segunda-feira, 18 de maio de 2015

Doppelgänger - A história dentro da história (8)

Pouca gente dá importância ao leste europeu. Existem até hoje muitos grupos separatistas, nacionalistas e extremistas naquele local. Todos embora tenham suas ideologias distintas, usam dos métodos mais cruéis, cortando liberdades individuais das pessoas, expandindo territórios por meio de forças armadas revolucionárias e castigando pessoas que vão contra sua ideologia. O leste europeu está em guerra. Uma guerra e uma revolução silenciosa que desde a perestroika nunca esteve tão forte.

Se existe um palco perfeito para uma nova guerra mundial hoje, esse local é o leste europeu. A quantidade de grupos armados e terroristas só aumentam, dia após dia.

Mas na década de 1960 era bem diferente a coisa. Estamos no norte da Hungria, onde uma pequena garota, Erika Lakatos brincava de pular corda com seus amiguinhos.

“Erika, Erika!”, disse uma das suas amiguinhas, “Advinha o que eu tô pensando?”.

A pequena Erika se concentrou. Ela não sabia direito o que ela mesma tinha, ou como ela conseguia fazer isso, mas se ela fechasse seus olhos ela conseguia ler o que a pessoa estava pensando.

“Uma melancia?”, disse Erika.

“Acertou!! Nossa, dessa vez foi difícil, né? Vai você pular corda agora!”, disse a amiguinha.

Nada poderia ser escondido da pequena Erika Lakatos. Porém, seus pais nunca acreditaram muito no estranho dom da menina. Por mais que a menina acertasse, achavam que aquilo era apenas uma coincidência. Como seria possível uma pessoa ler a mente das outras pessoas?

Ela tinha sangue cigano. Seus pais haviam tido ela tarde, e eles haviam sobrevivido por pouco de duas grandes catástrofes. A primeira foi a Segunda Guerra Mundial, com Hitler caçando ciganos com a mesma truculência que judeus. Porém, os ciganos eram uma etnia pobre, nunca conseguiram o respeito que judeus conquistaram, vivem até os dias de hoje marginalizados, reféns da sua própria sorte na mão do povo húngaro “sangue-puro”.

E a segunda foi quando a Hungria, ainda parte da União Soviética tentou uma insurreição para se separar do bloco comunista. Os leais a Imre Nagy foram completamente massacrados pelo exército vermelho em 1956. Toda a família dos pais da pequena Erika faziam parte da revolução fracassada, todos os tios, primos, parentes, todos morreram, apenas os pais sobreviveram – e tiveram que viver isolados no norte, criando sua filha sozinhos, com medo de represália do governo, que poderia vir a qualquer momento. Eles tinham medo da sua própria sombra.

Erika Lakatos gostava muito do aroma de lavanda. Era primavera, e seus pais tinham uma pequena plantação de lavanda na pequena chácara. Erika adorava correr nos campos com os braços abertos e narinas pra baixo, como se desse rasantes em todas aquelas flores. Eles não tinham muito, mas esses pequenos prazeres eram inestimáveis.

Todos os dias ela encontrava com uma senhora, já aparentando ter lá seus cinquenta anos. Ela a conhecia apenas como Brigitte. Parecia alemã. Pelo menos umas três vezes por semana Brigitte aparecia perto do portão da chácara e chamava por Erika. No começo havia estranheza, afinal sua mãe deixara bem claro pra ela, nunca conversar com estranhos, pois seria perigoso, afinal ela era apenas uma criança. Mas a tal Brigitte sempre aparecia com um pelo Golden Retriever no portão, chamado Alf, que a pequena garota adorava brincar.

“Me diga, sua mãe não é daqui, né?”, perguntou Brigitte, enquanto via o Alf lambendo a pequena Erika.

“Não, ela não é daqui não”, disse Erika.

“Da onde ela é então, menininha?”, perguntou Brigitte.

“Eu não sei direito... Eu sei que papai e mamãe estavam no exército do Nagy. Eles falam que esse governo comunista é corrupto, e que o governo faria de tudo pela cabeça deles”, disse Erika, cheia de inocência.

“É mesmo? Interessante...”, disse Brigitte.

Por mais que Erika pudesse ler mentes, ela era também igualmente inocente. Nunca pensou que uma pessoa que tivesse cachorros poderiam ser alguém mal. E Brigitte a conhecia, muitas vezes a velha aparecia no portão da sua casa e passava um ótimo tempo com ela, não teria problemas falar dessas coisas – no fundo, aquilo era uma forma de desabafo. Já havia passado tanto tempo, o que poderia acontecer?

Na semana seguinte Brigitte não veio. Nem na outra. Menos ainda na seguinte. Quase um mês depois sua última visita, Brigitte chamou Erika para a frente do portão. Fez a garota abrir e sair pra fora da propriedade, e sua mãe ao longe viu o movimento estranho e chamou pela filha.

Porém, quando sua mãe viu Brigitte levou um susto, reconhecendo-a. Vários homens saíram do nada de diversos locais e entraram correndo na propriedade portando armas. E na frente da própria Erika Lakatos fuzilaram a mãe dela sem piedade.

Era fim de tarde, os soldados invadiram a casa da garota e foram em busca do pai, que tentou ainda se defender se escondendo atrás da porta e esfaqueando um dos soldados, mas apenas parou um deles, o segundo apareceu e alvejou sem dó o velho Lakatos.

Todo ser humano tem uma primeira experiência com a morte. Normalmente é quando pecamos o peixinho do aquário e colocamos ele na mesa. Nós o vemos se debater, até que enfim ele morre. Tentamos colocar de volta na água, mas o animal morto apenas boia, inerte.

Erika Lakatos naquele fim de tarde viu sua casa em chamas. Aquilo brilhava como o sol. Se aproximou do corpo da sua mãe, ensanguentada, com dezenas de marcas de tiro no corpo e viu o sangue saindo. Olhou pra trás e viu que todos os homens haviam sumido, e ela nunca havia visto a morte. Não sabia o que havia acontecido, menos ainda havia visto uma arma. Mas viu o sangue que jorrava da sua mãe, já morta.

Por um instinto pensou que se ela colocasse aquele líquido vermelho de volta e tampasse os buracos sua mãe acordaria. Pensou que aquilo talvez fosse algum fluido de vida, algo do gênero. Crianças possuem uma imaginação fértil. Ela sabia que Brigitte nunca poderia fazer nada. Brigitte tinha um cachorro! E quem tem cachorro não pode ser gente má. Porque sua mãe não respondia? Porque ela não parava com aquela brincadeira? Porque a casa dela com suas bonecas de pano estava em chamas? Porque aquela coisa vermelha estava saindo do corpo dela?

Minutos depois uma vizinha, também cigana, apareceu e viu Erika lá. Será que foi correto poupar a vida daquela garota? O cheiro de lavanda de misturava com sangue. Um aroma que Erika nunca mais se esqueceu. Naquela dia ela conheceu a morte. E viu que ela é imbatível, e insuperável. Nunca mais veria sua mãe, teria um abraço dela, ou teria ela falando pra não falar com estranhos.

O jeito era fugir. E como bons ciganos, eram um povo migrante. O nome da vizinha era Judith Horvath, e a senhora Horvath adotou a jovem Erika, mudando seu nome pra Marlene Horvath, e se mudando pra Holanda. Erika, agora Marlene, era extremamente inteligente, e rapidamente se adaptou ao país e a língua. A família Horvath eram pessoas bem informadas politicamente. Gostavam de sediar debates, e inclusive fizeram parte do levante contra o governo comunista na Hungria junto dos pais da Erika Lakatos, muitos anos antes.

Mas nunca contaram pra Erika como conseguiram mudar seu nome pra Marlene Horvath. E menos ainda Erika entendia como eles conseguiam tão facilmente deixar os países do outro lado da Cortina de Ferro e ir para aquele mundo capitalista abundante e livre. Nunca sequer tocaram no assunto.

Porém, Marlene tinha uma característica um pouco perturbadora. E o primeiro sinal disso foi quando sua vida se cruzou com Agatha van der Rohe.

Os pais adotivos de Marlene eram pessoas ligadas a movimentos de esquerda, por mais que estivessem fugindo do bloco comunista. Parecia que o bloco comunista estava prestes a ruir, fruto da ineficiência e corrupção do governo após o outro, mas ainda assim várias ideias de esquerda eram defendidas com afinco e a jovem, pela sua criação com seus pais adotivos, achava aquilo correto. Não demorou muito para que Marlene conhecesse os ideais feministas, e os defendesse com unhas e dentes. Mesmo que estivesse sozinha nisso naquela época.

Mas Agatha era uma pessoa que não ligava pra ideologias. Na verdade, as abolia. Era uma menina de uma abastada família holandesa, absolutamente nada faltava pra ela, logo qualquer coisa que ela fosse fazer era por simples prazer e diversão. De longe Marlene tinha nojo daquela pessoa, pois pra ela Agatha parecia a encarnação de tudo que existia ruim que seus pais adotivos diziam. Sua missão era acabar com Agatha, e fazê-la vir de joelhos pedir por ajuda. Mas como sabemos o destino foi meio ingrato com Marlene, levou um soco bem dado por Agatha no rosto, machucando não apenas seu rosto, mas sua integridade, seus ideais.

Foi citado acima que nessa época Marlene desenvolveu uma caraterística única, mas igualmente destrutiva e perturbadora. Marlene sofria do que chamavam de Síndrome de Estocolmo, pois mesmo detestando Agatha com toda sua força, estranhamente desenvolveu uma paixão absurda por ela, que aos olhos de Agatha era uma perseguição doentia que a outra fazia nela.

Marlene queria Agatha por cima de tudo. Queria Agatha do seu lado, não apenas na ideologia, mas também no coração. Não conseguia viver com o fato de Agatha a detestar, ela a perdoava e queria ela ao seu lado a todo custo. Talvez um fruto da sua criação e o medo de perder alguém como fora com seus pais, ela viu que a chance de vida seria se unir a alguém mais forte, mas fazia isso sem perceber, pois aquilo pra ela era... Amor. Justo a garota que havia dado aquele soco bem dado nela. Um soco que a fez se apaixonar por ela. Algo curioso da mente humana.

Essa recordação a seguir Agatha não tem, pois no dia da sua festa de graduação do colégio ela estava completamente bêbada, a ponto de não se recordar de nada. Mas Agatha, complemente embriagada, foi levada para um quarto de hotel pela Marlene, que por mais que defendesse os direitos feministas, acabou abusando sexualmente da Agatha, passando a noite com a holandesa que estava muito embriagada pra lembrar de alguma coisa. Aquilo era mais forte que ela, o desejo era imenso, aquilo na mente de Marlene era a coisa mais bonita do mundo, mas talvez num olhar de uma pessoa de fora se caracterizava como uma cena de estupro, mesmo que se fosse feito por uma outra mulher. E pior ainda: com a vítima inconsciente.

No meio da transa parece que Agatha acordou e vomitou. Ela realmente tinha nojo de mulheres, e a sujeira que ficou no cabelo de Marlene parecia só dar mais tesão pra ela. Uma feminista abusando sexualmente de uma mulher. Tão paradoxal quanto um padre abusando dos seus coroinhas.

Agatha até hoje não entende como foi parar naquele quarto de hotel sozinha, menos ainda se lembra do que aconteceu na manhã seguinte. Marlene havia deixado ela lá sozinha no meio da noite.

Naquele mesmo dia Marlene voltava pra casa realizada. Havia provado da mulher que ela sempre tivera vontade. E pra ela, de fato, mulheres hétero tinham um sabor diferente das outras que eram gays.

Mas quando chegou na sua casa, viu diversos policiais. E quando se aproximou viu sua mãe adotiva, algemada, sendo levada pra dentro do carro policial. Marlene foi se aproximando da sua casa, toda interditava e tomada por curiosos e policiais, entrando no meio das pessoas até chegar na frente e entrar na casa.

Duas coisas se misturaram, tal como havia acontecido na sua infância. Primeiro ela sentiu um gostoso cheiro de lavanda, e viu que um homem alto, grande e bem bonito que exalava o cheiro. Quando ele viu que a jovem havia entrado na casa fez um sinal para os policiais ficarem tranquilos, ainda de costas. Ao se virar, Marlene viu que sua roupa tinha marcas de sangue espirrado, e ele carregava uma arma.

“Você mora aqui?”, perguntou o homem.

Marlene não respondeu nada. Estava em choque. Por um simples motivo: quando o homem chegou nela e perguntou se ela morava lá ela viu o corpo do seu pai adotivo estirado no chão. Morto.

O cheiro delicioso de lavanda se misturou novamente com o sangue, e aquela cena parecia uma bizarra reprise do assassinato dos seus pais de quando ela era criança. Mas dessa vez ela estava na frente do algoz dos seus pais adotivos.

“Sim... Eu moro aqui. E quem é o senhor?”, perguntou Marlene. O homem pegou uma ficha, que tinha o nome e os dados daquela jovem.

“Você deve ser Erika Lakatos. Pelo visto você não sabe quem eram seus pais adotivos, mas eles eram espiões soviéticos procurados há muito tempo por nós aqui. São pessoas ligadas à mais alta cúpula do governo, e estão ligados a diversas atividades ilegais nesse bloco de cá do mundo, obtendo informações e tudo mais. Um deles infelizmente reagiu e acabou sendo morto, mas a mulher conseguimos prender sem maiores problemas. Por conta da influência deles, você conseguiu uma nova identidade e família. Eu sou Briegel, mas me chame de Coronel. Eu sou o agente líder do Sector 9 da Interpol”, disse Briegel.

O Coronel então passou por ela, saindo da casa. Marlene era de novo Erika Lakatos. Ela via aquela situação e enfim envia entendido: parecia que a vida havia voltado no mesmo ponto de antes, e dessa vez ela teria a chance de fazer uma nova escolha – uma coisa que ela não pode fazer quando era uma criança sozinha no mundo. Agora Erika era uma mulher, dona do seu nariz, de portas pra vida adulta. E nada a segurava, nem seus pais, menos ainda seus pais adotivos.

“Coronel, não é?”, gritou Erika, chamando a atenção de Briegel, que continuou andando sem se virar, “Escuta, eu não tenho nada aqui que me segura mais. Será que você pode me levar contigo? Posso ser útil de alguma forma como agente nesse local que você trabalha. Eu sou capaz de ler mentes”.

O Coronel Briegel que estava praticamente entrando no carro parou e olhou para a jovem senhorita Lakatos. Com um tom de desafio disse: “Ler mentes? Me prove”.

Erika só precisou de cinco segundos.

“Seu nome é Roland Briegel. Você nasceu em cinco de maio de 1895, portanto tem hoje oitenta e seis anos. O senhor tem uma filha, chamada Natalya, que também trabalha com o senhor, e você tem uma irm...”, nessa hora Erika hesitou, como se tivesse visto algo aterrorizante enquanto lia a mente do Coronel, que tentava entender o que estava acontecendo, “...o senhor tem uma irmã mais velha, já falecida, cujo nome é...”.

O Coronel naquele momento não entendia o motivo das lágrimas caindo do rosto de Erika Lakatos. Mas dias mais tarde ela o explicou – e foi justamente esse fato que provou que foi nada menos que o destino que trouxe Erika Lakatos para ser sua subordinada. Não era coincidência, na mente de Briegel, católico convicto, era uma providência divina, era o próprio Espírito Santo em ação.

Erika caiu de joelhos, colocou a mão no rosto e começou a chorar. Todos os agentes olharam para Coronel, que estava prestes a entrar no carro quando voltou, e segurou Erika pelos ombros, erguendo sua cabeça depois. Foi aí que ele completou a frase que ela havia começado:

“Brigitte. Esse era o nome da minha irmã mais velha. Significa algo pra você?”.

Erika Lakatos entrou na Interpol com a ajuda do Coronel Briegel. Mais tarde conheceu Arch e teve uma história com ele também, já que faziam parte da mesma seção. Foi inclusive nessa história que ela criou o codinome que acompanharia por toda sua vida dentro da Inteligência: Sara.

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