quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Doppelgänger - #127 - O amor venceu.

“É, é isso, eles foram”, disse Neige, sentando-se no chão se apoiando nos joelhos, ao lado de Victoire, que estava sentada também encostada na parede. Na frente deles estava Olivia Carrion, inconsciente.

“Sim. Pois é”, disse Victoire.

Silêncio.

“Você é bem forte. Você ficou toda machucada com os golpes que recebeu, ainda assim agiu como se nada tivesse acontecido. Sabe, isso é algo...”, disse Neige, interrompido por Victoire.

“...Paradoxal? Uma mulher forte fisicamente, mas que por dentro é sensível e frágil como um cristal?”, disse Victoire, completando.

“Não exatamente. Infelizmente essas coisas do coração ninguém tem pleno controle. Por um tempo eu acabei agindo desse jeito, respondendo a você a mesma coisa que todos provavelmente já haviam te dito. Mas pensando bem...”, Neige virou o rosto e olhou nos olhos de Victoire, “...Superar esse sentimento por si mesma é algo que só você pode fazê-lo, Victoire. Especialmente quando estamos apaixonados, o mundo inteiro pode falar o contrário, mas nunca uma pessoa apaixonada o suficiente dará ouvidos. É sempre assim que funciona, né?”.

“É. Parece que sim”, assentiu Victoire.

Silêncio.

“Olha, Victoire”, disse Neige. Suas mãos tremiam. “Eu tenho que te falar uma coisa. Provavelmente essa seria a pior situação que eu poderia falar, mas eu acabei de entrar nesse mundo, eu era só um analista da NSA até mês passado, e agora tô enfiado nisso até meu pescoço e sei que podemos acabar morrendo na próxima hora ou daqui a alguns dias, mas eu preciso falar”.

“Falar o quê?”, disse Victoire, expressando dúvida no rosto.

“Eu sei que você é completamente apaixonada pelo Al. E vou ser sincero contigo. Naquela hora que o Ar disfarçado de Al entrou no apartamento em que estava com você eu sabia que não era o Al. Primeiro pela aparência física, era inconfundível. E o segundo, era que isso tudo era uma armadilha que o Al fez, usando você pra atrair e cair na armadilha do Ar. Mas o que ele precisava era que você o levasse para algum local que ele saberia que ele poderia te levar. Usar você como isca. Infelizmente fizemos isso, e eu sinto muito por sido um cúmplice disse tudo”, disse Neige.

Silêncio novamente. Victoire estava boquiaberta, sem acreditar.

“Você? Porque você fez isso comigo?”, disse Victoire.

“Victoire, infelizmente era nossa única opção. Isso foi muito errado de nossa parte, e eu não estou aqui pra me explicar. Eu tô aqui pra te dizer a verdade...”

“...Você e o Al me usaram! Sabiam disso o tempo todo!”.

“Sim, nós sabíamos! Mas olha... Todos diziam que isso iria acontecer cedo ou tarde. Não estou dizendo que você estava errada, você não estava. Nós sempre dizíamos que você deveria superar isso, e enfim deixar esse sentimento pelo Al de lado, sua única fraqueza e pense bem... Não existe momento melhor que esse”, disse Neige.

Silêncio.

“Eu não tiro seu direito de nos culpar. Mas sendo um pouco mais rígido com você, não sei dizer se o Al é um cara canalha”, disse Neige.

“E você ainda o defende?”, disse Victoire.

“Não, Victoire. O Al tem problemas SIM com mulheres. A esposa dele morreu nos braços dele há seis anos atrás, e só deus sabe se um dia alguém vai descongelar o coração dele para que ele volte a amar alguém. Mas culpar apenas o Al é idiotice. Pra cada homem canalha no mundo, existe outra mulher iludida atrás. E vice-versa também, claro, existe muita mulher canalha. Talvez tanto quanto homens. O Al talvez nunca mude. Mas você, você sim pode mudar. E tudo o que você tem que fazer é isso. Não se submeter a ele”, disse Neige.

“Papinho estranho esse seu. Tá querendo ferrar o seu amigo?”, disse Victoire.

“Não. O Al sabe se virar muito bem. Não falta mulher pra ele comer. Quem me preocupa mesmo...”, disse Neige, olhando pros olhos dela, “...É você”.

Silêncio.

“Se viver uma vida comum já não nos dá garantia de estar vivo amanhã, viver como alguém da Inteligência é como estar em uma roleta russa a cada dia. Alguém vai disparar e estourar os nossos miolos no dia. Só não sabemos quem, nem quando”, disse Neige.

“De novo esse papo... Aonde você quer chegar?”, disse Victoire.

“Talvez não seja o momento correto pra dizer isso. Mas tem algo dentro de mim que há tempos quero dizer. Acho que foi toda essa convivência juntos, nossa amizade, o fato de cada um sempre proteger o outro. Bom, sendo bem direto... Eu gosto de você. Eu estou apaixonado por você”, disse Neige. Suas mãos não tremiam mais.

Silêncio.

“Eu sinto muito por nutrir isso, Victoire. Sei que você gosta do Al. E não tenho como competir espaço com ele no seu coração. E com certeza existem centenas de homens aí que provavelmente até devem ter te falado isso nesse meio tempo, e que provavelmente você os dispensou porque é apaixonada pelo Al. Mas Victoire, eu não acho que exista melhor remédio pra uma paixão do passado do que uma paixão nova. E meu medo era, sei lá, se esse prédio for pelos ares junto com a cidade inteira, e um de nós morresse sem que eu dissesse isso, do que valeria isso tudo? Será que você não pode dar uma chance e esquecer o cara que nunca realmente te amou e dar uma chance ao novo?”, disse Neige.

Victoire permanecia muda.

“Não importa se vai dar certo ou não. Se der, ótimo! Se não der, você vai ver que você de alguma forma superou, e que talvez seja bom no tempo que durar. Seja comigo, ou seja com quem for, você tem que parar de viver dessa forma doentia na sombra de alguém. Com um relacionamento sadio. Com uma chance de você ser feliz. O Al já deixou claro que nunca vai conseguir te amar. Falando sério, o que você tem a perder?”, disse Neige.

Silêncio.

“Não dá pra viver no passado, ou achando que o seu sentimento vai transformar o Fera em Príncipe Encantado. Isso não existe. Sentimentos não mudam as pessoas. O que muda é você arregaçar as mangas e fazer o seu futuro. Deixar de lado o passado e tentar algo. Não precisa ser exatamente comigo se não quiser. O que não pode é você continuar sofrendo assim, se a única pessoa que te impede de ser feliz é você mesma. E você não é feliz com esse sentimento pelo Al”, concluiu Neige.

E o silêncio perdurou por mais um tempo. Victoire, que tinha seu rosto virado pra Neige encostou e voltou a olhar pra frente. Neige viu aquilo e também encostou e fez a mesma coisa. Eles não falaram nada.

Neige sentiu algo em cima da sua mão, que estava solta ali no chão. Era algo frio. Mas logo começou a aquecer. Era a mão de Victoire, que ela calmamente a colocou em cima da dele, apertando com ternura.

Os olhos de Victoire estavam cheios de lágrimas. Ainda assim ela não se virou. Talvez em todos os momentos em que ela ouvira críticas sobre esse sentimento que ela nutria pelo Al ninguém nunca tinha feito isso que Neige tinha feito. Mostrado uma luz. Uma esperança. Uma opção pra superar.

O amor havia vencido.

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