sexta-feira, 19 de maio de 2017

Amber #53 - Passaporte para a liberdade.

Eram aqueles monstros. Schultz não tinha dúvidas quanto a isso. A questão era se valeria a pena contar para Saldaña o que ele sabia ou se deveria mentir. Schultz pensou rápido, e achou uma opção.

“Não sei. Não os conheço”, mentiu Schultz, com seu talento para interrogatório, “Estavam em território chinês?”.

Saldaña olhava pra Schultz tentando ler a linguagem corporal do alemão. Se aquilo era uma mentira, esse era o jeito de descobrir. Schultz percebeu que o americano observava cada detalhe do seu rosto, pra onde seus olhos iam, o tom da voz, e tinha certeza de que estava sendo completamente analisado silenciosamente por Saldaña. Ele não era um amador, com certeza.

“Sim. Estavam em território chinês sim. Bom, pra alguém que caiu praticamente de paraquedas aqui nesse fim de mundo como você, talvez realmente não saiba”, disse Saldaña, guardando as fotos de volta, “Mas  acho que você ainda me pode ser útil”.

Schultz nessa hora ficou apreensivo. A fala de Saldaña só o levava a pensar em uma coisa:

“Não acredito, você quer que eu vá atrás desses aí? Isso é suicídio!”, disse Schultz.

“Ei, você não vai sozinho. Pode levar aquela asiática bonitinha. E mais uns dois soldados de minha confiança pra ficarem de olho em vocês, só pra ter certeza que não vão fugir. Você pode ir todo o caminho pro norte até Keijou, e levar a menina. O que quero apenas é que se você encontrar esses aí, que traga informações sobre, se sobreviver, é claro”, disse Saldaña.

“Alguém sobreviveu ao ataque deles?”, perguntou Schultz.

Nessa hora Saldaña olhou pra cima, como se buscasse na memória, até de forma irônica pra provocar Schultz.

“Acho que entre os pelotões, talvez uns dois ou três”, disse Saldaña.

“Três pelotões inteiros?”, perguntou Schultz.

“Não. Três ou duas pessoas”, disse Saldaña, com um risinho no final, “E então, vai topar? Tem um carro te esperando, prontinho, estacionado no final desse corredor. Meus soldados sabem locais para reabastecer, acho que em uma semana ou duas você chega lá, indo pelo litoral”, Saldaña pegou a foto que tinha a marcação de algo em chinês atrás e copiou em outro papel aquilo o mais próximo possível, entregando a Schultz, “Esse é o nome do chinês que fotografou. Fica com isso no seu bolso. Pode ser uma pista”.

Schultz nessa hora ficou calado, pensando. Era suicídio caçar aqueles monstros de Guernica. E também seria extremamente difícil sobreviver com dois homens de confiança de Saldaña juntos, prontos para disparar na sua cabeça ao sinal do menor deslize. Mas no fundo sua maior preocupação era Eunmi. Já fazia minutos que não ouvia nenhum grito, nem nada, por conta da porta estar trancada. Schultz estava preocupado com a menina.

“Por mim, eu topo. Mas preciso falar com a Eunmi antes”, disse Schultz, aceitando o acordo.

“Eun-o-quê? Tá falando aquela asiática? Sem chance, quem dá as regras aqui sou eu. Só vai vê-la na hora que estiver partindo. Antes não”, disse Saldaña, temeroso de que ambos tramassem algo antes.

Agora era hora de Schultz fazer uma última verificação. Balançou a cabeça e ficou pálido, como se estivesse confuso. Começou a suar frio, olhando pra baixo, desesperado de certa forma:

“Ich muss nur eine Vereinbarung mit ihr machen”, disse Schultz em alemão, algo como: preciso fazer um acordo com ela antes. Era uma pura e simples atuação, ele não estava transtornado. Seu objetivo era ver se Saldaña sabia falar alemão, e o rosto dele ao ouvir a frase em alemão era de alguém totalmente confuso, sem entender nada.

“Peraí, o que caralhos você diss-“.

“Ah, desculpa”, Schultz agiu como se estivesse confuso, tentando recuperar o fio da meada, “Fiquei pensando acabei trocando as línguas, esqueci que com você é apenas em inglês. Eu disse que seria difícil convencê-la, porque ela veio com um objetivo muito bem firmado”, mentiu Schultz, em inglês.

Nessa hora Saldaña agarrou Schultz pela camisa, como se estivesse perdendo a paciência.

“Ela é uma mulher. Ela tem que é te obedecer, sem questionar. Não vai falar com ela e ponto final, alemão”, disse Saldaña. Schultz ainda não estava recuperado e tomou um susto ao ver a força de Saldaña, o segurando pelo pescoço. Ainda com a mão de Saldaña segurando-o firmemente Schultz tentou prosseguir.

“Mas é exatamente por isso! Se eu convencê-la a vir sem problemas não vai ser um estorvo na viagem! E ela confia apenas em mim! Você não tem noção, ela é muito esperta, vai achar que eu tô do lado de vocês e vai fugir na primeira curva da estrada! E vocês precisam dela pra encontrar o tal Miura, não?”, disse Schultz, ainda com dificuldades de tentar tirar as mãos de Saldaña do seu colarinho.

Mas Saldaña viu que não havia opção. Fazia sentido. Então soltou Schultz, que se ergueu. Logo após Saldaña abriu a porta.

“Ela está ali logo ali, cruzando o corredor. E nem pense em fugir. Vamos logo”, disse Saldaña, chamando Schultz.

O local onde Eunmi estava era extremamente perto. Apenas dois ou três metros da sua sala, poucos passos os separavam. Seguindo o americano calmamente, Schultz observou Saldaña abrindo a porta de onde Eunmi estava. Na hora que a porta se abriu viu Eunmi, no canto da sala, encostada entre duas paredes. Ela estava envolta por apenas um pano branco sujo, protegendo seu corpo da nudez.

Seus olhos estavam olhando o nada, como se a mente dela estivesse longe. Parecia estar em choque, fora de si. Fixados, sem nem ao menos piscar. Schultz não sabia o que dizer naquele momento. Na verdade tudo o que ele queria era voltar no passado e apagar todas as memórias das últimas horas. Mas isso era impossível. Ele já havia visto muitas atrocidades na vida, mas aquela era uma que o havia deixado profundamente transtornado. Uma jovem, que não tinha culpa nenhuma de nada, brutalmente abusada por homens sem Schultz poder defende-la.

“Schultz?”, disse Eunmi, em alemão, dando até um fraco sorriso ao ver seu amigo, “Schultz, é você mesmo? Minha nossa, como é bom te ver”, Eunmi parecia ver um fio de esperança ao ver seu amigo, “Vamos embora? Por favor, me diga que vamos!”.

Saldaña permaneceu na porta. Por mais que ele tentasse entender algo que os dois falavam, não entendia absolutamente nada. Ambos estavam falando em alemão.

“Ei, não dá pra falar inglês não?”, perguntou Saldaña.

“Ela só fala alemão e coreano”, respondeu Schultz para Saldaña em inglês, “Mas pode deixar que vou convencê-la rapidinho. Me dê uns dois minutos”.

Schultz se virou pra Eunmi, falando em alemão.

“Eunmi, me escuta bem. Eu tenho um plano pra sairmos daqui, mas eu preciso que você me ouça bem”, disse Schultz, em alemão, entregando para Eunmi discretamente uma pequena lâmina que ele escondia no seu sapato, em caso de necessidade, “O plano é o seguinte...”

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03h20

Schultz no seu cativeiro não conseguia dormir. Será que Eunmi conseguiria levar o plano a cabo? De acordo com Saldaña em um ou dois dias os oficiais que ele confiava chegariam em Hong Kong e eles sairiam de lá escoltados até a Coréia. Não havia margem para erros. Ou Eunmi conseguiria se livrar dos soldados com a lâmina ou não conseguiria. O jeito era confiar na habilidade da coreana em conseguir sair de lá.

Então Schultz ouviu o barulho de uma porta se abrindo, vindo do corredor. Toda vez que ele ouvia isso seu coração palpitava. Nunca dava pra saber quem era do outro lado. Se era Saldaña ou Eunmi.

Entregando a lâmina pra ela, Schultz sabia que poderia usar a raiva da menina em algo produtivo. Ele sabia que aquele batalhão de homens iriam praticamente fazer revezamento de abusos contra ela durante a noite. Era só questão de aguardar, fazer bom uso da lâmina, e sair calmamente pela porta.

A porta do seu cativeiro estava se abrindo, não havia luz do outro lado. Uma brisa suave entrou na sala, o arrepiando. Não havia barulho, não havia luz, não havia nada no meio daquela madrugada. Seu coração disparou. Poderia ser Eunmi, poderia ser Saldaña, ou algum outro americano psicótico.

“Ei, vamos logo!”, disse Eunmi, baixinho, chamando Schultz.

Aquele era o passaporte para eles saírem dali.

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