segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Amber #18 - Se você cansasse, se você morresse... Mas você não morre.

24 de abril de 1937
14h27

Briegel havia deixado a sede da Astra Unceta & Cia com os três prisioneiros, traficantes que trabalhavam pra Abner Sarkin. Os colocou num furgão e mandou o motorista dirigir até a estação de trem mais próxima. Enquanto estava com os três homens tentava falar com eles pra achar alguma pista.

“Eu preciso da ajuda de vocês. Por isso achei que seria melhor libertar vocês. Havia mais alguém com vocês? Por favor, me dicam que sim!”, perguntou Briegel.

Um deles, o mesmo que havia falado com Briegel na prisão foi o primeiro a responder.

“Obrigado, senhor. Obrigado mesmo. Aquilo era desumano, e aprendemos nosso erro, nunca mais iremos nos envolver com atividades criminosas”, disse o prisioneiro, se desculpando, “Eu lembro sim, haviam duas mulheres, uma adulta e uma criança que haviam sido enviadas conosco”.

Roland Briegel nessa hora arregalou os olhos. Era Alice, com certeza! Não sabia quem era a criança, mas não importava, ele a salvaria também e junto teria sua filha Alice Briegel de volta!

“Minha nossa, e onde elas estão?”, perguntou Briegel, cheio de esperanças, com os olhos brilhando novamente.

O homem olhou pra baixo e balançou a cabeça.

“Eu sinto muito. Mal chegamos e fomos separados. Não disseram onde levariam as duas. Me perdoe, gostaríamos muito de ajuda-lo, mas infelizmente não sabemos como. Infelizmente isso é tudo o que sabemos”, disse o homem.

Nessa hora a caminhonete militar chegou na estação de trem. Briegel, desesperançoso apenas abriu e os três homens desceram. Cabisbaixo, Briegel deu as costas a eles e foi embora. Os três ficaram observando Briegel até perdê-lo de vista.


Eles queriam fazer algo em agradecimento aquele homem. Briegel poderia ter escolhido mata-los ali mesmo, ou devolvê-los à prisão, mas ao contrário disso os libertou e saiu de lá triste, sem esperanças. Mas os três prisioneiros queriam fazer algo para ajudá-lo de certa forma.

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26 de abril de 1937
16h02

A festa acabou, a luz apagou. O povo sumiu, a noite esfriou. Dois dias já haviam se passado. Briegel praticamente passou esse tempo todo desde que chegou sem dormir, comendo muito pouco. Aquela agonia o matava pouco a pouco a cada momento. Deitado na cama da hospedagem que havia conseguido por conta de seus contatos com militares da região, Briegel olhava o teto de madeira e a luz que atravessava as cortinas. O sol não apenas já havia raiado, como também estava prestes a se pôr. E Briegel sequer tinha forças pra sair daquela cama.

Dois dias em Guernica. Dois longos dias. As forças de Franco estavam se esforçando pra dominar a cidade, mas mal sabia Briegel que o pior ainda estava reservado. Deitado na cama sentiu um incômodo no pescoço. Era um colar com um crucifixo que ele sempre carregava, símbolo da sua fé. Pegou gentilmente com sua mão e viu o crucifixo dourado.

Nesse momento Briegel lembrou que talvez num momento sem esperança como esse a única coisa que ele poderia se apegar era em sua fé. Como aquele ouro que reluzia, mesmo naquela escuridão. Mas ele precisava botar aquela agonia pra fora. Talvez com essa ajuda espiritual ele conseguiria voltar seus pensamentos ao foco e arranjar forças de algum lugar pra continuar a busca por Alice, que Briegel sequer tinha ideia de onde estava, se estava machucada, ou mesmo morta.

Arranjando forças não se sabe de onde, foi até um telégrafo ali perto e enviou uma mensagem ao seu querido padre Alan De Clercq:

“Padre, sou eu, Briegel.

Estou em Guernica. Sarkin sequestrou Alice, e estou há dois dias desesperado em busca da minha filha. Não quero acreditar que ela esteja morta até eu encontra-la. Meu corpo está sem forças, e a única coisa que me deixa em pé é a esperança de encontrar minha filha viva. Gostaria que o senhor oferecesse preces para que tudo ocorra bem. 

Muito obrigado,
Briegel”.

O sol de Guernica castigava. Briegel, sentado na calçada e cabisbaixo depois de enviar o telegrama ao seu amigo padre, sujo e triste observava o desenho da sua sombra no chão de terra. O cansaço e a fome estavam cada vez mais fortes. Mas a falta de esperança, de encarar a realidade, e pensar que Alice provavelmente estaria morta até aquele momento dilacerava seu coração aos poucos. Briegel havia perdido sua filha e não tinha a mínima ideia de onde ela estava. Ou se ao menos estava viva. Aquela dor doía em seu peito por dentro e matava quaisquer esperanças que pairavam na sua mente.

“Senhor? Puxa, enfim te encontramos!”, disse um dos prisioneiros que ele havia libertado dias antes. Briegel ergueu seu rosto pra olhar.

“O quê?! Vocês?”, disse Briegel ao vê-los na sua frente, completamente surpreso, “Não foram embora ainda?”.

“Não, senhor. Achamos que deveríamos achar uma forma de agradecer o senhor por ter nos libertado. O que fizemos foi muito errado, mas surramos alguns soldados, e provavelmente eles virão atrás de nós, então serei rápido. Encontramos a mulher que estava conosco. A mulher que o senhor está procurando”, revelou o prisioneiro.

Na hora Briegel se ergueu, como se tivesse tirado energias só de ouvir aquilo. E logo atrás dos prisioneiros era possível ver que policiais estavam se aproximando.

“Onde estão? Pelo amor de deus, falem logo!”, pediu Briegel.

“Estão no prédio ao lado da sede da ‘Izquierda Republicana’, o partido que está contra a revolução aqui”, disse o prisioneiro, enquanto se apressava em correr, “Espero que o senhor consiga encontrar quem procura lá! Adeus e obrigado novamente por nos ajudar!”.

E os três se foram, correndo, livres e gratos por terem ajudado quem os havia ajudado. Pareciam que enfim eram homens livres (mesmo que fugindo da polícia, o que seria meio estranho). Nessa hora Briegel viu como era valioso fazer o bem sem esperar nada em troca. Aqueles três haviam ganhado a liberdade por acaso e arriscaram a mesma liberdade pra ajudar Briegel em forma de gratidão. Os soldados passaram correndo por Briegel e continuaram correndo atrás dos fugitivos. Provavelmente não os pegariam tão fácil, pois aqueles prisioneiros não apenas corriam, eles pareciam voar por estarem enfim livres e com suas consciências limpas de gratidão. Briegel se virou e pediu informações sobre onde era a sede da tal “Izquierda Republicana” e foi até lá.

Levou mais ou menos uma meia hora pra chegar lá. Ao abrir a porta do prédio ao lado da sede da Izquierda Republicana viu que estava tudo escuro. Ao bater na porta de madeira nada aconteceu.


Deu mais alguns passos tentando se achar no escuro, quando subitamente ouviu um tiro, junto do clarão da arma não muito longe dali. A bala passou bem perto dele, mas não o feriu. Briegel se abaixou e buscou um local pra se esconder, e viu que uma pessoa subiu as escadas.

Briegel sacou sua arma e foi em direção da escada calmamente. Não havia ninguém. Começou a subir degrau por degrau, com a arma empunhada, tomando cuidado.

Soldados... Pelo visto deve ser aqui mesmo que Alice está, pensou Briegel, enquanto subia as escadas.

Chegando lá em cima viu uma grande sala, que parecia que fora abandonada às pressas, iluminada apenas pelas luzes que vinham das janelas. Apontando a arma pra todos os cantos Briegel tentou buscar onde estava a pessoa que havia atirado. Ouviu um pequeno estalido do seu lado, e quando virou, outro disparo. Disparo que acertou longe, no teto.

Briegel viu ao longe o local de onde tinha vindo o tiro, por conta do clarão. Viu dois vultos deitados no chão e foi se aproximando, com a arma apontada. Briegel ao se aproximar ergueu os dois braços, como se estivesse rendido. Foi se aproximando delas calmamente.

“Calma, não vou fazer nada. Alice, é você? Sou eu, seu pai!”, disse Briegel, em alemão, se aproximando.

“Saia daqui, seu nazista! Não sei do que tá falando!”, gritou a voz, também em alemão. Os olhos de Briegel se acostumaram com a escuridão e enfim era possível distinguir um pouco as feições. Não parecia Alice Briegel. Então ele puxou a cortina, e a luz que vinha de fora iluminou o rosto das pessoas.

Era uma mulher, loira, com olhos azuis, com uma arma apontada e as mãos tremendo de medo. Ela estava ajoelhada no chão, com a arma apontada pra Briegel, e com muito medo. Atrás dela havia uma criança, provavelmente no início da adolescência, devia ter menos de quinze anos e mais de dez. Tinha um rosto um bocado parecido com a da mulher, mas seus cabelos eram castanhos médios, quase escuros, mas seus eram de um verde muito vivo. A mais nova vestia um vestido simples infantil, marrom, de época. A mulher loira tinha um jaleco branco, bem sujo e surrado, e um vestido de algodão e um par de calças por baixo do jaleco. Ambas pareciam sujas e suadas, como se estivessem fugindo de algo há semanas.

“Escutem, eu não sou nazista, e não farei mal nenhum a vocês. Estou procurando alguém. Só tem vocês aqui?”, perguntou Briegel, buscando algum informação sobre o paradeiro da sua filha.

“Só tem a gente aqui! Saia logo daqui senão eu vou atirar!”, disse a loira.

Nessa hora Briegel se jogou de joelhos no chão. Seus olhos lacrimejavam, e era possível ver o brilho deles no reflexo da luz que vinha da janela. Ele estava nas últimas energias. A loira não entendeu direito o que estava acontecendo. Na verdade ninguém ali entendia nada, isso sim. O relógio, talvez a única coisa que funcionava naquela casa, apontava que já passavam das 16h30.

A mulher e a garota não estavam entendendo nada. O alemão havia caído no chão de joelhos na frente delas e parecia muito abatido, tanto quanto elas.

“Pode atirar. Eu não ligo. Vou até preferir morrer aqui de uma vez”, desabafou Briegel, novamente com as esperanças destroçadas.

As duas não entendiam nada. Então a mulher guardou a arma, e a garota apenas observava aquilo tudo, agora menos assustada. Porém, de súbito, algo as assustou. Era o som de aviões se aproximando.

“Droga!! Temos que sair daqui!!”, gritou a mulher loira. Briegel na hora ergueu o rosto, de susto.

“O quê? Esse som é de... Bombardeios?”, se ergueu Briegel, ao reconhecer o som dos Dornier Do 17.

“Rápido, não temos tempo, temos que fugir!!”, disse a loira, puxando a menina e Briegel pra fora dali o mais rápido possível.

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