segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Amber #7 - A surpresa (ou a falta de).

“Você é o tal ‘Hollandaise’, certo?”, disse Briegel, com as mãos pra cima. Hollandaise se manteve em silêncio, como se confirmasse que era o próprio, “Certo. Me escuta, tenho uma proposta pra você. Podemos trabalhar juntos”.

“Eu não vou soltar esse soldado aqui não, cara!”, gritou Hollandaise, ainda segurando Goldberg como refém, “Vocês, nazistas, devem morrer!”.

Goldberg incrivelmente mantinha uma frieza absurda, mesmo com sua vida por um triz na mão de alguém claramente sem muito controle de si.

“Não tem problema, pode ficar com ele aí. Escuta, sabemos quem você é, e sabemos o que você andou escondendo aqui. Já temos todas as provas pra te prender, ou mesmo te executar por traição ao Führer. Mas ninguém aqui quer isso, certo? Você quer a sua liberdade, certo?”, disse Briegel, se aproximando calmamente de Hollandaise, com as mãos pra cima.

Briegel estava a dois metros dele, tão perto que praticamente tampava o campo de visão dele das outras pessoas. Fazia parte do plano de Briegel também, uma diretriz para uma situação como essa que ele havia treinado com Schultz. Mas Hollandaise transpirava de nervosismo. Seus dentes estavam cerrados e seus olhos cada vez mais arregalados. Mas Briegel estava calmo, falando que se aquilo fosse uma conversa comum, sem maiores suspeitas. Hollandaise ao ouvir a proposta de Briegel, balançou positivamente a cabeça. Ele queria escapar da morte, com certeza.

“Ótimo. Bom, não viemos atrás de você, Hollandaise. Sabemos que você é peixe pequeno. Nós estamos atrás do seu chefe, Sarkin. E descobrimos esse imenso armamento que você estava guardando aqui nesse depósito, é um dos objetivos que viemos atrás. Se você colaborar com a gente, nem eu, nem ninguém aqui vai te denunciar pras autoridades. Você vai poder fugir pra onde você quiser. Será que você pode responder algumas perguntas?”, disse Briegel.

“Tá, vai! Fala logo antes que eu estoure os miolos desse aqui!”, disse Hollandaise, apertando ainda mais a arma acima da orelha de Goldberg.

“Sem problemas. O que você sabe sobre essas armas? Como o Sarkin conseguiu isso tudo?”, perguntou Briegel.

“Isso aqui foi o que ofereceram pro monsieur Sarkin depois do que ele conseguiu. Ele conseguiu projetos bélicos de outros países. Grande parte dessas armas eram parte do pagamento que haviam oferecido a ele”, disse Hollandaise.

“Projetos bélicos? Você tá dizendo que Sarkin fez espionagem industrial e conseguiu projetos de pistolas, rifles, escopetas, todos de outras empresas de armas de outros países?”, perguntou Briegel.

“Sim. O monsieur Sarkin entregou tudo para empresas bélicas da Alemanha criarem armas. Só que claro, isso foi feito nas escuras, sem que ninguém da mídia soubesse, sem que essa notícia se espalhasse e muito menos que outros países soubessem, você sabe bem como estão as coisas por aqui agora”, disse Hollandaise.

“Sim. Sei muito bem”, disse Briegel.

A Alemanha, depois que perdeu a Primeira Guerra Mundial, foi obrigada a assinar o controverso Tratado de Versalhes. Isso basicamente afundou a Alemanha em uma dívida imensa, causando hiper-inflação, perda de diversas colônias e territórios conquistados, mas além disso deixava a Alemanha como um país com sérias restrições bélicas. Não se poderia produzir armas, ou formar tropas de exército, ou qualquer coisa do gênero. Um dos objetivos deste tratado era impedir a Alemanha de se tornar um país belicamente forte de novo, como aconteceu na Primeira Guerra Mundial.

Porém, a partir do momento que Adolf Hitler chegou ao poder, a Alemanha Nazista começou a quebrar diversas dessas cláusulas. Por dois anos o exército alemão de expandiu em segredo, até que em 1935 Hitler resolveu levar ao público o que estava acontecendo. E isso obviamente quebrava o Tratado de Versalhes. Já naquele ano o mundo descobriu que a Alemanha Nazista já tinha por volta de dois mil e quinhentos aviões de batalha da Luftwaffe (força aérea), e uma força total de trezentos mil homens na Wehrmacht (forças armadas) totais, juntando exército, marinha e aeronáutica. O resto da Europa, incluindo o Reino Unido, subestimavam o que a Alemanha de Hitler era capaz de fazer. Mas era tarde.

“Mas é claro que o governo não sabe nada disso”, disse Hollandaise.

“Hã? Impossível. A Alemanha tem se armado cada vez mais. Pra que isso tudo então?”, perguntou Briegel.

“Isso é apenas um dos depósitos. Um dos menores na verdade!”, disse Hollandaise. Briegel ficou surpreso, mas queria continuar ouvindo, “As indústrias de armas estavam obedecendo as ordens de uma outra pessoa”.

“E você tem ideia? Já viu essa pessoa?”, perguntou Briegel.

“Uma vez só. Vi ele conversando com o monsieur Sarkin. Ele não parecia ser europeu. Acho que o nome dele era ‘Rains’, ‘Reins’ ou ‘Raines’”, não sei bem. Soava algo assim”, disse Hollandaise.

“Certo. Realmente você foi bem útil. Mas antes de você ir, queria que você me contasse o paradeiro de duas pessoas”, disse Briegel, tirando um papel do bolso interno do seu paletó. Nesse papel havia um clipe, com duas fotos anexadas, “Já viu esses rostos em algum lugar? Estamos atrás dessas pessoas. São engenheiros militares que estão desaparecidos. Sabe de algo que possa nos ajudar?”.

Hollandaise olhou e balançou a cabeça, negativamente.

“Não, nada. Muitos assuntos a gente não fica sabendo. Muitos assuntos é o monsieur Sarkin que resolve, acho que isso apenas ele pode responder. Isso é, se ele souber de algo”, disse Hollandaise.

Briegel guardou as fotos no bolso, e calmamente se voltou pra Hollandaise. Briegel se aproximou ainda mais dele. Agora mal tinha um metro de distância separando os dois, e Hollandaise que antes mal conseguia ver alguém atrás de Briegel, agora não conseguia ver mais nada além do alemão.

“Ok, Hollandaise, acho que podemos resolver de uma maneira boa pra mim e pra você. E sem machucar ninguém. Não vou te entregar pras autoridades, e você também infelizmente não vai poder voltar a trabalhar pro Sarkin. O que te proponho é uma nova vida. Você vai poder fugir, vai estar na sua própria conta. Pode ir pra algum país longe daqui e começar uma nova vida, e torcer pra Sarkin não te pegar. Vou inventar uma estória de que você reagiu e morreu, e ninguém do governo vai atrás de você. Estou te dando uma chance de ouro. Você é peixe pequeno nessa coisa toda, não tenho motivos pra te deter. Agora tira a arma da cabeça do nosso companheiro, vire-se e saia sem olhar pra trás e nunca mais pise na Alemanha. Pode ser?”, propôs Briegel.

“O quê? E começar uma vida do zero? Nem fudendo!”, disse Hollandaise, gritando, “Você vai me dar uma grana preta, um carro, e tudo o que eu quiser. Caso contrário, vou estourar os miolos do seu coleguinha aqui!”.

Briegel balançou a cabeça negativamente olhando pra baixo, fazendo “tsc, tsc, tsc”, com a boca. Virou de lado e Hollandaise olhou pras pessoas que estavam atrás de Briegel. A mulher negra, o jovem alemão fardado ainda estavam lá. Mas faltava alguém.

“Eu disse que eu te dava uma escolha. Ou você escolhe aproveitar que eu te dei uma chance de fugir e começar a sua vida do zero, ou…”, disse Briegel.

“...Ou você pode escolher perder sua vida aqui”, disse Schultz, que havia saído pela saída dos fundos enquanto Briegel tampava o campo de visão de Hollandaise e dado a volta no quarteirão e rendido Hollandaise, engatilhando sua arma nas costas dele.

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16h20

“Himmler? Aqui é Briegel”, disse Briegel, ligando pra Himmler em Berlim do hotel em Munique.

“Diga. Notícias sobre Sarkin?”, disse Himmler.

“Sim. Sundermann e Goldberg haviam encontrado um capanga de Sarkin, e descobrimos um imenso depósito de armas nos fundos de uma loja de sapatos que servia de fachada. Estavam produzindo armas sem que o governo soubesse e guardando-as lá. Ele disse também que existem outros depósitos espalhados aqui por Munique. Existem armas traficadas suficiente para o exército inteiro - ou até bem mais. Isso pode acabar piorando as coisas pro Hitler se a mídia internacional souber disso. Quebrar o Tratado de Versalhes assim pode levar a uma guerra sem precedentes! É melhor que todas essas armas sejam destruídas”, disse Briegel.

“Isso é o de menos”, disse Himmler, como se não desse importância a isso, “E quanto aos engenheiros desaparecidos? Eles estão com Sarkin?”

Briegel ficou em silêncio pensando consigo mesmo. Por um momento se questionou se Himmler havia ouvido que tanto armamento era contra o Tratado de Versalhes, quanto que isso poderia manchar muito a imagem da Alemanha internacionalmente. Poderia causar até uma guerra, provocando os países do mundo inteiro. Mas pra Himmler, isso era informação descartável.

“Err…”, disse Briegel, tentando se concentrar, “Não. Esse capanga não sabia de nada. Mas amanhã cedo iremos para o local onde Sarkin vive, e iremos interrogá-lo pra arrancar o que ele sabe”.

“Certo. Me mantenha informado, Briegel. Até mais”, desligou Himmler.

“E aí? O que o tampinha disse?”, perguntou Schultz.

“Pois é, nem eu entendi. Eu disse pra ele sobre as armas traficadas, e ele simplesmente disse nada demais!”, disse Briegel, atônico.

“Como assim, papai?”, perguntou Alice, apreensiva.

“Para ele expressar essa indiferença toda só me leva a concluir uma coisa: Himmler sabia disso. E talvez ele esteja por detrás disso tudo também!”, concluiu Briegel.

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