Livros 2026 #9 - O colibri (2019)


Eu sou uma pessoa muito crítica ao ler homens hoje em dia. Não apenas porque me acostumei em ler mulheres — e admirar o imenso abismo de superioridade literária que as separam dos autores homens — mas também porque eu mesmo fico apontando o dedo pra mim mesmo, me perguntando se eu, como escritor, serei capaz de chegar nesse nível de excelência das escritoras mulheres que tanto admiro. 

Quando leio hoje em dia um livro escrito por homem, é difícil não encontrar os elementos que me fazem sentir asco. Mas antes de entrar nesse ponto, e criticar o autor Sandro Veronesi, quero falar da obra que li recentemente dele: "O colibri".

O livro conta a história do personagem Marco Carrera, um italiano que desde criança teve um problema em seu crescimento, e por conta dessa condição, sempre foi de certa forma tratado como alguém frágil. Ele consegue eventualmente superar esse problema de crescimento, mas ao longo da história de sua vida contada no livro, ele é atingido por diversos eventos que vão moldando quem ele é.

Esses acontecimentos são basicamente mortes: a começar pelo suicídio da irmã, Irene, ainda jovem. E outras mortes que vão acontecendo ao longo da trajetória.

Não vou esconder tanto o roteiro desse livro aqui, pois é um daqueles livros que acho que não importa o quanto você revele sobre o roteiro, nada vai substituir a vivência daquela leitura, pois como eu disse, ali está retratado uma vida inteira.

O autor não escreve de maneira linear, e isso pode incomodar muita gente. Pessoalmente eu gostei bastante desse maneira de escrever, pois a trama inteira vai sendo revelada e revivida em diversos momentos. Por exemplo: quando o suicídio da irmã é falado pela primeira vez, é no futuro, depois que tudo passou. Depois de alguns capítulos mostrando outras passagens da vida de Marco, volta de novo um capítulo mostrando, por exemplo, o dia em que ela se matou. Em seguida, mais alguns capítulos novamente tratando de outros assuntos, e depois mostra o que se passava na cabeça da irmã, e por aí vai.

O autor também tem ali uma sensibilidade muito bonita. Luisa, um amor impossível que Marco nutre, recebe várias cartas, e o texto delas no livro são passagens lindas, cheias de romantismo, são realmente lindas declarações de amor. Isso sem contar que o autor sabe dosar muito bem a velocidade do texto ali em diversos momentos, isso é também uma coisa interessantíssima.

Mas Sandro Veronesi é homem, e mesmo fazendo um bom roteiro, contando bem a história, e trazendo essa sensibilidade, ele peca na parte sobre a superficialidade das personagens femininas. Não que essa crítica seja direcionada apenas a ele — infelizmente escrever mal personagens femininas é mais uma regra, e não uma exceção, por parte dos homens — senti que as mulheres ali são em geral muito mal desenvolvidas, ás vezes mal passando no teste de Bechdel, que é algo quase que elementar da aula 1 sobre ser um bom autor. 

E como quase todo autor homem, falta também trazer aquela profundidade dos personagens. E nem falo apenas dos personagens masculinos ou femininos. Tirando o protagonista, que é muito bem desenvolvido, faltou mais carinho ali com os outros. Especialmente pois é um livro majoritariamente escrito em terceira pessoa. E um narrador em terceira pessoa facilita muito para desenvolver ali outros personagens. Deixou a desejar. 

Mas depois de tantas experiências com autoras femininas, como a Lygia Fagundes Telles, Elena Ferrante, Chimamanda, Carolina Maria de Jesus, Eliana Alves Cruz, Bernadine Evaristo, Mariana Salomão Carrara, Conceição Acioli, Conceição Evaristo, Alba de Céspedes, e tantas outras que não consigo puxar de cabeça agora, ler homens no geral virou uma literatura de segunda categoria pra mim. Todos são muito fracos.

E isso me dá um medo desgraçado de quando escrever meu livro, ficar com cara de livro de "homem padrão".

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