terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Doppelgänger - #10 - Ne me quitte pas.

"Rockefeller, agora não estou entendendo mais nada! O Alexei disse que tinha como parceira a Victoire! A Victoire não estava de licença depois da morte do Al? Ouvi até boatos que ela tinha tirado sua própria vida, e agora ela está aqui, a um botão de distância via rádio!".

"Nezha, foque na sua missão. Já tivemos distrações demais, desça o subsolo e resgate a prisioneira!".

Nada ainda parecia fazer sentido. Ele sabia que Victoire não tinha lá muitos contatos. E como ela estaria numa missão dessas depois de tudo? Algo estava mal explicado. Nezha foi direto à porta, e ao passar por ela encontrou uma longa escadaria. Aquele local parecia catacumbas - mas todas feitas com tecnologia: paredes cimentadas, muitos monitores e celas, é claro.

Ao descer a longa escadaria começou a ouvir um tiroteio. Com uma arma que havia pego no andar superior foi caminhando lentamente, e viu uma sala com muitos guardas, todos atirando para todos os lados. Eles pareciam imersos num transe, sem focar em nada, aparentemente amedrontados. A cena era horrenda, pois os tiros ricocheteavam e acertavam uns aos outros. Sangue e vísceras eram vistos, e ali dava pra se ver muitos, muitos guardas.

A porta estava trancada. Mas ele podia ouvir uma música. Era a Sinfonietta, de Janáček. Uma música clássica como fundo daquela barbárie.

"Psiu! Psiu!".

Nezha ouviu alguém o chamando. Depois ouviu uns risinhos. O corredor na sua frente estava escuro - iluminado apenas por lâmpadas fluorescentes piscando. Mas o som não parava, alguém continuava por chamá-lo por "Psiu". Nezha não viu opção - tinha que cruzar aquele corredor. A pessoa a ser resgatada estava naquela direção também.

E aí ele começou a ouvir a mesma Sinfonietta. Mais e mais. Ele estava em praticante um breu completo, e viu uma sala de onde saía uma luz alaranjada. Era de lá que estava saindo o som. Sem dúvida a pessoa já havia o visto, a melhor opção era enfrentar quem quer que fosse.

Ao entrar, a porta se fechou logo atrás dele. Era um pátio similar de onde os guardas dopados estavam. Havia um grande lençol sobre algo imenso, mas aí essa coisa se virou, e ele viu que na verdade se tratava de uma pessoa.

"Shalom, invasor!", disse o homem.

"Quem diabos é você? Por acaso você é o responsável por todos aqueles guardas sem noção estarem naquele tiroteio desenfreado?", interrogou Nezha.

"Eu sou um noBODY. Pode me chamar de Schwartzman. Bom, se quer mesmo sa... sab saber s s e fo foi eu".

Nezha estava confuso. Aquele cara parecia falar nada com nada. Algo estava acontecendo.

"O o o qu que fo fo foi? C c con conse consegue m me o o ou ouvir?".

Ele ouvia, mas seu cérebro não processava. Schwartzman aproximava-se lentamente dele, mas sua visão estava confusa. Ele parecia andar pra frente, mas não saía do lugar. Tudo parecia estar em câmera lenta, enquanto ele sentia um doce aroma de lavanda.

Seu corpo parecia em um torpor imenso, suas pernas perderam o chão e ele caiu de joelhos. Mas estranhamente não sentiu a dor da queda. Foi nesse momento que seu tronco também cedeu, e ele via fixamente os pés de Schwartzman se aproximando. E ele, novamente, cantando em Francês.

"Ne me quitte pas, Il faut oublier, tout peut s'oublier, qui s'enfuit déjà..."

Sons de tiros ecoaram na sala, acertando Schwartzman, que caiu a poucos centímetros de Nezha. O jovem agente viu alguém se aproximando dele e colocando uma máscara de oxigênio. Aos poucos ele recobria os sentidos.

Porém, seu corpo ainda não respondia, nem mesmo sua fala. Ele sentia estar sendo levado para algum lugar. De súbito foi tomado por um sono incrível, e adormeceu. sua última lembrança era uma sala com paredes creme e uma porta em grade.

Ele estava preso.

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