quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Por tudo que é inevitável, faço preces para que torne-se mutável.

Sei que acabaria esquecendo. Vejo até hoje coisas bem antigas, de 2005 que escrevi, e relembro. Óbvio que nomes não aparecem, alguns fatos são levemente confusos, mas tudo se encaixa perfeitamente.

Lá estava eu. Era uma sexta-feira comum, estava eu sozinho na frente do computador, resolvendo pendências. Tudo parecia estar numa relativa calma, pouca conversa, ar-condicionado gelado e até um leve sono de minha parte. Tudo estava bem, até que eu percebi alguém na porta, e senti que esse alguém parecia me chamar. Quando virei, a imagem congelou na minha mente de tal maneira que lembro-me perfeitamente como se fosse ontem.

E lá estava ela, chorando. Chorando muito, com a mão no rosto de alguma forma tentando segurar-se em pé, e a outra mão me chamando. Parei tudo que estava fazendo na hora, empurrei a cadeira, lembro de alguém ter me chamado mas ignorei completamente. Uma pessoa especial estava por algum motivo chorando, e naquela hora tudo no mundo estava em segundo plano.

Aquela imagem me remeteu tanta coisa na memória. Tanta coisa similar. Tantas pessoas queridas de um passado tão distante...

Levei ela pra um lugar mais sussegado, estava abalada pois seu namorado havia terminado com ela. De súbito, como se fosse um dos botões de liga e desliga dos seus joguinhos imbecis. As circunstâncias eram diferentes, mas lembro-me da vez que vi uma outra amiga chorar pois seus pais haviam se divorciado, quando fui em seu apoio. Porém a feição, o jeito eram totalmente similares.

Fiquei ao lado dela. De fato, ela é uma pessoa que confiava muito. Me abria muito com ela, pois sabia que algo nele nunca me cheirou bem desde o começo. Mas ela por sua vez, não. Nada. Muito pelo contrário, houve uma empatia, uma amizade. Talvez seja instinto ou sexto sentido, ou talvez tenha sido algo que muitas pessoas próximas me disseram sobre ele, mas ela era de fato alguém que me inspirava confiança, que me havia ajudado - mesmo que da sua maneira, mesmo que ela acredite que talvez não tenha feito muita diferença, mas fez. E muita. Quando a gente encontra algo especial na vida, a gente sabe que pode passar por vários apuros que conseguiremos nem que seja por algumas horas um abraço amigo. Ao menos assim que eu sinto por ela, alguém com que eu possa confiar tudo sobre eu mesmo.

Alguém que eu não gostaria de perder a amizade. Pensava eu na época.

Mais tarde, alguns dias depois, "n" veio falar comigo. Uma das poucas pessoas que embora eu tenha uma grande inimizade, é um dos poucos que conseguem raciocinar no meu nível. Porém, sinceramente não gosto de conversar com ele devido à sua frieza de espírito - uma coisa que comigo não existe, pois sou movido a emoção quase que exclusivamente.

"Você sabe muito bem como isso tudo vai terminar, mas mesmo assim acredita que vai tudo terminar bem?", disse ele pra mim, com uma pitada de cinismo. Parei tudo que estava fazendo na hora e retruquei: "Como assim terminar mal? Mesmo que aconteça algo de ruim, só estou pensando no bem dela".

"Exato. Mas a única pessoa que sabe o que é melhor pra ela, é ela mesma. Você está se enganando, isso vai durar nem duas semanas, vai tudo voltar a ser como era antes, e você que já perdeu muita coisa nisso tudo, vai perder a sua melhor amiga também". Quando concluiu ele deu uma pequena risada, meio abafada pela sua tosse seca constante. Fiquei mudo, e depois de um tempo "n" concluiu: "Você está mentindo pra si mesmo. Dentro da sua alma sabe o que vai acontecer, porém você ainda acredita que ela continuará sendo sua amiguinha depois mas não vai. Você sabe muito bem que quando eles voltarem, você será delegado a um nada. As pessoas mudam, mesmo que ela seja bondosa, acredita que será bondosa pra sempre? Jamais aceitará seu lado, porém você é um homem, e tem que lutar pelo que acredita ser certo até a morte".

Por um pequeno momento meus olhos lacrimejaram. Não sei porque, mas lacrimejaram, porém não derrubei nenhuma lágrima. Decidi tomar ar e responder rapidamente.

"Uma das pessoas mais importantes na minha vida, que já se foi, me ensinou que não acredita que o mundo bom e justo deva ser construído abandonando as pessoas. Se eu acreditasse, ora, seria o mesmo que dizer que o destino dele foi a morte injustiçada que teve. Sim, é verdade, sei que daqui a um tempo acontecerá exatamente isso, perderei minha amiga, mas ela sabe que não importa quantas milhões de vezes isso aconteça, todas as milhões de vezes extenderei minha mão pra ela de novo e de novo. Tenho um débito com ela. Ela sim é uma pessoa muito bondosa, de um coração tão grande quanto qualquer coisa".

"Pft...", abaixou a cabeça com desdém pra mim, "Você acredita mesmo que existe alguém bondoso nesse mundo?"

"Se não existir ninguém - Então eu estarei lá para ser essa pessoa bondosa para as pessoas. Não precisa fazer o bem pro mundo inteiro, mas sim para as pessoas ao seu redor, é o que acredito. Mesmo que ela faça essa escolha, 'n', mesmo que ela dê com a cara no muro, eu vou ajudá-la quantas vezes for. Como no começo, como se nada existisse. Pois ela é minha amiga, mesmo que exista toda essa distância que você diz, mesmo que outros fale coisas, mas confio nela plenamente e isso é inabalável".

"Idiota. Daqui a três ou quatro meses pode anotar o que vou falar: ela vai nem olhar mais pra tua cara. Três? Não, é muito, dou nem dois meses! Você só saiu perdendo nessa estória e não vai recuperar nada.", concluiu "n".

2 comentários:

n disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Sir Alain de Paula disse...

Você não é o N.
Imbecil, vai procurar o que fazer. Comentário deletado.

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