segunda-feira, 1 de maio de 2017

Amber #48 - Nós somos a América.

“Vamos então fazer do jeito difícil”, disse Saldaña depois de levar Schultz até uma sala.

Schultz estava amarrado em uma tábua inclinada, com seu tronco inclinado pra baixo, de modo que sua cabeça ficou no ângulo mais baixo. A sala era escura, tão parcamente iluminada quanto a anterior. Era claramente uma espécie de setor de tortura do local, pois era possível ouvir gritos horrendos e palavras inaudíveis gritadas em chinês vindas do corredor. No mínimo mais uma pessoa estava sendo torturada ali.

“Ei, latino! Corta essa, não tenho nada pra fazer aqui. Me libera logo que eu tenho coisa pra fazer, já te disse tudo o que tinha pra dizer, beleza?”, disse Schultz, tentando negociar.

Saldaña virou e jogou uma toalha em cima do rosto de Schultz. Naquele momento ele pressentiu exatamente o que iria acontecer.

Saldaña jogou água na toalha, a encharcando. Gotas de água passavam pela toalha e entravam nas narinas de Schultz, ardendo muito e dificultando a respiração. Por mais que abrisse a boca para puxar mais ar, era difícil, pois a água bloqueava a entrada do ar, e respirar pelo nariz era algo impraticável.

“Puta merda!”, gritou Schultz, entre os gritos da dor da tortura, “Isso não é ilegal no seu país? Aquele cadeirante que manda em vocês não vai gostar nem um pouco de saber disso!”.

Mais um balde de água foi despejado, e a dor que havia aliviado minimamente voltou com tudo, até mais forte. A dor era similar aquela de quando entramos na piscina e entra água em nosso nariz. Só que era uma dor sistemática, uma vez que era usada como ferramenta de tortura.

O “cadeirante” que Schultz se referia era Franklin D. Roosevelt, o atual presidente americano, que sofria de deficiência física pois havia contraído poliomielite em 1921. Porém já naquela época estava caminhando para ser um dos mais importantes presidentes da história norte-americana, e um símbolo muito forte de alguém que apesar de todas as dificuldades, havia tirado o país da calamitosa crise de 1929, e levaria os Estados Unidos a serem um dos vencedores da Segunda Guerra Mundial.

Mas que merda! Que dor!! Porque caralhos esse cara tá fazendo isso? Não é possível que ele não acredite! Não vim pra causar nenhuma confusão com americano nenhum aqui, apenas levar aquela coreana de volta pra casa, ora bolas!, pensou Schultz, mas nesse momento mais um balde de água foi despejado, mas talvez por conta do ângulo que foi jogado, Schultz sentiu que a toalha ia escorregando.

Então a toalha escorregou do rosto de Schultz, bem na hora que Saldaña virou-se, carregando mais um balde. Os olhares dos dois se encontraram, e Schultz viu que a expressão de Saldaña era plácida e calma. Ele não estava sorrindo, menos ainda se divertindo. Não estava com uma expressão de fúria, ou algo do gênero. Seu rosto estava completamente neutro. O que isso significava?

“Ei, americano, isso tudo não faz sentido. Nem mesmo perguntas você me fez. Torturas servem pra isso, sabia? Pra se descobrir alg...”, nessa hora Schultz soprou forte o ar pra fora do nariz, tentando tirar um pouco de água, que ardia muito, “...Puta merda, que dor do cacete! Argh... Enfim, você não tá fazendo isso pra descobrir algo. Está fazendo simplesmente porque sou um alemão e você crê que eu sou um nazista. Você deve ter algum problema mesmo!”.

Saldaña, ainda com o balde na mão e encarando Schultz deitado ali, enfim decidiu dizer alguma coisa.

“E qual seria nosso problema, alemão?”, perguntou gentilmente Saldaña.

“Não adianta eu falar mil vezes que não apoio Hitler. Você vai continuar fazendo isso apenas por eu ser alemão. Se liga, cara! Seus inimigos, e meus também, são os que estão a quilômetros daqui, na Alemanha!”, nessa hora Schultz de novo deu uma expirada forte com o nariz pra aliviar a dor, “Minha nossa, como isso arde! Portanto, me tira logo daqui! Isso não faz sentido!”

Saldaña jogou o pano de novo no rosto de Schultz e despejou novamente um balde no seu rosto.

“Ah, qual é a sua, cara?!”, gritou Schultz antes da água cair na toalha. Depois que a água parou, enquanto ouvia Saldaña enchendo mais um balde, Schultz no meio da dificuldade de respirar tentou soltar algumas palavras: “Vocês se enchem de orgulho dizendo que jogam de maneira ética, que são os corretos, defensores da democracia, que querem libertar o mundo, mas olha só! Praticando tortura, e o pior, sem nenhum motivo!”

Saldaña parou então com o balde em mãos na frente de Schultz.

“Senhor Schultz, ouça bem. Nós somos a democracia! Nós somos a liberdade! Não existe meios errados, imorais, ou antiéticos quando nosso objetivo é tão nobre!”, iniciou Saldaña, fazendo uma pausa, “Execuções e assassinatos são o que nazistas fazem. Nós quando matamos os outros estamos eliminando o mal do mundo”.

Nessa hora Saldaña despejou o balde no rosto de Schultz.

“Tortura são o que comunistas fazem. Nós buscamos informações para manter o mundo seguro”, disse Saldaña.

Nessa hora Schultz ouviu um grito feminino vindo do outro lado da porta. Pareciam estar torturando uma mulher. Ou algo até pior. Schultz ficou completamente chocado quando ouviu um segundo grito feminino, e julgou que conhecia aquela voz.

Essa voz... Eunmi!, pensou Schultz, que pela primeira vez ficou desesperado. Ele tinha treinamento para lidar com a tortura, mas a menina era apenas uma civil comum. Com certeza ela não aguentaria muito tempo. E Schultz sentiu o desespero tomando conta dele pela primeira vez, desde que a tortura começou.

“Estupros são o que os japoneses fazem. Nós apenas estamos dando uma aliviada no estresse depois da batalha, afinal elas não são mulheres. São apenas um pedaço de carne, que valem menos que animais”, disse Saldaña, sem deboche, frio e normal, como se isso fosse o curso correto das coisas na mente dele.

“Nós somos a justiça do mundo. Nós somos a América. Nós que acabamos com o fascismo e o comunismo. Nós derrubamos ditaduras e levamos a democracia. Por termos esse objetivo nobre, qualquer meio para chegar nesse objetivo é correto”, disse Saldaña, “Será que agora você entendeu?”.

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