quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Amber #12 - A garota ou a missão?

22 de abril de 1937
06h45

Abner Sarkin foi caminhando cautelosamente pelo trem, sempre olhando para trás, se assegurando que não havia ninguém o seguindo. Passou sem problemas por um vagão-restaurante, onde as pessoas faziam as refeições e cruzou a cozinha, passando pelos cozinheiros que ali estavam, pra alcançar o próximo vagão. O vagão que Sarkin havia escolhido pra manter seu armamento contrabandeado era um dos vagões do meio da composição, e por fora era muito bem disfarçado como um vagão dormitório comum, com janelas e persianas fechadas. Mas dentro não haviam divisórias, nem mesmo camas. Apenas caixas e mais caixas de armamento alemão sendo levados pelo trem cujo destino final oficial seria a Espanha.

Muito bem. Só falta passar pelo último bloqueio e já estaremos na Espanha, pensou Sarkin, enquanto dava uma última checada nas caixas.

Enquanto olhava uma das caixas, Sarkin levou um susto com a pessoa que se ergueu atrás dela.

“Mãos para o alto, Sarkin”, disse Schultz, “Fim da linha pra você”.

Poucos segundos depois disso o trem começou a diminuir a velocidade, já perto da fronteira. Sarkin e Schultz se olharam.

“Onde está Briegel?”, brincou Sarkin, “Por acaso ele estava muito abalado emocionalmente por conta da filha e por isso mandou o amigo fazer o trabalho sujo?”.

Schultz engatilhou sua pistola.

“Corta essa, Sarkin. O coronel é meu amigo, e eu faria qualquer coisa pra ajudar ele sem hesitar. E mesmo se a missão fosse dar cabo de você...”, disse Schultz, mirando em Sarkin, “...Eu sujaria minhas mãos com todo o prazer”.

Sarkin passou a mão na sua cabeça, jogando seu cabelo pra trás, olhou pra cima e deu um risinho sarcástico.

“Schultz, Schultz, Schultz. Você não sabe com quem se meteu. Sabe o porquê do trem ter parado aqui, certo? Dentro de alguns segundos entrarão por uma daquelas portas uma dezena de soldados ingleses e franceses e vão prender todos aqui. Vai ser difícil explicar que não somos alemães levando um carregamento de contrabando pra Espanha!”, disse Sarkin.

“Podemos usar isso pra agilizar o trabalho e chegar no ponto que precisamos então. Pouco me importam essas armas, você pede enfiar elas onde quiser. Diga onde está Alice Briegel agora”, disse Schultz, calmo.

“Você quer mesmo saber, não é mesmo?”, disse Sarkin, “Pois bem. Sabe, eu tenho uma tática boa pra guardar segredos. Todos nós temos segredos, não é mesmo? Eu tenho, você tem, Briegel tem também. Muitas vezes confiamos nossos segredos em apenas uma única pessoa, e aí um belo dia podemos acabar brigando com essa pessoa, nos tornando distantes dessa pessoa, ou algo do gênero. E aí, bum!”, Sarkin fez um sinal com as mãos, como se fosse uma explosão, “Todos os segredos que havíamos compartilhado com aquela pessoa vão pros ares”.

“Responde logo, caso contrário você não vai ter boca pra falar mais nada”, ameaçou Schultz, que ouvia o som de passos atrás dele, provavelmente eram soldados que protegiam a fronteira.

“Eu vou responder, eu prometo”, disse Sarkin, “Eu gosto de compartilhar cada pequeno segredo com uma pessoa diferente. Uma pessoa sabe, por exemplo, que tenho intolerância à lactose. Outra pessoa sabe que meu prato favorito é costela de porco. Tudo bem, eu sou judeu, mais foda-se, nenhum rabino paga minhas contas, e eu como o que eu quiser. E outra pessoa sabe que minha cicatriz no braço esquerdo foi de uma brincadeira besta com facas na infância. E aí chegamos enfim à resposta da sua pergunta, meu caro Schultz!”.

Schultz tentava se mostrar impaciente pra ver se conseguia acelerar o processo, mas ele tinha um autocontrole invejável, e ainda se sentia na vantagem contra Sarkin. Permaneceu com a arma apontada pra Sarkin, calado, apenas atento a cada movimento dele.

“E se cada trem fosse uma pessoa com um segredo meu. Acha mesmo que eu confiaria todas minhas coisas mais íntimas em apenas uma pessoa? Ou no caso, em um trem?”, disse Sarkin. Nessa hora a porta atrás de Schultz foi aberta com um chute. Do outro lado estava Briegel e mais uma dezena de soldados britânicos, “Sua querida Alice já deve ter chegado na Espanha com o trem que saiu antes de você chegar na estação indo pra Espanha com outra carga de armamentos traficados!”.

“Seu grande... Idiota!”, disse Schultz, avançando em direção a Sarkin e dando uma coronhada na cabeça dele, abrindo uma ferida na cabeça do inimigo.

Mas Briegel, que ouvia tudo, saiu correndo em direção de Sarkin e o pegou no chão pelo colarinho, desesperado, e começou a gritar:

“Minha filha!! O que você fez com a minha filha!! Fala logo onde ela está!!”.

“Você vai ter que fazer uma escolha, Briegel. Esse trem estava com destino a Barcelona, onde está um dos engenheiros alemães que eu sequestrei. Mas o trem que está Alice foi pro outro lado, foi pro norte, pra bela cidade de Guernica. O que você escolher, Briegel? A garota, ou a missão?”, disse Sarkin.

Briegel começou então a gritar e socar Sarkin cada vez mais forte. Mas Sarkin, carregado no sarcasmo, apenas dava risada depois de cada golpe que recebia. Schultz permanecia em pé, olhando aquilo, sem saber como reagir.

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O plano de Briegel e Schultz era esperar no vagão onde estava o armamento até Sarkin aparecer. Schultz havia descoberto qual era o vagão graças à Josephine, a garota com quem ele havia dormido, na noite anterior. Ela era cozinheira e sabia que era sempre naquele vagão que Sarkin guardava seu contrabando.

Já Briegel, com a informação, sabia que o trem pararia na fronteira, onde estariam os soldados ingleses e franceses controlando a entrada de trens na Espanha com medo da Alemanha mandar armas para lá. Briegel se propôs a ajudar os soldados ingleses, dizendo que ele era alemão e agente da inteligência, e tinha uma clara vontade de parar os planos de Hitler a todo custo, enquanto Schultz ficou pra interrogar Sarkin, já que Briegel estava muito abalado emocionalmente para tal. Sarkin foi preso, os itens do vagão foram confiscados, e o trem minutos depois estava pronto para seguir viagem pra Barcelona.

“E aí, coronel, o que vamos fazer agora?”, perguntou Schultz, ainda fora do trem.

Briegel olhou pro bosque ao redor deles, refletindo. Era possível ver a estação que os trens faziam a bifurcação naquela direção.

“Eu vou atrás da Alice”, disse Briegel.

“O quê? Sozinho? Isso é loucura! Você vai morrer, coronel!”, gritou Sundermann.

“Preciso que vocês vão e salvem o engenheiro em Barcelona. Vão nesse trem. Eu pegarei o próximo que passar aqui em direção a Guernica. Já fiz amizade com os soldados ingleses e eles toparam me ajudar. Não estamos nos esforçando pra ajudar o Reich. Estamos lutando pra salvar vidas inocentes. Tanto a minha filha, quanto os dois engenheiros. Depois que salvarem o engenheiro, me prometam que vão correndo pra Guernica se encontrar comigo. Ninguém vai me impedir de salvar minha filha!”, disse Briegel.

“Mas, coronel, isso vai...”, disse Goldberg, que parou de falar quando Schultz colocou a mão na frente, parando-o.

“É isso mesmo que você quer, meu amigo?”, disse Schultz, olhando nos olhos de Briegel.

“Sim. Confie em mim, por favor”, disse Briegel.

Schultz puxou o ar pros seus pulmões e soltou calmamente.

“Tá certo então! Fechado!”, disse Schultz, empolgado, “Fique vivo pelo menos até chegarmos em Guernica. Senão vou cortar você em pedacinhos e dar seus pedaços pros cachorros, seu pilantra!”, brincou Schultz. Todos riram.

“Pode deixar! Vamos lá!”, disse Briegel.

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