quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Doppelgänger - #3 - Qualquer lugar, menos Newmarket.

10 de novembro

"Witterman, é o Rockefeller. Está na escuta?".

"Boa noite, Rockefeller. Sinto lhe dizer, mas Alfred não pode falar com o senhor agora".

Rockefeller sentiu um frio na espinha. Aquilo só significava uma coisa. E ela não era boa. Porém, para chegar até aqui precisamos voltar um pouco no tempo.

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9 de novembro

O rádio ao fundo tocava a BBC. Acho que era o quarto canal, lembro que estava tocando um programa musical. As pistas que tinha do paradeiro do criminoso apontavam para Newmarket.

Primeiramente, eu gostaria de explicar minha relação com Newmarket. Nasci na Rússia, mas foi apenas o lugar onde aconteceu de eu ter vindo ao mundo. A primeira residência do meu irmão era Newmarket, ao leste da ilha da Bretanha. Não é uma cidade famosa, nem muito grande. Tem muita gente que anda de cavalo morando por lá. Bom, eu nunca fui grande fã de cavalos, logo prefiro pular essa parte.

Não tem muita coisa por lá. E nos mudamos várias vezes na minha infância. Porém, eu tenho certeza que Newmarket não foi escolhido por acaso como o local para que ele centralizasse as operações. Newmarket significa muita coisa pra mim, como sendo o local onde morava com meu irmão. Parecia uma grande provocação: eu visitar o local onde vivi minha infância seria o local onde eu morreria.

O esquema seria o seguinte: eu consegui o contato de um dos subordinados dele. Marcamos de fazer alguns negócios e nos encontraríamos num Pub perto do campo de críquete local. No horário marcado nos encontramos lá. Olhei no relógio: 15h32.

"Senhor Alfred?".

"Sim?", respondi.

Era um homem calvo, tinha jeito mesmo de ser apenas pau mandado. Chegou com uma mala e terno. Eu estava tomando uma caneca de Fosters no momento.

"Sabemos que esse encontro não é para negócios", ele iniciou, se aproximou de mim e começou a falar mais baixinho, "E posso levá-lo ao Artie. Só preciso de uma garantia que a justiça não me pegue".

Pensei um pouco, e olhei pro cara. Ele colocou na mesa um cartão, estilo cartão de visitas. Deu um sorriso. Sem dúvidas era um pilantra. E aquilo provavelmente era uma armadilha.

Foi aí que uma pessoa chegou por trás do homem calvo, e discretamente, injetou nele um dardo. O homem se assustou, mas logo ficou um pouco avoado. Efeito do alucinógeno. Eu e Victoire o levamos para fora do bar, e eu, com o endereço nas minhas mãos peguei um carro com Rockefeller e seguimos ao endereço.

Era um pouco distante do centro, parecia um galpão abandonado.

O carro voltou pela estrada, mas de súbito um caminhão veio ao nosso encontro, batendo no nosso carro e estraçalhando a nós completamente.

Não sei descrever a sensação de estar num carro que bate. Não machucamos tanto, parece que o susto que "machuca". Eu perdi noção total do tempo. Por ser inverno, naquele horário já estava totalmente escuro. Eu não conseguia falar, e por mais que eu tentasse abrir os olhos, estava difícil. O carro não tinha capotado. Não lembro de como estava o Rockefeller. Vi um outro carro se aproximando, e meu corpo sendo puxado.

Você poderia me perguntar: porque não se mexeu?

Mas eu não conseguia. Acho que estava em choque. Aí que a gente vê como nosso cérebro é forte, e nosso inconsciente mais ainda.

Fui jogado num salão grande. O carpete era bonito e vermelho, tinha até um lustre. Parecia uma suíte presidencial de um hotel, só que sem a cama. Fui aos poucos me acalmando quando eu vendo que meu corpo estava inteiro. Foi aí que quatro homens entraram pela porta. Eu estava encostado na parede. O primeiro de aproximou de mim, eu tentava focar, mas tudo ainda estava muito embaçado. Ele com o pé, ergueu meu rosto e eu vi seus olhos.

"Já faz algum tempo, meu irmão!", ele iniciou, "Não está mais tão jovens, né? Você está se afogando no tempo mesmo, meu irmão".

"Quem é você?"

"Você sabe quem sou eu!".

"...Ar... Arthur?".

"Hahaha! Eu sei como você se sente. Não sei como você sobreviveu ao vírus que a Victoire colocou em você! Esse é o preço do prodígio mental. Mais alguns anos e você será apenas mais um morto, sem provas contra esse sistema imundo que nós fazemos parte!".

Newmarket drenava minha força, minhas lembranças, minha vida. Poderia ser qualquer lugar, menos aí.

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