segunda-feira, 20 de julho de 2015

Doppelgänger - #88 - Um toque, um beijo.

Qualquer pessoa poderia ter aparecido naquele momento. Menos o Ar. Justo ele.

"O que você tá fazendo aqui?", perguntou Victoire, apontando a pistola para ele.

"Vou ser sincero que até mesmo eu estou surpreso em te ver aqui, Vicky", Ar tentava ao máximo se assimilar ao Al, usando a paixão de Victoire como ponto fraco dela, "Mas quando Tsai, ao abaixar pra pegar os documentos apertou o botão de pânico, e o VOID me indicou que os arquivos do Jack Doe foram roubados, vi que o meu irmão mais velho tinha pensado num plano engenhoso - se não fosse por um motivo - que para o azar dele eu estava justamente nesse prédio em uma reunião", disse Ar.

Agora mais essa! Isso parece brincadeira... Tanto lugar no mundo pra esse cara estar e ele foi aparecer justo aqui? Preciso dar um jeito de sair daqui e ajudar a Victoire... Mas como? Eu não sei nem usar armas, e tenho nada aqui que possa usar... Exceto isso, pensou Neige, olhando pro seu laptop. Pelo menos de algumas coisas do prédio ele tinha controle.

"Não aponte isso pra mim se você não tem a intenção de atirar", disse Ar, se aproximando lentamente de Victoire.

"Não se aproxime!!", gritou Victoire.

Ar ignorou o pedido dela, e continuou avançando passo-a-passo.

"Você não vai atirar em mim. Você só tem idade, e não tem um pingo de maturidade. Fica sonhando com amor de uma pessoa que nunca vai olhar pra você. É estúpida como qualquer menininha imbecil, com essa de 'eu tô bem sozinha', mas nunca quis estar sozinha. Não nasceu pra ser sozinha. Tem vontade, mas é a pessoa que mais se auto-censura. E acha mesmo que pode apontar a arma pra mim me ameaçando atirar? Aceite a si mesma, Victoire. Abaixe essa arma", disse Ar.

Nessa hora Victoire viu como é frágil o coração de uma mulher apaixonada. Seus olhos lacrimejaram ao ouvir de novo a verdade que tanto a machucava. Ao mesmo tempo mantinha aquela esperança vazia, e viu o peso do auto-engano que praticava. Todos a alertavam disso, mas ele nunca enfrentou. E estava ouvindo justo do cara que era idêntico fisicamente à pessoa que ela amava. Aquilo doía em dobro, como se fosse o próprio Ar falando.

Em lágrimas, baixou a cabeça e olhou pro chão. Seus braços foram descendo, e ela inevitavelmente baixou a arma.

"Boa garota", disse Ar, deixando Victoire em pé lá, em prantos, enquanto o vilão ia em direção de Tsai.

"Bom, senhora Jane Doe, acho que temos a chance agora de mostrar pra nossa amiguinha aqui o alcance do VOID. O melhor guarda-costas do mundo. Aquele que acessa qualquer computador, que vê tudo, ouve tudo, e sabe tudo o que acontece e inclusive toma decisões", disse Ar.

Victoire, ainda de costas, olhando pro chão, via sua visão ficando embaçada com tantas lágrimas que jorravam dos seus olhos.

"Ora, Vicky, não seja má educada. Vire-se que vou te mostrar o que ele pode fazer. Seja minha platéia, tudo bem minha querida?", disse Ar.

Victoire, ainda desolada, virou-se para Ar.

"Voilá comment on dit en français, non?", além de tudo o cara era fluente em francês, "Preste bem atenção. Talvez o VOID pareça não estar aqui, mas ele está em todo o lugar, e me obedece, não importa onde eu esteja. E vou demonstrar usando nossa amiga chinesa aqui".

Victoire não estava entendendo. O que Ar estava tramando?

"Ok VOID, command", disse Ar, fazendo uma pause de suspense, "terminate Jane Doe", finalizou.

Segundos depois Teresa Tsai levou as mãos na cabeça. Parecia ter sido acometida com uma dor de cabeça insuportável. Victoire observava aqui sem entender nada. Como era possível? O que diabos é "VOID"? Muitas perguntas brotavam na cabeça dela, mas naquele momento o que mais a intrigava eram os gritos de dor da chinesa com as mãos na cabeça.

Ar apenas observava. E Victoire olhava de maneira incrédula.

A chinesa caiu no chão e ficava batendo sua cabeça no chão. A ação toda deve ter durado uns 30 segundos, mas parecia correr em câmera lenta. O desespero, os gritos de dor insuportável, as lágrimas e todo o ranho que corria do nariz de Teresa Tsai eram incalculáveis. Parecia até que a sala havia aquecido uns cinco graus só com a força dos gritos dela naquela cena tórrida. Terminado o meio minuto parece que ouviu-se um estralo. E ela caiu no chão.

"Eu vi num filme isso. Uma bomba cerebral. Achei genial e implantei nela pra no caso dela ser pega. Créditos do Schwartzman, meu judeu e psicopata favorito. Eliminar a pessoa e as provas juntas. E agora estamos só nós dois aqui, querida", disse Ar se aproximando de Victoire.

Ela estava simplesmente congelada. Seu coração palpitava. Sabia que deveria fazer algo, mas tinha que ser justo ele? Porque ele tinha que parecer tanto com o Al? Até mesmo aquele cheiro, igual ao Al, que ela gostava tanto. Queria que aquilo tudo fosse um sonho, que ele se revelasse o Al, e perguntasse se queria fugir com ele pra longe. Não precisava de dinheiro, nem de nada. Victoire era uma menina sonhadora, mas a paixão doentia e cega estava virando um pesadelo na sua vida. Amar um homem que jamais a amaria. Dizer que estava se sentindo bem sozinha, e ao mesmo tempo sonhar com amores impossíveis. Uma vida na prática do auto-engano.

E aí Ar se aproximou. A abraçou, e a beijou. E Victoire retribuiu o beijo. Ela não via Ar, ela via Al. Envolta por aquele sabor, os lábios, a pegada, ela queria se entregar para Ar assim como se entregava para Al, que transava com ela quando ela bem queria. Passar uma noite juntos. Fugir da realidade que tanto a atormentava. Fugir dos problemas. Apenas... Fugir.

Afinal era isso que ela tinha feito na vida inteira dela.

"Victoire!! Victoire!!", uma voz no ponto eletrônico a chamando. Parecia que era uma pessoa querendo puxá-la dessa fuga. E como um cavaleiro que aparece para salvar a donzela, Neige apareceu. Todo maltrapilho, sem fôlego, sujo e cheio de graxa.

E como um blecaute as luzes se apagaram. Os dois se assustaram com o barulho, mas ainda tinha luz vindo das janelas. Neige entrou pela porta e puxou Victoire, que deixou sua arma cair na frente de Ar.

"Vamos, Victoire, temos que fugir daqui! Vamos logo!", gritava Neige.

Ar pegou a arma e apontou para eles. Dois tiros saíram, mas ele errou, pegaram na parede. E isso assustou Neige ainda mais que acelerou ainda mais o passo, puxando Victoire que estava toda maquiada, de salto alto e saia se rasgando, correndo sabe lá deus como.

Ar ainda tentou correr até a porta mas já era tarde. Eles já tinham desaparecido nos corredores do andar.

Neige foi até um dos elevadores, que estava aberto, e com seu laptop nas mãos digitou alguns comandos, e estabeleceu a energia só para o elevador. É claro que o blecaute era obra dele, e eles tinham poucos segundos até a força se restabelecer. O elevador desceu em direção ao subsolo. Ainda no elevador, os dois sem ar depois de tanto correr se olharam. Victoire estava com os olhos vermelhos de tanto chorar.

"O que raios aconteceu lá? Porque você tá chorando?", disse Neige, sem entender direito o que estava acontecendo.

Victoire se virou e viu o quão frágil era. Especialmente no coração.

"Eu estou chorando porque... Porque eu sou uma idiota e só sei fugir dos meus problemas", disse Victoire.

Neige nessa hora viu que embora fosse ela quem conseguisse protegê-lo 90% do tempo, talvez essa seria a hora dele mostrar alguma compaixão com sua colega.

"Escuta, Victoire... Pessoas superam paixões. Você é uma grande mulher, sortudo é o homem que você escolheria pra ficar junto! Você é bonita, independente, inteligente e muito gente boa. Você tem todas as qualidades pra fazer qualquer homem feliz, mas você fica vivendo nessa vida de que só existe o Al e não viu que a fila andou. Raramente é o primeiro namorado da pessoa o único namorado pro resto da vida. Insistir em tentar reviver algo que já morreu só vai te trazer sofrimento e perder possibilidades uma atrás da outra. Só você é a responsável pela sua felicidade...", disse Neige.

Ele não tinha um lenço descartável, e por ter ficado disfarçado de funcionário da manutenção e depois de ter corrido pra cima e pra baixo pra salvar Victoire ele estava todo sujo de graxa e suado. Nada romântico. Mas ainda assim Neige improvisou: pegou então no braço de Victoire e usou a própria mão dela, limpa, pra limpar uma lágrima dela que caía do seu rosto.

"Ser feliz só depende de você. Chega de ficar correndo atrás de ex-namorados. Existe um mundo inteiro de possibilidades te esperando. Não pense que está dando uma chance pra outros caras. Pense que está dando uma chance pra si mesma", concluiu Neige.

As lágrimas de Victoire cessaram.

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