sexta-feira, 1 de agosto de 2014

E se eu tivesse feito outra escolha?

Eu me olhava no espelho, e via as rugas, cada vez mais deformando meu rosto.

Eu estava com cinquenta e poucos anos, mas parecia que eu já passava dos oitenta. O envelhecimento acelerado cada vez mais transformava os meses em anos. O cabelo estava praticamente todo branco, e as dores no corpo eram terríveis. O rosto desfigurado pelas rugas. Até a roupa perdera as cores.

Caminhava com dificuldade na casa, fui até a geladeira e tirei da porta uma garrafa de leite. Fui até o fogão e aqueci para tomar um pouco de leite com mel. Dizem que é bom pra garganta.

Eu olhava pela janela com a xícara e via a paisagem escura e cheia de neblina de Londres. Era uma vizinhança relativamente calma em Pimlico. Sim, Pimlico. Eu podia ver a casa onde morei com meu irmão Arch, há mais de quarenta anos, na minha frente, que havia sido transformada em um restaurante.

Toda aquela casa tinha um ar melancólico. Mas acima de tudo era um ar de solidão.

E esse era eu, depois de tudo, sozinho. Não tinha família, não tinha amigos, não tinha ninguém. Trabalhar na inteligência normalmente dá nisso, depois que não somos mais úteis, mesmo que depois que sobrevivamos, no fundo somos aquilo que sempre fomos. Não temos direito a uma identidade. Não temos direito a ser alguém.

Somos meros órfãos, pessoas que não nasceram com família, e ao mesmo tempo jamais conseguiriam constituir uma também. Apenas ferramentas do Estado. Não havia glamour, não haviam cassinos, não havia Vodka Martini (shaken, not stirred), não haviam perseguições implacáveis com explosões. No fundo somos pessoas tão sozinhas que embarcamos em nossas missões torcendo para que enfim sejamos livres. E liberdade, nesse caso, significa morte. E torcer pra numa próxima vida não ter esse destino infeliz.

Eu olhava pela janela e via as divisórias dela. Aquilo parecia era uma grade. Pois se você não é pego por espionagem e torturado até a morte por algum governo, você é obrigado a viver, depois de aposentado. O governo não deixa faltar nada, é verdade, mas será que uma pessoa é capaz de viver com uma pessoa comum mesmo depois de tanto tempo, mesmo depois das suas ações terem dissolvido governos, empresas e causado tanta coisa para tantas pessoas, acha que uma pessoa assim tem o direito de deitar numa cabeça a noite tranquilamente para dormir?

Não. Eu nunca tive o direito de ser feliz. Minha vida sempre foi uma mentira. E naquele momento, já com mais de cinquenta anos, era tudo o que eu podia ver. Tive uma chance de ser uma pessoa comum, mas será que era isso mesmo que eu queria? Ou pior: será que eu merecia tudo isso mesmo assim?

Não.

Nasci sozinho. Morrerei sozinho. Naquela casa eu sabia que depois de mim, mais um dos únicos sobreviventes dessa vida entre os milhares seria mandado pra ali. E ficaria naquela mesma casa modesta em Pimlico, assim como outros antes de mim também ficaram. Eu não tinha esposa. Não tinha um amor. Apenas tinha transado algumas vezes, mas será que eu realmente senti amor por alguém?

Minha última missão já tinha acontecido há quase quinze anos. O que será que havia acontecido com Ar?

A morte tem um gosto seco. Eu sentia minha boca secando, e muita dificuldade em respirar. Mas eu me sentia tão cansado... Que eu tinha que me lembrar de respirar. Deixei a xícara cair no chão, e o leite todo se esparramou pelo tapete. Me joguei no sofá e fiquei com a cabeça inclinada, olhando todo aquele leite esparramado pelo chão.

Droga... Que sujeira, derramei o leite. Que preguiça de limpar isso...

A morte tem gosto de preguiça. Eu sentia eu mesmo sem energia nenhuma. Sempre me disseram que a morte era um descanso, e naquele momento tudo o que eu queria era fechar os olhos por um momento. Sentia meu coração cada vez mais devagar, e com os olhos fechados eu já não via nada. O cheiro do leite havia passado também. Logo depois eu mal sentia o cheiro das coisas. Tudo o que eu conseguia fazer era ouvir.

E ouvia o tic-tac do relógio. Ouvia os turistas passeando, procurando o Tate Britain. Ouvia os estudantes de arte conversando sobre Degas e Renoir. Ouvia o barulho do vento batendo na fresta da janela (eu sabia que devia ter consertado aquilo). Porque eu não morria logo? Os sons iam ficando mais baixos, a respiração se tornava algo inaudível. Morrer é isso. A gente simplesmente cansa. Fica cansado até de se sentir cansado, e nada mais queremos do que mergulhar logo nisso e descansar. Descansar, sem pensar em acordar.

Merda. Quando me acharem morto aqui vão ver a bagunça eu eu fiz com o leite. Mas quer saber? Foda-se essa merda toda...

E se lá atrás eu tivesse feito outra escolha?

E se eu pudesse voltar?

Será que eu teria tido um futuro diferente?

0 comentários:

Postar um comentário

Arquivos do blog