sexta-feira, 25 de abril de 2014

Doppelgänger - #18 - Os nossos medos.

Aquela conversa com "n" parecia interminável. Mas por mais que Al tentasse não encontrar sentido em qualquer coisa que seu maior rival falasse, tudo aquilo parecia o humilhar. Seu coração estava disparado, e ele sabia que não sairia dali tão fácil.

"Sim, o Ar é seu sobrinho. Foi em abril de 2000 que você o salvou de um maluco que havia invadido a casa dele em Rosário, na Argentina. Realmente o tempo voa, e agora ele é um moleque de 22 anos com uma bazuca nas mãos", disse "n".

"Vamos logo, se seu objetivo foi me humilhar, acho que sua vingancinha de merda já foi feita, preciso logo desses documentos, 'n'! Não tenho tempo a perder!", gritou Al.

Na hora "n" olhou de uma forma bem irônica para Al. Ergueu os braços o mostrou estar pouco de lixando para o que estava acontecendo ali. De fato, ele estava com as rédeas do jogo, e embora fosse necessário, Al não queria entrar no joguinho dele. Porque diabos ele estava fazendo isso?

"Escuta Al, lutar contra o Ar não é uma luta comum. Esse garoto te conhece como ninguém, você ajudou a criá-lo inclusive. Lutar contra o Ar é lutar contra o seu passado, lutar contra tudo aquilo que é sua fraqueza", iniciou "n".

Al sentou pois sabia que ia ser uma longa conversa.

"E seus medos ele conhece bem, e vai usar contra você. Estar no ramo da Inteligência normalmente as pessoas sempre prezam pessoas racionais e frias como eu, mas também existe espaço para pessoas muito emotivas como você, embora a maior lenda dos últimos tempos seja seu irmão, que tinha um equilíbrio perfeito entre razão e emoção - algo que dificilmente as pessoas nesse ramo têm. A maior prova que posso te dar sobre sua fraqueza é isso", disse "n" que se aproximou de uma prateleira calmamente.

Ao virar, "n" sacou uma arma e apontou diretamente para a testa de Al. Muitas pessoas nesse momento têm medo, afinal estamos lidando com um rival que sempre viveu para derrubá-lo, e que sempre faria de tudo para ser o melhor. Eliminar o rival seria a melhor parte, afinal ele estava em seu covil. A sensação gelada de ter uma arma pronta pra disparar em sua testa é algo de tirar o fôlego, entender que sua vida está nas mãos de um gatilho de uma pessoa e que a qualquer ligeiro movimento tudo aquilo que você conquistou, que você é, será pausado. E tudo o que você terá é uma morte de cão, enterrado numa lápide num cemitério qualquer, onde pessoas no máximo chorarão sua perda um dia ou dois, e depois retornarão suas vidas comuns, como se nada tivesse acontecido.

Porém, Al não pensou nada disso. E ficou em calma, olhando para a arma de "n".

"Viu só?", disse "n", "Você é imortal?"

"Não", respondeu Al, "Eu apenas não tenho medo da morte".

"Tolo!", disse "n", tirando a arma e guardando-a, "É exatamente essa sua fraqueza, Al. Pra você se te matassem seria um favor, não? Afinal nem se matar você consegue. Se eu colocasse a sua lista de maiores pesadelos, aqueles que te fariam gelar suas pernas, um deles seria aquilo que interferiu na sua cabeça todos esses anos por causa da criação dura que você teve. Por exemplo, não existe pesadelo maior seu que acordar no outro dia e uma mulher vier dizendo que tem um filho seu. Esse medo seu sobre isso é como o medo de morrer que muitas pessoas têm, talvez seja por isso que posso contar nos dedos de uma mão as mulheres que você se sente confiante em manter algo banal, como uma relação sexual".

Al engoliu seco. De fato, a paternidade era o seu maior pesadelo. Pode parecer algo simples e até bonito, mas ser responsável por uma vida, educar, dar carinho e viver completamente por um descendente soa como o maior de todos os pesadelos para Al.

"Me diga, e se um dia, sei lá, acontece da Victoire ficar grávida? É só ela que você anda comendo ultimamente, não? Se ela está te dando, o problema é dela, e sabemos que ela se cuida, toma a pílula certinho e do jeito que ela é apaixonada por você, duvido que dê aquela xoxota pra outro cara. Você pensa que apenas eu sei isso? Até o Ar sabe disso, e isso será uma das coisas que ele usará contra você. Ele vai acabar com sua vida, vai usar todas as artimanhas psicológicas pra te derrubar, e é isso que você quer?", disse "n".

"Então seu idiota," disse Al, avançando pra cima de "n" e segurando-o firme na parede no seu colarinho, "O que você me sugere, seu imbecil?".

"n" nesse momento riu. Ironicamente, claro.

"Simples. Você tem que ir atrás do Artax. E mandar que ele termine o seu treinamento!", disse "n".

Nessa hora, Al o soltou, e "n" caiu suavemente no chão. Al se virou e ficou olhando pro chão pensativo, enquanto caminhava. "n" olhava atentamente para ele, dando-lhe um tempo para que ele conseguisse pensar na ideia. Alguns segundos se passaram.

"Amanhã você ainda vai ficar aí com suas amiguinhas de Amsterdam, não? Diga pra elas que você vai pro Schiphol. Tem um agente que darei as ordens para te levar até um jato, onde embarcará pra onde seu mestre está".

"Meu mestre não vai me aceitar de volta. Eu abandonei o treinamento há muitos anos, nem eu sabia que ele estava vivo".

"Implore. É a sua única chance. Se existe alguém que vai te dar um treinamento para que você supere seus medos, essa pessoa é ele. Vincent está agora vivendo na Colômbia, é meio longe daqui, então você não tem tempo pra nada. É seguir direto pra lá, aprender, e voltar. Cinco horas pra ir, cinco pra voltar. Não vou te mostrar as informações que tenho agora, na hora certa elas chegarão até você. Bon voyage", concluiu "n".

Al sabia que encontrar com seu mestre não seria algo simples. Mas não tinha tempo a perder. O treinamento ia ser duro, mas necessário.

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