segunda-feira, 14 de março de 2016

Doppelgänger - #135 - Não há revolução sem banho de sangue.

Ar estava com Al na sua mira. Os dutos de ar condicionado estavam ao máximo tentando aspirar aquela fumaça dali. Mas com certeza não durariam muito tempo. Al estava na frente de seu sobrinho. Os dois transpiravam. Aquele local parecia uma fornalha.

“Ar, espera. Acho que você ao menos poderia explicar o que faria depois que sua missão estivesse pronta”, disse Al.

“Cala essa boca! Com o VOID destruído várias etapas foram interrompidas. Pelo menos até eu recuperar o investimento e criar um novo continuar da onde parei!”, disse Ar.

Ambos se olhavam andando em círculos. Cada um observando milimetricamente o movimento do outro. Al não tinha nenhuma arma ali. E mesmo num combate corpo-a-corpo seria complicado, pois não apenas Al não era tão bom em combate, assim como Ar também tinha uma clara vantagem: juventude.

“Você não iria querer destruição pela destruição. Não faz o seu estilo. Devia ter algo que você iria colocar em ação depois que tudo estivesse caminhando”, disse Al.

“Hahaha!”, Ar deu uma gargalhada forçada, “E o mais irônico é que justamente quem deveria ser o sucessor desse sonho, é justamente quem quer me parar!”.

Ar deu mais uma gargalhada. Al avançou pra cima dele, puxando o seu braço, e aplicando um golpe, derrubando a arma da sua mão, chutando-a para longe. Ainda com o braço de Ar em mãos, Al deu uma cotovelada potente no rosto do seu inimigo, que recuou alguns passos, pra se recuperar.

“Ora, seu! Porque acha que eu vou temer um velhote como você!”, disse Ar, avançando com uma cabeçada pra cima de Al, que acabou sendo pego e jogado violentamente contra um dos imensos e pesados servidores do VOID, que queimavam do outro lado.

O golpe doeu mais do que Al pensava.

“Eu parar isso? Eu nem sabia de nada, seu louco”, disse Al, ainda no chão, se recuperando.

Ar desferiu um chute bem no peitoral de Al. Este gritou de dor, no chão.

“O sonho do seu irmão mais velho!”, disse Ar, sem jamais se referir a Arch como seu pai, “Ou você era muito criança pra saber o que ele desejava fazer?”.

Ar desferiu mais um chute, dessa vez bem no queixo. Al bateu a nuca no VOID com o impacto. Mas ainda estava consciente, por mais dolorido e forte que havia sido a pancada.

“Meu irmão...”, disse Al, cuspindo sangue, “...Mesmo que tivesse um sonho, jamais gostaria de ver inocentes sofrendo”.

“Cala essa boca, você não sabe de nada!”, disse Ar, agarrando Al pelo colarinho e puxando. Al ainda mal havia se recuperado. Ar o deixou num canto e virou de costas, indo em direção da arma.

Al estava fraco. Seu corpo envelhecido – por mais que fosse por causa da doença – mostrava que se erguer depois de uns dois ou três golpes era uma tarefa quase impossível. O corpo inteiro doía, e pedia pra descansar. Mesmo que fosse pra descansar eternamente ali, no meio daquelas chamas.

Ar veio com a arma, apontando pra Al.

“Consegue ainda me ouvir, seu velho?”, disse Ar, apontando a arma. Al, caído no chão, apenas virou o olhar em direção pra ele, confirmando.

“Seu irmão tinha um sonho, sim. Você sabe muito bem. Arch sabia muito bem que todos os agentes eram apenas ferramentas do governo, e pra isso ele havia feito um plano pra trazer liberdade pra eles”, iniciou Ar.

Al apenas observava aquele cano preto da arma apontada pra sua testa. Estava tentando obter alguma força pra se erguer.

“Mas muitas pessoas tinham o seu irmão como um paladino da justiça. E pessoas seguiam ele. Pessoas foram inspiradas no seu melhor graças a atos bondosos que ele demonstrava com todos. E acreditavam nos ideais dele. De um mundo livre. Um mundo que eu quero trazer hoje, completando os planos dele. Pra isso criei o Vanitas e o Legatus. E nosso exército pessoal, os Filhos de Arch”, disse Ar.

“Entendi”, disse Al, se apoiando com os braços no chão tentando se erguer, “Você pegou pessoas que tinham meu irmão como inspiração e os colocou na mesma altura que você. Como o único filho de sangue dele”.

“Exato, tornar o Zeitgeist não apenas real, mas também aprimora-lo”, disse Ar.

“Hã? Você está se inspirando em um movimento real, de estudiosos, que querem de alguma forma fazer um mundo melhor, pra justificar sua guerra contra o mundo?”, disse Al, furioso.

“Não existe revolução sem banho de sangue”, disse Ar.

Al colocou o joelho e apoiou nele. Estava enfim conseguindo se erguer.

“Um mundo perfeito, onde todas as pessoas serão livres, não haveria mais comércio, não haveria competição, e todos os seres humanos viveram fazendo pleno uso da tecnologia, da genialidade inata de cada um, onde todos se ajudassem. Pensa bem, meu irmão! A crise que sofremos hoje não é uma crise econômica, nem de religiões, países ou interesses. É uma crise de CONSCIÊNCIA!”, disse Ar, enfatizando a ultima palavra.

Al ainda arfava. Conseguir se apoiar no joelho tinha sido uma coisa e tanto pra quem mal conseguia se mexer, jogado no chão.

“Por isso estou fazendo tudo isso! Não se pode construir um novo castelo se não demolir o antigo! Preciso criar um caos mundial, para então ir colocando a ideologia de um novo tempo aos poucos, e as pessoas veriam que tudo o que eu desejo é apenas o benefício da humanidade! Era o que seu irmão queria! Um mundo livre, onde não estivéssemos presos a nada, que todos pudessem ser quem sempre quiseram ser. Um mundo ideal. Um mundo que eu tornaria real, se não fosse você se meter no meu caminho, seu idiota!!”, gritou Ar.

Al conseguiu mais um pouco de força. Estava se erguendo, mas a mão não saía do seu tronco. Estava doendo muito. Parecia que tudo dentro dele havia sido esmigalhado pelos golpes de Ar.

“É! Você diz que eu sou o vilão, Al. Mas na verdade, o vilão aqui é você. Esse mundo foi idealizado pelo seu irmão! E você, tendo o sangue dele, assim como eu, está lutando pra que esse sonho dele não se realize. Mesmo que seja postumamente!! Eu vou pegar toda essa ideologia do Zeitgeist, todo esse mundo perfeito, e irei aprimorar! Arquitetarei uma nova sociedade, um novo paradigma. Pessoas serão felizes. O mundo será igualitário, justo e todos terão uma vida digna. Todos os que acreditavam nesse mundo que seu irmão sempre idealizou. Pessoas essas que morreram acreditando no que o Arch pensava que um mundo ideal deveria ser!”, disse Ar.

Al, com uma mão na altura do estômago, foi caminhando, a passos tortos em direção de Ar, que ainda com a arma em punho apenas observava os passos lentos e fracos do seu tio. O rosto de Al estava virado, e seus olhos com as sobrancelhas cerradas, fitando Ar. Os dois estavam mudos. Apenas o som das chamas ao fundo que dava a trilha sonora para a cena.

Enfim, depois de uns cinco ou seis passos chegou até onde estava a arma de Ar. Calmamente colocou sua mão sob a arma, e Al gentilmente abaixou o braço de Ar que segurava a arma. Ele não se opôs.

Al deu um sorriso tímido olhando pra Ar.

“O que é isso? Vai dizer que você entendeu e vai me ajudar?”, disse Ar, desconfiado.

Al se dizer nada fechou o punho de deu um soco com todas suas forças no rosto de Ar.

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