sábado, 8 de abril de 2017

Amber - Tous les garçons et les filles de mon âge, savent très bien ce qu'aimer veut dire.

Quando começamos a amar? Em que momento saímos daquela inocência infantil e começamos a ver enlaces mais fortes com as pessoas do que uma simples amizade comum?

“Liesl! Liesl!”, disse Margot, minha melhor amiga no liceu que estudávamos, “Sabe o Peter?”.

“Sei sim! O que aconteceu?”, perguntei, sem nem imaginar o que havia realmente havia acontecido.

“Ele disse que queria falar comigo e fomos do outro lado pátio do liceu! Chegando lá ficamos sentados na mureta, conversando, até que ele pegou na minha mão e...”, nessa hora Margot pausou, fazendo biquinho com os lábios, “...Nós nos BEIJAMOS!”.

Na hora achei muito estranho aquilo tudo. Nós tínhamos doze anos, e víamos nos livros histórias de romances entre pessoas adultas. Mas aquilo parecia algo tão distante! Como se fosse algo que só acontecesse com a gente quando estivéssemos com vinte, trinta anos. Não agora, com apenas doze!

“Não acredito! E aí, como foi?”, perguntei.

A resposta que Margot deu era nada do que eu esperava.

“Ele foi tão fofo! A gente ficou conversando, aí ficamos em silêncio uma hora. Ele pegou na minha mão, olhamos cada um pros olhos do outro, e fomos chegando perto e perto. Aí ele fez biquinho e eu também. Eu demorei a fechar os olhos, mas quando eu fechei, nossa, era uma coisa tão boa! Foi meio molhado e estranho, mas a sensação foi muito boa!”, disse Margot.

Foi bem descritivo. Bem até demais. Mas não era isso que eu estava esperando como descrição. O que eu esperava dela era uma descrição do que era o amor. O que era aquele sentimento que eu via que unia homens e mulheres nos livros que eu lia. O que fazia eles se quererem, o que era essa sensação do coração bater mais forte por alguém? Como era isso?

Um beijo era o contato entre os lábios de duas pessoas. Não queria saber que tipo de movimento fizeram, se era molhado, ou se tinha bafinho do almoço. Eu queria saber como era essa coisa chamada “amor”.

“Tá, mas, você sentiu o que é ‘amor’?”, perguntei, “Tipo aquilo que nossos pais dizem que sentem pelas nossas mães? Como era?”.

Margot ficou quieta. Ela olhou pra cima, como se estivesse tentando juntar os pensamentos. Aquela descrição era importante pra mim. Queria saber se saberia reconhecer o amor quando o encontrasse na minha vida. Como iria saber se eu realmente estava amando alguém? Eu precisava de uma descrição de como era!

“Não sei, Liesl”, disse Margot, frustrada, “Não sei como descrever o que senti. Apenas sei dizer que era bom!”.

Fiquei um pouco frustrada. Deixar de ser criança e entrar na vida adulta é difícil e complicado. Quando somos crianças qualquer coisa que temos dúvida os adultos sabem a resposta na ponta da língua. Perguntamos o porquê do céu ser azul, o porquê da neve cair no inverno, o porquê dos nossos narizes ficarem cheios de catarro quando ficamos gripadas, o porquê do leite vir da vaca.

Mas essas eram perguntas do mundo infantil, de quem tá descobrindo como as coisas funcionam. As perguntas do mundo adulto eram bem mais complicadas de responder. Não conseguia entender como a Margot, que havia beijado alguém, não conseguia descrever o que era o amor. Porque nos livros os casais sentiam essa atração tão grande, que os faziam sempre querer ficar juntos, que mesmo no meio de tanta desgraça viam o mundo cor-de-rosa quando amavam alguém, porque isso parecia algo tão elementar e ao mesmo tempo tão elaborado?

“Liesl, filha, acorda!”, disse meu pai, me acordando, muitas semanas depois desse conversa com a Margot. Via pela minha janela que estava escuro. Era muito estranho pra mim. Não parecia ser a hora de ir para a escola ainda.

“Mas já, papai?”.

“Rápido, se troca, a Margaret tá te esperando lá embaixo!”, disse meu pai. Eu o obedeci, estava morrendo de saudades da minha prima, a Maggie. Foi ela que conseguiu emprego pro meu pai na Alemanha, e a minha vaga no liceu. Na hora nem me toquei que ninguém havia avisado que a Maggie nos faria uma visita. Meus pais sempre me avisavam antes, e eu sempre contava os dias para vê-la.

Eu lembro disso como se fosse ontem. Ouvi um barulho de uma pancada bem forte na casa vizinha. Era lá que Margot, minha melhor amiga, vivia.

“Que barulho foi esse, papai?”, perguntei, enquanto descia as escadas com uma mochila cheia de roupas nas costas, “Tá tendo reforma essa hora na casa da Margot de novo? E por que tiraram os livros da minha mochila? Eu não preciso de mudas de roupa na escola!”.

“Liesl, me escuta, você precisa ir com a Margaret. Ela te explica no caminho. Obedece ela direitinho, tudo bem?”, disse meu pai, me dando um beijo na testa. Olhava pra Maggie, e ela, embora estivesse sorrindo ao me ver, derrubava lágrimas.

Acho que foi naquele momento que comecei a perder a inocência.

Saímos pelos fundos da casa, sem fazer barulho. Segundos depois de fecharmos a porta ouvi mais pancadas, mas parecia dentro da minha casa. Quando cruzamos a rua eu lembro que virei pra trás e vi a Margot chorando, sendo colocada num caminhão, como um animal, sendo separada da mãe e do pai que iam em outro. Soldados alemães armados entravam de casa em casa, e eu não estava entendendo muita coisa.

Se eu soubesse, teria me despedido direito dos meus pais. Teria dado um abraço, e implorado pra ficar junto deles. Mas sequer tive como me despedir deles. Nem mesmo deram um adeus. A vida real era bem diferente daquele drama da despedida que via em filmes. A vida real era bem mais fria, e não havia tempo para tal muitas vezes. Minha última memória era daquele último beijo na minha testa. Meu pai, nem minha mãe explicaram o que estava acontecendo, menos ainda o motivo de eu ter que ir ás pressas sair com a Maggie. Achava que era um passeio surpresa (embora nunca tivesse acontecido um). Nem mesmo lembro de vê-los de costas, como aquelas despedidas melosas de filmes.

Simplesmente fui levada pela Maggie achando que iria, sei lá, passear.

Mas não foi nada disso.

Meus pais foram enviados pra Dachau, um campo de concentração nazista, junto da Margot, dos pais dela, e de todos os outros judeus da nossa vizinhança. Meus pais, sempre temerosos desde a chegada de Adolf Hitler ao poder, viviam atentos para se algo acontecesse. Infelizmente eles perderam a vida para que eu pudesse viver.

Amadurecer é sempre algo dolorido.

E eu, até aquele momento, talvez só soubesse o que era dor na teoria, nos livros que eu sempre lia. O que era a peste e a ira de Aquiles, na Ilíada? O que era aquele laço fraternal que os Três Mosqueteiros tinham entre si que um defenderia todos e todos defenderiam um? E o mais importante: o que era aquele sentimento que Elizabeth Bennet sentia pelo senhor Darcy, que gerava nela tanto desgosto quanto felicidade ao mesmo tempo?

Todos os romances que liam mostravam o amor da mesma forma. Com o tempo entendi que talvez amor fosse algo como quando aprendemos a respirar. Ninguém lembra como aprendeu, mas é algo que somos aptos a fazer naturalmente.

Talvez amor seja um presente pra nossa mente em forma de satisfação e felicidade por perpetuar a espécie, copulando com outra pessoa e criando novas gerações de seres humanos. Afinal, namoros inevitavelmente terminariam em sexo, e sexo era aquilo feito para perpetuar a espécie, não?

Durante meses vivemos apenas eu e Maggie. Sempre pulávamos de casa em casa, pegávamos caronas com pessoas estranhas, mas uma coisa era verdade: ela sempre me defendia. De tudo e de todos. Um dia a única coisa que tínhamos pra comer era uma lata de feijão, e tínhamos que dormir embaixo de uma ponte. Conseguimos fazer fogo com alguns papéis de propaganda nazista que encontramos ali perto.

Eu entendia que fugíamos do exército do Führer. E entendia que apenas eu estava sendo perseguida por meu pai ser judeu, e eu ser meio judia e meio alemã ariana. Mas naquele dia, enrolada em um cobertor velho embaixo da ponte, enquanto esquentava aquela lata de feijão, nossa única refeição, enfim achei que devia falar algo pra prima que tanto amava que nunca tinha dito antes.

“Maggie”, eu disse, “Eu nunca te pedi desculpas, né?”.

“Desculpas?”, disse Maggie, sentando carinhosamente do meu lado, “Porque, meu amor?”

“É tudo culpa minha. Você teve que abandonar tudo por minha culpa, porque eu tenho sangue judeu. Você não tem sangue judeu. Seu pai é meu tio, por parte de mãe. Porque você abandonou tudo só por minha culpa? Você tinha uma grande carreira como engenheira, uma vida confortável e boa. Não faz sentido isso. O que te move?”, perguntei pra Maggie.

A resposta dela enfim me ajudou a entender o que era amor.

“Vem cá, Liesl, senta aqui”, disse Maggie, pedindo pra eu sentar do lado dela. Ela estendeu o braço, me abraçando, “Não existe emprego, dinheiro, nem status no mundo que seja mais importante pra mim do que você. Por você eu enfrentaria Hitler sozinha e o Terceiro Reich inteiro. Pra te ver segura eu arriscaria tudo que eu tenho. Pois nada me faria sentido se você deixasse de existir”, nessa hora eu lembro que Maggie me olhou, e seus olhos brilhavam. Aquela chama parca do fogo que nos aquecia iluminava seu rosto, mas seus olhos pareciam emanar luz própria: “Você é minha vida, e eu te amo, minha priminha. E faria tudo pra te ver feliz!”.

Ela me amava. Amor então era essa coisa que movia as pessoas a acreditar no impossível? Amor era uma coisa que dava coragem aos mais fracos, e os dava força pra encarar tudo e todos? Amor era esse sentimento de sempre querer o bem dos outros, mesmo que você mesma ficasse triste?

Aquela conversa com a Maggie me elucidou muita coisa. Foi como uma luz no meio da escuridão de dúvidas. Por isso amor era algo tão grande para se entender, pois amor era uma coisa imensa. E amor não era apenas o que um homem sentia por uma mulher. Amor também era o que eu sentia pela minha prima e o que ela sentia por mim. Amor era o que moveu meus pais a se sacrificarem pelo meu bem. Amor era realmente algo bem grande.

Como seria minha reação quando acontecesse comigo? Será que sentiria amor, uma coisa tão grande, dentro de mim e essa coisa me sufocaria de tão imensa? Eu sempre tive muitas dúvidas, mas quando realmente aconteceu, foi de uma maneira tão natural, que acho que se eu tivesse sentido mais no lugar de me preocupado em apenas tentar reconhecer o amor no meio de tantas emoções, com certeza eu teria visto que não era nada tão assustador.

“E essa menina? Sua filha?”.

Foi a primeira vez que ele se dirigiu a mim. Eu não sei dizer como aconteceu. Será que foi no meio do desespero de estarmos escapando de um bombardeio no meio da Espanha?

Ele era velho, bem mais velho que eu. É verdade que era bonito, mas não era apenas isso. Eu não sabia se ele tinha dinheiro, se havia estudado, do que trabalhava, mas, francamente, isso nem se passou pela minha cabeça. Eu era uma criança, e dúvidas sobre futuro, ou se conseguiria um homem pra me sustentar não era minha prioridade. Ele parecia tão amedrontado quanto eu, mas havia algo nele. Algo que não sabia explicar.

“Meu nome é Liesl. Liesl Pfeiffer”, eu respondi, “Sou prima da Maggie... Quer dizer, da Margaret”.

A única coisa é que eu gostava era de ficar ao lado dele. Sentia que aquele homem poderia me proteger, que ele poderia me defender. E não apenas isso, eu queria ser forte para o defender e ser um porto seguro nesse turbilhão que vivemos também. Que havia sinceridade e, acima de tudo, que eu poderia confiar nele. Eu não tinha noção disso naquela época, pois todos os meninos e meninas da minha idade, sabem muito bem o que 'amar' quer dizer. Mas eu, a partir daquele momento, seria a próxima a saber o que isso significava também.

Não sei dizer o que eu vi naquele homem. Apenas sei que foi a partir daquele momento que acho que algo nasceu no meu coração. E que só cresceria, dia após dia.

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