segunda-feira, 24 de abril de 2017

Amber #46 - Muchacho americano

5 de setembro de 1939
Em algum lugar perto de Hong Kong

A China era parceira política da Alemanha nazista. Pelo menos nesses tempos de princípio do começo da Segunda Guerra Mundial. Porém a Guerra no oriente já havia começado há muito tempo antes da invasão da Polônia, feita por Adolf Hitler. O Império Japonês há muitos anos estava em guerra com os países vizinhos, especialmente a China. A política de ocidentalização do governo japonês levou muito progresso para a ilha, mas também trouxe o grande mal do ocidente: a necessidade de conquista territorial e subjugação dos países vizinhos.

E pousar em uma cidade grande como Xangai ou Pequim era um tanto perigoso. Logo o plano teria que ser outro.

“Quando falaram que a gente iria de avião, imaginava que ao menos a gente ia ganhar uns petiscos das comissárias de bordo”, disse Schultz, indignado, “Só não imaginava que aquele idiota do Heydrich iria nos mandar num avião militar!”.

“Ei não fica reclamando, Schultz”, disse Eunmi olhando pela janela, “Parece que já estamos chegando”.

Eunmi não entendeu direito, mas viu um avião na janela de onde ela observava Hong Kong de longe. Ele havia aparecido do nada, e estava voando ao lado do avião deles. Ela preferiu não comentar nada com Schultz, mas achou que isso talvez fosse algum protocolo de segurança, ou algo do gênero. Schultz na sua frente, com a janela fechada, ficava olhando pro teto achando aquele voo entediante.

“Senhor Schultz!”, gritou um dos soldados alemães, “É a Força Aérea Real. Ela nos mandou pousar, caso contrário abrirão fogo!”.

“Ah, que merda! E eu pensando que aqui em Hong Kong as coisas estariam tranquilas!”, disse Schultz, “Não temos escolha, bota essa lata de sardinha na pista, piloto!”.

Hong Kong nesse tempo ainda era parte das colônias da Coroa Britânica, e mesmo compartilhando comércio, cultura e diversos valores com a China continental, nesse momento ainda era de grande influência dos governos ocidentais. O avião, mesmo disfarçado, foi obrigado a pousar numa pista em Hong Kong e rapidamente soldados britânicos entraram e prenderam Schultz, Eunmi e toda a tripulação. A jornada para o oriente havia começado da pior maneira possível.

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Schultz estava sozinho em um cubículo, apenas com uma cadeira e parca iluminação de lâmpada incandescente. Sem um relógio não tinha noção de quanto tempo passara – se era noite, há quanto tempo estava lá e, o pior, se sairia de lá.

Um homem abriu a porta. Ele estava com uma prancheta nas mãos, vestia uma camisa branca social, calça preta e sapatos de couro. Tinha bigode, cabelos pretos e lisos, levemente encaracolados nas pontas, jogados pra trás e traços latinos.

“Schultz? Ludwig Schultz?”, disse o homem, “Do you speak english?”.

“Yes, I do”, disse Schultz, respondendo com ar de cansaço.

“Muito prazer, meu nome é Ted Saldaña. Sou americano”, disse o homem, em inglês.

“Americano? Com esse sobrenome? Esperava alguém chamado Brown, ou Smith. Não um Saldaña”, disse Schultz, irônico, em inglês.

Saldaña por dentro ficou furioso com o comentário, mas não deixou transparecer.

“Meu avô era mexicano. Mas sou um cidadão completamente americano. A única coisa mexicana que carrego hoje é esse sobrenome”, disse Saldaña, tranquilamente.

“O bigodinho também não parece muito american style, se é que você me entende. Se te colocasse um sombreiro com certeza eu diria que você é um latino ilegal de Guadalajara”, disse Schultz, provocando.

Saldaña pegou Schultz pelo pescoço e o ergueu contra a parede. Ele era um pouco menor que Schultz, mas era extremamente forte.

“Escuta aqui seu alemão nazista de uma figa, sabemos exatamente quem você é. Um espião nazista!”, disse Saldaña, ameaçando Schultz, “Os ingleses daqui adoram me mandar tipos iguais a você pra eu dar um tratamento VIP. Sabe o que significa VIP, não sabe, alemão?”.

“Sei sim. Significa ‘VIOLEI sua IRMÃ, aquela PUTA’, hehe!”, disse Schultz, sem o menor medo do perigo.

Saldaña estava completamente sério e furioso. Mas ao ouvir isso riu alto e soltou Schultz, que caiu de bunda no chão. Saldaña se virou e ficou ainda rindo alto, caminhando de costas pra Schultz.

“Ha-ha-ha!”, terminou Saldaña de rir, “Quer saber, gostei de você. Me fez rir”.

“Muito bem, então acho que pode me liberar então, estamos quites”, disse Schultz, se erguendo, meio sem entender direito o que estava acontecendo ainda, “Eu não vim fazer nada em Hong Kong. Meu destino é Keijou, o lugar que já foi conhecido como Coréia. Não sou fiel a Adolf Hitler, francamente, estou cagando pra ele. Vim pra tirar umas férias, e ajudar uma menina que conheci a vingar a morte do noivo”.

“Oh, aqui era apenas uma escala, então?”, disse Saldaña, ainda num tom estranho.

“Exato. Agora corta essa, muchacho”, disse Schultz, indo pra porta, “Não quero causar confusão com vocês aqui. Libera a saída aí. Preciso voltar pro avião e continuar a viagem”.

Schultz batia a porta esperando uma resposta do outro lado. Saldaña apenas ficava em pé, observando. Começaram a ouvir passos vindo do corredor depois de alguns segundos. Parecia que aquela era a deixa. O tal Saldaña era estranho, era extremamente difícil ler suas ações, ou o que queria dizer. Seu rosto continuava com uma expressão estranhamente neutra.

Três homens bem fortes entraram pela porta, e rapidamente imobilizaram Schultz no chão, amarrando seus braços e pernas.

“Mas que porra é essa?!”, gritou Schultz, no chão, “Que merda tá acontecendo?”.

Saldaña então se agachou. E sorriu, um sorriso amarelo, sem graça. Com aquela expressão no rosto talvez várias coisas que ele poderia falar teriam passado pela cabeça de Schultz. Exceto o que de fato Saldaña disse:

“Sinto muito, você não me convenceu sobre esse papo de não estar com Adolf Hitler. Mas fique tranquilo. Isso tudo que tenho preparado é pra eu tirar quaisquer dúvidas que tenha sobre sua versão”.

Schultz foi levado então pelos homens fortes e Saldaña para o subsolo. Ali ele viveria um verdadeiro pesadelo.

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