimação hoje inevitavelmente acaba vivendo essa experiência. O momento da vida do nosso bichinho, que passou por tantos anos nos dando muito amor, chega o fim de sua trajetória, e escolhemos acabar ali com seu sofrimento.

E essa imagem de donos chorando após receberem a notícia derradeira é algo que fica na minha mente por dias, semanas, às vezes até meses. Eu sei que não são todas as vezes que vou no consultório veterinário que vejo algum dono ou dona chorando após receber a notícia — mas quando vejo isso, a cena fica na minha cabeça e acabo associando que apenas existe isso num consultório veterinário. Sei que não é fácil, nem mesmo o médico veterinário gosta de dar essa notícia e depois se encarregar de dar um fim na vida do animal. Somos todos humanos, não é mesmo? Mas infelizmente, por conta de traumas e experiências tristes do passado, eu associo médicos veterinários à morte.

Acontece que a Meg continua mal. Não que ela tivesse ficado boa, o câncer na pata dela continua lá, e está cada vez mais se alastrando — dessa vez para o resto da pata dela. Gastamos muito dinheiro em exames, quatro cirurgias, medicamentos, biópsia, isso sem contar todo o pós-operatório e os encargos extras.

Apesar de tudo, a Meg continua bem. Come direito, cocô e xixi estão bonitinhos, continua ativa apesar de tudo. E não tem um momento que eu não sinta gratidão por isso. Mas como parece que cada vez o tumor cresce mais rápido, decidimos tentar ir atrás de um oncologista e um cirurgião veterinário para um diagnóstico mais preciso da nossa amada branquinha.

Meus pais estavam muito ansiosos para a visita ao hospital veterinário público. No dia anterior ficavam toda hora me alertando que teríamos que chegar lá às sete da manhã, que eu tinha que dormir cedo, não poderíamos nos atrasar, e mais um monte de coisa para botar medo do dia que estava por vir. Eu tentava acalmá-los, dizendo que eles estavam me pressionando muito para isso, e não precisava disso tudo.

De tanto medo de perder o horário, acordei às 4h30 da madrugada para me arrumar. Minha mãe havia entendido que somente iríamos eu, ela, e a Meg, mas por algum motivo que até agora não entendi, meu pai que não tinha deixado claro que nos levaria, acordou cedo naquele dia também e acabou nos levando.

Era um dia chuvoso e nublado. A Meg, sem entender nada, parecia a mais calma de todos nós. Apesar do tumor na pata traseira direita dela fazer com que ela não consiga se apoiar nessa pata no chão, ao chegar lá ela parecia bem melhor do que como estava em nossa casa.

Ao atravessar o portão e chegar no grande salão de triagem, senti um cheiro de mijo bem forte dentro do hospital veterinário público. Óbvio, uma vez que se trata de um hospital veterinário. Meu estômago se revirou, mas logo me acostumei com o cheiro. E então pegamos a fila, onde haviam ali vários donos com seus cachorros e gatos indo pegar a senha para o atendimento da consulta.

Meus pais ficaram na fila enquanto eu fiquei com a Meg sentado num dos bancos ali disponíveis.

Apesar dos meus pais puxarem conversa com outros pacientes ali, eu estava passando muito mal com a atmosfera do local. Minha mãe já havia me alertado para que eu me preparasse, mas tudo o que eu queria era sair dali o mais rápido possível.

Meu coração se partia ao ver cada cãozinho ali me olhando com aquele olhar de tristeza. Via cachorros enrolados em cobertores, outros sendo carregados como se fossem num berço, outros que estavam em pé mas com alguma comorbidade, como uma bolota na perna, ou ferimentos na virilha, entre outras coisas.

Ao mesmo tempo eu me solidarizava com os donos ali, queria imaginar que eles estavam ali com esperanças de que a consulta com um especialista que, assim como nós, não tinham condição de arcar com esse custo, poderia ajudá-los de alguma forma a superar aquela situação ali.

Eu engolia seco a cada minuto vendo todos aqueles olhares dos cachorrinhos. Mas um em especial ficou em minha mente.

Era um cachorro preto, ele estava sendo empurrado pelo seu dono, e estava dentro deu uma caixa de papelão bem grande. Pensava eu que me sentar na primeira fileira me pouparia de ver o estado de outros animais por estarem sentados atrás de mim junto de seus donos, mas quando esse passou na minha frente minha vontade era de chorar.

O cãozinho parecia calmo. Encarava o nada à sua frente, com os olhos baixos. Parecia estar sofrendo em silêncio algo que seria impossível de se por em palavras. Tentava ainda assim passar um ar honroso, um espírito inabalável, mas era claro que ao mesmo tempo estava cansado de sofrer.

Nas bordas dessa caixa de papelão haviam marcas de sangue. Eu olhava aquele vermelho diluído nas bordas do papelão e tudo o que eu queria era sair dali e chorar. Quanto de sofrimento aquele cãozinho devia estar passando naquele momento? O que ele tinha? Eu não sabia. Tudo o que aconteceu comigo foi ficar em choque.

E naquele momento eu fiz o que muita gente faz ao ficar nesse estado: tentar afastar meu próprio espírito do meu corpo. Era como me ver não mais em primeira pessoa, mas em terceira, como nos sonhos. Eu não queria viver aquilo. Eu não queria estar ali. Nunca gostei de veterinários, e estar num hospital veterinário público foi uma experiência que dilacerou meu coração do começo ao fim.

Meg está em casa se recuperando. Esse fim de semana vamos levá-la para fazer alguns exames para marcar na semana que vem o retorno com a doutora e marcar a cirurgia. Parece que vão ter que amputar sua pata inteira por conta do câncer.

Quando cheguei em casa a primeira coisa que fiz foi lavar as mãos. Via aquela sujeira cinza sair junto do sabão, e depois joguei água no meu rosto, umas sete ou oito vezes. Minha vontade era tomar um banho, como se aquilo fosse retirar da minha mente todas as experiências que vivi ali. Mas eu não consegui. Aquela imagem daquele cachorro, dentro daquela caixa de papelão suja de sangue, ficou na minha cabeça.

Queria de alguma forma escrever sobre e tirar isso de mim. Deixar nesse texto. Ouvir uma música tranquila para me ajudar a esquecer isso. E desenhar essa imagem também para que isso saísse enfim da minha cabeça, e ficasse no papel, bem longe de mim.

Tudo o que pude fazer ao chegar em casa foi oferecer preces sinceras, não apenas para minha Meg, mas por todas aquelas famílias e bichinhos de estimação eventualmente se curassem. Essa última quarta-feira foi um daqueles dias que eu pagaria qualquer coisa para que pudesse apagar da minha cabeça todas essas imagens.

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