sexta-feira, 3 de março de 2017

Amber #37 - Tédio

1 de setembro de 1939
15h42


“Vai tranquilo, coronel. Deixa comigo que eu cuido das coisas aqui”, disse Schultz, “Acho que é melhor pegar um trem. Tá meio perigoso as coisas por aí”.

Briegel havia colocado de colocar uma leve bagagem no carro que os levariam para a estação.

“Sim, a Áustria tá mais tranquila, a coisa tá pegando fogo mesmo lá pros lados da Polônia. Vou lá investigar a tal Ursel Meyer. Tem certeza mesmo de que não quer vir conosco?”, perguntou Briegel.

“Não, valeu! Quero ir não, tenho certeza sim. Vamos tentar ver algum jeito de tirar o Heydrich da SD. Se pudéssemos colocar ele em outra pasta do governo seria melhor. Deixa comigo que sei me virar, coronel”, disse Schultz, que depois virou seu olhar pra Alice e Liesl, “Vai levar as meninas?”.

Briegel olhou pro carro. Liesl e Alice já estavam lá, aguardando.

“Sim. Liesl pode me ajudar a proteger a Alice. As duas são bem amigas, assim posso ficar mais tranquilo e investigar melhor. Já tenho o endereço da Ursel Meyer. Resta saber se ela é uma aliada do Reich ou se ela está do nosso lado”, disse Briegel.

“Muito bem então! Boa viagem, coronel!”, disse Schultz, apertando a mão de Briegel, “Por favor, cuide de si mesmo e das meninas”.

“Você também meu amigo. Espero que não demore muito pra apertar novamente sua mão. Logo logo estarei de volta!”, disse Briegel. Os dois se abraçaram e Briegel foi pro carro, em direção da estação, pra pegar o próximo trem para Viena, na Áustria.

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3 de setembro de 1939
21h12


Schultz havia ficado até tarde no trabalho. Com essa mudança toda da SD estar como uma das pastas da RSHA estava deixando o próprio Schultz com muito mais trabalho burocrático de papelada do que propriamente colocando a mão na massa como ele gostaria. E a ida do seu amigo Briegel para a Áustria só aumentava o tédio. Poucos dias haviam se passado, mas aquilo era tão parado que era como se meses de trabalho entediante tivessem passado.

A noite não estava muito fria. Apenas um vento meio gelado que aparecia de vez em quando. Schultz estava com uma garrafa de cerveja, bebendo no gargalo. Era o jeito de afastar o tédio, pelo menos naquele momento. Ao se aproximar da entrada do seu pequeno apartamento viu que havia alguém sentado nos degraus da entrada. Não dava pra distinguir direito, era uma pessoa vestindo trajes militares e um desses bonés quadrados do exército. Sentado no degrau com os braços cruzados, olhando o movimento da rua.

Schultz mal poderia imaginar que ali seria o começo do fim do seu tédio.

“Com licença!”, disse Schultz, entre os arrotos por conta da cerveja, enquanto subia as escadas ao lado da pessoa, “E boa noite”.

A pessoa se levantou ao ver Schultz passando por ela. Parecia que enfim havia achado a pessoa que parecia estar aguardando.

“Não acredito, enfim encontrei o senhor!”, disse a pessoa sentada na escada. Claramente era uma voz feminina, falava alemão com um sotaque muito estranho, “O senhor é realmente alguém difícil de encontrar, senhor Schultz!”.

A pessoa tirou o boné militar, e um longo cabelo preto e extremamente liso caiu. Seus olhos eram puxados e ela tinha lábios bem carnudos, mas nenhum tipo de maquiagem ou coisa do gênero. Parecia meio suja e até tinha um cheiro meio estranho, mas esboçou um sorriso contido ao ver Schultz.

“Que sotaque estranho. Você é asiática?”, perguntou Schultz, ao virar-se pra vê-la. Era óbvio, pois ela tinha traços completamente asiáticos.

“Sim, me desculpe, tive poucas semanas pra aprender a falar alemão desde que cheguei aqui, sinto muito pelo sotaque”, se desculpou a donzela, curvando o tronco fazendo uma reverência, “Meu nome é Ri. Ri Eunmi. Sou da Coréia, e vim pra cá por indicação de alguém que me mandou buscar o senhor. Somente o senhor pode me ajudar, por favor, eu imploro!”, disse Eunmi, fazendo novamente uma reverência, baixando a cabeça.

“Me indicaram? Puxa, tô com fama até daqueles lados? Mas que país é esse? Coréia? Isso não é parte do Japão?”, perguntou Schultz.

Eunmi do nada mudou o rosto. Sentiu-se profundamente ofendida ao ouvir isso.

“Não, senhor Schultz! A Coréia é um país livre, temos língua, cultura e costumes próprios! Não somos parte do Império Japonês. Fomos dominados por aqueles covardes, que estão escravizando e estuprando meu povo!”, disse Eunmi.

De fato, já desde o final da dinastia Joseon, em 1910, o Japão dominava a península coreana completamente, como parte do seu império. E cada vez mais esse domínio japonês significava escravizar o povo coreano, cometendo inclusive estupros coletivos contra suas mulheres.

“Tá, bom, escuta, tá meio frio, quer subir não? Só não repara na bagunça, aí você vai poder me contar com mais calma”, disse Schultz, subindo as escadas e indo até a porta do seu apartamento, “Não sei no que exatamente posso te ajudar, mas se você quer que eu liberte seu país, eu sinto muito, mas você veio ao lugar errado”.

Eunmi seguiu subindo as escadas, logo atrás de Schultz. Enquanto Schultz falava ele abriu a porta, estendo a mão pedindo pra ela entrar. Mas Eunmi não entrou, ficou parada, fitando Schultz.

“Não, senhor Schultz. Não quero que o senhor liberte o meu país. O que eu quero é vingança”, disse Eunmi, parada na frente da porta, sem entrar, mesmo depois de Schultz abrir e pedir pra ela entrar.

Aquele gesto de não entrar foi algo bem significativo pra Schultz. Ele pensava sinceramente que poderia enrolar e levar aquela menina suja e fedida pra cama. Mas quando viu sua franca determinação, Schultz viu que aquela jovem não seria mais uma aventura sexual pra listinha. Era alguém bem decidida e séria.

“Tá bem então, bom, então vou entrar!”, disse Schultz, entrando e colocando seu casaco no gancho atrás da porta, “Vem, entra aí. Me conta mais sobre. Vingança sobre o quê?”

Nessa hora Eunmi entrou, mas ainda estava com o semblante sério. Schultz foi até a cozinha abrir a geladeira buscando algo pra comer enquanto ouvia Eunmi.

“Quero matar um oficial do exército japonês”, disse Eunmi, sendo bem direta, “Ele matou meu noivo. Quero me vingar daquele canalha!”.

“Entendi. Tem o nome dele? Eles são todos bem parecidos daquele lado, não?”, disse Schultz, fazendo uma brincadeira meio desagradável.

“Óbvio que tenho o nome dele. E eles não são parecidos! Capitão Miura. Hanjirou Miura. Ele está em Seul, sei onde encontra-lo”, disse Eunmi.

“Seul?”, perguntou Schultz sem saber onde era essa cidade.

“Talvez o senhor conheça pelo nome de ‘Keijou’”, disse Eunmi, falando o nome que Seul ganhou desde que foi tomada pelo exército nipônico, “Por favor, senhor Schultz, somente o senhor pode me ajudar!”.

Eunmi novamente baixou sua cabeça, pedindo ajuda de Schultz. Aquele gesto era bem estranho pra Schultz, mas mesmo sem fazer parte da sua cultura ele conseguia perceber que aquilo era no mínimo um gesto de grande sinceridade. A garota não apenas estava vestida como militar, mas mostrava ser alguém disposta a qualquer coisa pra poder fazer o que deseja. E ajuda-la era melhor que ficar encarando uma papelada o dia inteiro com pendências de Heydrich.

“Você disse que uma pessoa que te mandou vir atrás de mim. Quem era?”, perguntou Schultz, lembrando do início da conversa.

“Era um homem, alto, loiro, meio velho. Há algumas semanas ele me deu o seu endereço e tudo mais. Não lembro o nome dele...”, disse Eunmi, como se pausasse pra buscar na memória, “Na verdade eu nem perguntei o nome dele. Imagina quem seja?”.

“Homem alto e loiro? Bom, estamos na Alemanha. Aqui o que mais tem são tipos assim”, disse Schultz.

“Não de onde eu venho. Com certeza todos iriam reparar se um tipo desses andasse nas ruas”, disse Eunmi.

“Tá certo então, como é mesmo seu nome?”, perguntou novamente Schultz pra Eunmi.

“Ri Eunmi”, disse Eunmi.

“Nossa, vou ficar um mês pra conseguir falar esse nome. Muito bem então, eu irei te ajudar!”, disse Schultz, e nessa hora Eunmi enfim deu um sorriso de alegria, “Mas você vai ter que esperar um pouco. Pelo menos algumas semanas. Eu ando meio ocupado! Coisas burocráticas. E uma viagem dessas tomaria muito tempo. Sem contar que é longe pra dedéu”.

Nessa hora Eunmi sentiu como se fosse do céu pro inferno.

“Não! Temos que ir agora, por favor! Eu não sei por quanto tempo Miura vai ficar em Seul! Por favor, senhor Schultz! O senhor é minha última esperança!”, implorou Eunmi, quase gritando.

Schultz tomou um susto com a reação da garota. Realmente ela não havia gostado muito da resposta. E pelo ardor do pedido dela, com certeza ela não sairia de lá com uma resposta negativa. Era ir, ou ir.

“Tá, então só alguns dias! Não é uma coisa que dê pra eu fazer assim, de um dia pro outro, além disso...”, disse Schultz, e nessa hora uma granada com um gás amarelado foi lançada, quebrando o vidro do seu apartamento e lançando veneno por todo o cômodo. Schultz ao ver aquilo só teve tempo de gritar:

“CARALHO!! Que porra é essa?! Corre daqui, vamos!!”.

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