sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Amber #32 - Vem, vamos embora, que esperar não é saber.

“Eu… Eu não posso…”, disse Schultz, com os olhos em lágrimas também, “Eu não posso escolher entre uma vida ou outra. Eu prometi que protegeria o maior número de pessoas possível. E se não der pra salvar as duas ao mesmo tempo, eu simplesmente não conseguiria decidir, ou escolher. Todas as vidas são importantes!”.

“Exatamente! Todas as vidas são importantes. E uma delas já foi salva!”, gritou uma voz no fundo. Era Briegel.

Schultz estava tão tenso que sequer viu o que estava acontecendo nos fundos do galpão. Briegel entrou por trás e desamarrou Alice, a escoltando pra fora e voltando. Raines não acreditou no que viu.

“Você?! Dirlewanger, aquele filho duma puta! Pensei que iria te matar!”, gritou Raines. Mas a resposta de Briegel foi bem direta. Dois tiros certeiros contra os dois que seguravam Maggie Braun. Um tiro no braço e outro na perna do outro.

“Vocês dois, na parede agora! Fim de jogo pra todos vocês. E cadeia pra você, Oliver Raines, seu bandido de merda!”, gritou Briegel, se aproximando deles, pra salvar Maggie Braun.

O olhar de Raines era de profundo desespero. Foi apenas um descuido, um pequeno descuido da porta dos fundos do galpão, mas que mudou completamente o rumo daquilo que estava em seu controle. Agora Raines estava com uma arma mirada nele, com Schultz e Briegel de cada um dos lados!

“Coronel! Puxa, nunca foi tão bom te ver, seu filho da mãe!!”, gritou Schultz, feliz, com as esperanças renovadas.

“Seus merdas, eu sou a única chance que vocês tem! Vocês não sabem com o que estã se met…”, disse Raines, mas um som de um tiro foi ouvido vindo de cima, acertando sua cabeça em cheio, fazendo sangue jorrar.

“Merda!! Tem um atirador de elite aqui!”, gritou Briegel, “Schultz, corra com a Liesl daqui que vou pegar a Maggie!”.

Schultz pegou Liesl pelo ombro, se virou e começou a correr pra saída do galpão. Liesl ainda gritava, dizendo que queria ficar com sua prima. Tudo nesse momento parecia correr em câmera lenta, todos os detalhes daquele momento estavam sendo guardados pra sempre na memória da pequena Liesl.

Entre a visão que ela tinha dos seus braços, querendo de todas as formas agarrar sua amada prima, Liesl viu entre uma lágrima e outra, entre um grito e uma respiração, o olhar da sua prima. Briegel estava correndo na direção de Maggie pra tentar salva-la ao fundo. Mas o olhar de Maggie era pacífico. Era um olhar que entrava na alma de Liesl. Um olhar que a preenchia profundamente.

Quando os olhares das duas se encontraram Liesl não conseguia ver nada inicialmente do que a expressão pacífica e contemplativa da sua prima. Margaret Braun estava calma.

Então veio um sorriso. Um sorriso tímido.

Naquele momento não parecia que Maggie havia sido espancada, embora seu rosto estava totalmente ensanguentado e ferido. Parecia que nada havia acontecido. Parecia que aquilo era uma visão de um anjo que havia aparecido lá. Parecia que ela conseguia ouvir na sua mente o que aquilo tudo significava.

Adeus, Liesl. Eu te amo, minha priminha.

E um segundo disparo foi feito, acertando o peito de Maggie Braun, a lançando no chão violentamente, enquanto sangue jorrava em pleno ar saindo do ferimento.

“NÃÃÃÃÃOOOOOO!!!”, foi o grito de Liesl depois que o tiro acertou sua prima. Schultz se virou sem acreditar e Liesl praticamente pulou do ombro de Schultz, caindo de maneira abafada no chão. Liesl tentava se erguer, mas caía novamente. Caiu uma, duas, três vezes. O corpo de Maggie já estava no chão, morto.

Briegel quase a alcançou. Por muito pouco mesmo. Se o atirador de elite tivesse hesitado no tiro por um milésimo de segundo, Briegel a teria puxado pro outro lado e salvado sua vida. Schultz caiu de joelhos no chão. Alice, que estava salva do outro lado da porta entrou no galpão, e ao ver a cena começou a chorar muito também.

E Briegel, bem… Briegel ainda estava muito chocado. Aquilo não parecia algo real. Olhou pra cima e viu onde estava o atirador de elite, e o viu saindo de uma pequena janela no topo. Mas na sua frente estava Liesl, debruçada sobre o corpo de Maggie, chorando e gritando. Maggie era a única família que a pobre Liesl tinha. Seus pais provavelmente já estavam mortos, vítimas da intolerância, dentro de um campo de concentração. Agora Liesl estava sozinha. A única pessoa que ela amava, que estava viva, estava morta. Nada mais fazia sentido.

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28 de abril de 1937

“Obrigado por terem enviado um carro para levar o corpo. Nós iremos no carro logo atrás, podem me dar um minuto, por favor?”, disse Briegel.

O olhar de Liesl estava perdido e triste. Sua roupa ainda tinha marcas do sangue de Maggie, uma vez que ela tinha se debruçado e chorado sobre o corpo da prima. Ao lado dela estava Alice Briegel, abraçada com ela, chorando muito.

“Você quer  trocar de roupa?”, perguntou Alice, mesmo chorando muito mais que Liesl, conseguiu entre os soluços falar.

“Não”, disse Liesl, balançando a cabeça. De alguma forma, manter aquela roupa, com aquelas manchas de sangue, era o que a fazia se sentir próximo da amada prima.

Alice era uma pessoa muito sensível, e desde o momento em que Maggie foi alvejada não havia parado de chorar. Alice viu seu pai se aproximando e se ergueu, indo até ele, colocando sua cabeça em seu ombro e chorando.

“Era pra ter sido eu. Era pra eu ter sido morta, papai”, desabafou Alice, “Eu preferiria ter sido morta no lugar dela”.

“Calma, minha filha. Provavelmente na posição que aquele atirador estava, todos nós seríamos mortos, um a um. Nossa sorte foi que as tropas estavam chegando”, disse Briegel, acalmando sua filha, “Vou falar um minutinho com a Liesl, tudo bem? Pode ir ficar ali junto do seu tio? Ele também não está muito bem”.

Briegel se aproximou de Liesl, que estava sentada em uma pequena escada do que havia sido uma casa, antes do bombardeio de Guernica. Ele simplesmente sentou ao lado dela sem dizer nada. Não havia nada pra ser dito naquele momento. Eles ficaram assim por mais ou menos um minuto. Foi então que Liesl quebrou o silêncio.

“Minha prima será enterrada na Alemanha?”, perguntou Liesl.

“Sim. O corpo já está no carro. Mas sem pressa. Use o tempo que precisar”, disse Briegel, “Não vamos te deixar sozinha. Jamais”.

“Mas eu não sou nada do senhor”, disse Liesl, “E se eu voltar pra Alemanha, provavelmente vou ser enviada pra um campo de concentração”, nessa hora ela ficou cabisbaixa, com os punhos cerrados, ”Eu sou meio judia e meio alemã, lembra?”.

Nessa hora Briegel acariciou com ternura a cabeça de Liesl, fazendo um cafuné.

“Liesl, dar o primeiro passo, olhar pra frente, deve ser a coisa mais difícil nesse momento. E infelizmente eu não posso dar o passo por você. Quem tem que se erguer e entrar naquele carro e voltar conosco é você. Se erguer depois que tudo isso aconteceu é a coisa mais difícil, mas tenha certeza de uma coisa…”, disse Briegel, e nessa hora ele fez uma pausa, com os olhos marejados, “...Eu te prometo que vou te proteger com minha vida, você dando esse passo ou não. Não apenas por você, mas pela sua irmã, que eu carregarei dentro da minha alma pelo resto da minha vida. E te prometo que vamos descobrir tudo, e vamos parar Hitler a todo custo”.

Liesl ouviu. Ainda ficou alguns segundos olhando pro carro, e olhando pro rosto de Briegel ao seu lado. Algo batia forte no coração dela. E ela não queria ignorar essa voz no seu coração. Ela colocou um pé na frente, depois flexionou o joelho, e enfim se ergueu.

Aquele foi o passo mais difícil da vida dela até então.

Mais uma vez parou e olhou pro carro. Depois olhou pra Briegel, que continuava a olhar pra ela, sentado no lugar onde os dois estavam, com os olhos cheios de lágrimas. Aquela terra de Guernica era não apenas uma lembrança do quão terrível os seres humanos poderiam chegar, mas uma lembrança pra ela do que ela queria evitar a todo custo: que pessoas tivessem que passar pelo que ela passou.

Liesl estendeu a perna e pisou firme no chão. Foi o primeiro passo mais difícil pra ela. Um andar que ela estava reaprendendo, pois a partir daquele momento foi um renascimento pra ela. Não havia mais espaço pra ser uma jovem, uma criança. Ela teria que crescer, e crescer rápido, sozinha, sem a pessoa que lhe era mais importante.

Uma vítima do Holocausto, entre tantas outras, que havia perdido toda sua família, mortos, por não ter feito crime nenhum. Apenas por terem nascido.

Mas depois de dar esse primeiro passo ela olhou pra Briegel. E viu que a estrada na sua frente poderia ser longa e tortuosa. Porém teria uma pessoa ao seu lado que a ajudaria a caminhar sempre em frente.

Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

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