segunda-feira, 6 de março de 2017

Amber #38 - Anschluss

3 de setembro de 1939
18h21


Bandeiras nazistas eram hasteadas em todos os cantos de Viena. Oficiais do exército alemão andavam nas ruas como se aquele país fosse uma continuação do seu próprio, o que, literalmente naquele momento era. Adolf Hitler dizia que a Áustria, um país que partilhava uma herança cultural similar da Alemanha, a começar pela mesma língua, era também o local onde, de acordo com o próprio Hitler, haviam os alemães mais “puros” que os da própria Alemanha. Já havia um tempo desde que a Áustria fora anexada ao território nazista pela temida Anschluss, a política de anexação, onde o pobre país, que também havia perdido a Primeira Guerra Mundial ao lado da Hungria, mal teve chances de se defender.

Com o chanceler assassinado em 1934, e Schuschnigg, o chanceler antinazista colocado no seu local, sua ideia era realizar um plebiscito pra consultar o povo se a Áustria seria anexada. Ele sequer teve tempo pra isso. Em março de 1938 tropas nazistas entraram na Áustria, a anexando por meio da força.

Em um plebiscito forjado realizado após da Anschluss, o resultado foi que 99% do povo austríaco dizia ser de acordo com a anexação. Políticos que eram contra foram presos, judeus começavam a ser humilhados e a ter os bens confiscados. Mas na prática nada era tão fácil. Aquela Áustria, que na Primeira Guerra Mundial havia se unido com a Hungria, e juntos criados um dos maiores países e potências da época hoje nada mais era que um fantoche, dominado por nazistas em cada esquina.

“Boa noite, senhora. Muito obrigado por me ajudar”, disse Briegel, entrando na casa de uma senhora, “Conseguiu encontrar algo?”.

Briegel, com o endereço de Ursel Meyer nas mãos, foi buscar informações de como acha-la. Ele não sabia exatamente qual seria a reação dos oficiais nazistas caso ele aparecesse lá buscando tal informação, logo achou que seria mais fácil buscar informações com pessoas locais.

“Aqui está, herr Briegel”, disse a simpática senhora Weisner, antiga líder comunitária local, “Fiz um mapa pro senhor nesse papel, espero que isso o ajude. Fica um pouco distante daqui a pé, mais ou menos uns vinte minutos de caminhada”.

“20 minutos? Só isso? É bem perto, senhora, dá pra chegar lá sem problemas!”, disse Briegel mostrando disposição.

“O senhor é realmente bem disposto, apesar da idade! É incrível achar que um mero oleiro tenha tanta saúde e disposição!”, disse a senhora.

“Acredite, a senhora não tem noção o quanto minha profissão pode ser sufocante. Muito obrigado mesmo, senhora!”, disse Briegel ao se despedir.

O papel no bolso de Briegel era enfim seu passaporte pra descobrir mais sobre Oliver Raines. Aquelas memórias do que aconteceu em Guernica ainda pairavam na sua mente, e ele não poderia deixar a morte de Margaret Braun impune. Sentia que era uma questão de honra achar explicações para Liesl, que perdeu sua única família de uma maneira tão triste.

No seu bolso sentia o papel entre seus dedos. Aquilo lhe dava uma empolgação como fazia tempos que não sentia!

Acho que vou passar ali naquele café e buscar algo pra Liesl e Alice comerem. Elas toparam vir comigo até aqui, tenho que ser no mínimo gentil!, pensou Briegel. Mas quando ele atravessou a rua pra ir até a cafeteria tomou um susto. Viu um rosto que estava sentado numa das mesas próximas da janela, do lado de dentro do bar. Quanto mais passos dava pra atravessar a rua, mais via que conhecia aquele rosto.

Era seu pai. Heinrich Briegel.

Roland Briegel simplesmente ficou paralisado no meio da rua. O que diabos seu pai estava fazendo na Áustria, e o que estava fazendo justamente ali?

Um carro buzinou, mandando Briegel sair do meio da rua. Virou e começou a correr de volta pro hotel onde estavam Liesl e Alice. Viu que seu pai havia virado o rosto quando ouviu a buzina do lado de fora, mas torcia com todas as forças que seu pai não o tivesse visto. Roland Briegel começou a correr desesperadamente de volta pro hotel aos tropeços e desespero, e quando entrou no quarto estava pálido, como se tivesse visto um fantasma.

“C-coronel? O senhor está bem?”, perguntou Liesl, vendo a cara de susto de Briegel, “Aconteceu alguma coisa?”.

“Sim, eu estou bem”, disse Briegel, já mais calmo. Nessa hora Alice se aproximou também pra ver, “É que eu vi... O meu pai. Agora há pouco. Lá embaixo”, disse pausadamente.

“Heinrich Briegel?”, disse Alice, que obviamente não conseguia chamar o pai do seu pai de avô, “Tem certeza, papai? O que ele está fazendo aqui?”.

“Eu não sei, Alice. Mas consegui a localização daquele endereço. Uma senhora, antiga líder comunitária antes da Anschluss me fez esse mapinha aqui”, mostrou Briegel, tirando do bolso. Alice ficou abismada, pois era surpreendentemente detalhado, “Mas acho que meu pai não me viu. Eu acho que vou descansar um pouco. Liesl, você pode ir buscar algo pra gente comer?”.

“Claro! Pode deixar. Fica aqui, coronel, você não parece muito bem mesmo”, disse Liesl.

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01h10

Liesl e Alice dormiram no mesmo quarto, pra economizar. Já era tarde da noite e Liesl estava acordada. Não conseguia dormir. Sentada numa mesa de canto com uma vela acesa na pequena sala do hotel estava escrevendo em seu diário pessoal.

“Liesl?”, disse Alice, ao chegar na sala e tomar um susto em ver Liesl lá, “Está sem sono?”.

“Ah, Alice! Sim, eu estou sim. Muitas coisas na cabeça, me desculpe. Espero não ter te acordado”, disse Liesl.

“Acordado? Você foi treinada pelo meu pai! Você é capaz de matar todo mundo aqui e ninguém saber de nada”, disse Alice, de roupão, se aproximando de Liesl e puxando uma cadeira pra se sentar na frente dela, “Quer conversar?”.

Liesl olhou pra Alice e ficou corada. Reparou que seu diário estava aberto, e rapidamente o fechou. Alice viu aquilo, mas respeitou a privacidade da menina. Liesl tomou ar e soltou, lentamente, como se estivesse prestes a se livrar de um grande peso que carregava.

“Alice, eu te amo, como se você fosse uma irmã mesmo pra mim. Agradeço imensamente tudo o que você tem feito por mim, desde Guernica, do fundo do meu coração. Mas o que quero te contar agora eu queria que você mantivesse como um segredo. E que não contasse pra absolutamente ninguém! Será que posso confiar em ti?”, perguntou Liesl. Seu rosto ainda continuava vermelho e seus olhos estavam começando a lacrimejar. Alice tomou um susto, pois a coisa realmente parecia ser bem séria.

Mas Alice fez o melhor gesto de compaixão que poderia fazer. Passou a mão no rosto de Liesl, confortando-a e depois segurou sua mão com muito carinho. Não havia uma única palavra. Aquele gesto era mais que do que Liesl precisava para confiar nela.

Calmamente Alice balançou a cabeça positivamente. E Liesl então começou a falar:

“Eu amo o coronel Briegel. Eu estou completamente apaixonada por ele!”, disse Liesl. Alice na hora arregalou os olhos de susto, pois de todas as coisas que ela cogitaria, isso era a coisa mais inesperada que poderia ouvir justo de Liesl.

“O quê? Meu pai?”, perguntou Alice, tentando entender. Liesl, em lágrimas, apenas confirmava a cabeça, “Liesl, olha a diferença de idade de vocês, querida. Acha mesmo que meu pai, que não tem tempo nem pra assoar o nariz, iria se interessar por um relacionamento? Tem certeza mesmo?”, Alice tentava entender o que estava se passando, mas os olhos de Liesl em lágrimas refletiam a luz da vela que estava posta sobre a mesa.

“Eu não ligo, Alice. Eu tentei de todas as formas fugir desse sentimento. Eu sei que é ridículo, eu sou uma adolescente, e ele já é um homem e muito mais velho que eu! Mas isso há tempos por mais que tenho tentado lutar contra cada vez é maior dentro de mim!”, confessou Liesl.

“Liesl, você tem que buscar alguém da sua idade, menina!”, disse Alice, tentando explicar com carinho pra Liesl, “Eu entendo, meu pai é bonitão, parece um galã de cinema, mas se você estiver se ilud-“.

“Eu queria que fosse uma ilusão, Alice”, disse Liesl, interrompendo Alice, olhando nos olhos de sua amiga Alice, com um misto de dor e pena de si mesma, “Queria mesmo. Pois isso tudo é tão ruim, sabe? Nutrir algo por alguém assim, que sei que é alguém impossível pra mim!”, nessa hora Liesl fechou os olhos, como se buscasse uma forma de colocar em palavras aquilo que ela sentia por aquele homem: “Quando fecho meus olhos, eu o vejo dentro deles. Fico procurando por ele quando ele não está perto de mim”, nessa hora ela colocou os dedos nos seus lábios, com os olhos fechados, como se os estivesse acariciando, “E em meus lábios sinto o desejo que tenho por ele. E quando abro os olhos...”, nessa hora Liesl abriu os olhos, “Vejo como a realidade é cruel, pois não quero apenas sonhar com ele. Quero olhar nos olhos dele, ganhar os seus abraços. Mas aí vem o desespero em que me vejo, onde me troco diversas vezes com ele, só pra ver se o encontro”.

Liesl abriu os olhos, e viu Alice em lágrimas na sua frente.

“Não, chega, Liesl!”, disse Alice, chorando, abraçando sua amiga, “Não, não, não! Eu estava errada! Isso que você sente pelo meu pai é a coisa mais sincera e real do mundo! É lindo ver as coisas lindas que uma pessoa diz quando está apaixonada de verdade. É lindo mesmo!”.

Liesl nesse momento nos braços de Alice começou a chorar também. O melhor lugar do mundo naquele momento era dentro daquele abraço.

“Obrigada! Obrigada mesmo, Alice, por acreditar e aceitar!”, disse Liesl, em lágrimas.

“Não havia pessoa melhor pra estar do lado dele do que você. Pode deixar que comigo seu segredo está guardado. Obrigada por confiar em mim!”, disse Alice, extremamente feliz. Também transbordando uma felicidade que nem ela sabia que poderia guardar.

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