As dificuldades de desconstruir o machismo.

 

Tenho um medo genuíno de escrever algo sobre dificuldades masculinas e acabar caindo no conteúdo redpill. Mas esse blog acaba sendo um local pessoal de desabafos, então o texto a seguir vai para homens que andam tentando se desconstruir, entendendo que o mundo de hoje não cabe mais o machismo de décadas anteriores, e se esse texto de alguma maneira encontrar alguém que está passando por isso, envio aqui minha profunda solidariedade e encorajamento.

Antes de qualquer coisa quero ressaltar que sim, o movimento redpill é apenas um movimento de um monte de homem frustrado, que se reúnem para ridicularizar mulheres, e promover todo tipo de misoginia. E isso acredito que muitos homens têm profunda noção que é um negócio completamente errado e abominável. Dado o aviso, vamos prosseguir.

Existem muitos homens que nasceram num lar feminista. Um privilégio imenso você ter pais que ensinam respeito e admiração às mulheres, que não promovem sexualização, comportamentos machistas, ou de valores do patriarcado, como homens sendo obrigados a sustentarem sozinhos, pois se não tiverem sucesso, uma carreira sólida, não passam de pesos na sociedade moderna.

Mas existem muitos, assim como eu, que cresceram num lar extremamente machista. Que teve eventualmente um pai que te cobrava ter trocentas namoradas, que mesmo você não sendo gay vivia te ofendendo dizendo que você era homossexual por não ser esse "pegador nato". Ou mesmo que eventualmente teve uma mãe que desde sempre aprendeu que tinha que baixar a cabeça pro marido, e fez com que os filhos também baixassem a cabeça para esse pai, aceitando todo comportamento nocivo que esse fizesse sem questionar.

Homens que quando jovens o pai não conversava com você, pois tudo o que queria era ter o domínio dos pensamentos, valores e comportamentos de maneira irrestrita do filho. Ou então que tinham um pai que não aceitava que poderia outro homem lhe tomar o lugar, lhe superar, por isso infligia todo tipo de trauma contra esse filho, desde ameaçar que o iria expulsar de casa, até te forçar torcer pro mesmo time de futebol que ele.

O machismo não é apenas um comportamento que mira mulheres. O machismo é um sintoma maior do patriarcado: que é o domínio sistêmico de um macho sobre os outros, por meio da violência, ofensas, humilhações, tortura, e tudo isso para que a estrutura de seu poder se mantenha inalterada. Homens também são vítimas do machismo, e é sobre isso que eu gostaria de tratar aqui.

Se a pessoa, mesmo vivendo esse mundo, quiser continuar nessa esfera, provavelmente ficará. Apenas será mais um elo dessa corrente, repetindo tudo aquilo que ele via que seu pai fazia. Mas muitas vezes não é culpa dele. Como foi o único padrão de comportamento que viu na vida — afinal, teoricamente, só temos uma família por pessoa — acha que o mundo é daquele jeito mesmo e ponto final.

Isso é muito cômodo. É a forma mais tranquila de se viver. Por isso há tanto conteúdo redpill por aí: são pessoas que não se questionam um único momento, incapazes de ouvir o clamor por mudança das mulheres, não querem ver que a sociedade mudou, e isso tudo tem um motivo:

Mudar é um negócio dolorido. Dolorido pra um cacete.

Vou dar um exemplo: meu pai sempre foi uma pessoa agressiva. E quando estávamos doentes, por exemplo, ele gritava e brigava muito com a gente. Dizia que éramos filhos mal criados, pois tomávamos coca-cola gelada e sorvete sem tomar um copo d'água antes — meu pai até hoje tem a crença de que, uma vez que a doença se chama "resfriado" é porque a contaminação acontece através do frio. E não porque alguém tossiu um monte de micro gotículas de saliva infectadas nas nossas mucosas. Como se brigar com a gente por ficar doente não fosse algo que piorasse muito nossa recuperação, ele ainda fazia isso dizendo que era tudo por amor.

E isso, como era a maneira que fui criado, apenas replicava. Afinal, aquilo era amor, não é mesmo? Foi quando uma menina foi bem sincera comigo e me disse que esse comportamento — de brigar com quem se ama — não é amor nem aqui e nem em Júpiter. Que isso machuca as pessoas, que isso era algo que eu deveria repensar, pois era um comportamento tóxico que tinha.

Se eu talvez estivesse imerso num mundo de valores redpill provavelmente nesse momento eu me isolaria dentro de mim, dizendo que foda-se o mundo, meu nome não é Raimundo. Seria a coisa mais fácil, eu cortaria laços com essa garota, e acharia alguma mulher que não se incomodasse com isso.

Mas foi através desse (e tantos outros exemplos que poderia citar aqui) que me veio o estalo de que essa crítica que ela me fez poderia ser um agente de mudança. Que não me levaria a lugar algum repetir os comportamentos tóxicos que eu havia sido criado. Que eu deveria olhar para mim mesmo, encontrar esses erros, e tentar mudar.

O problema é que isso é muito fácil na teoria. Mas imensamente difícil na prática.

Por isso se você, homem, dado às suas circunstâncias pessoas, está também nesse momento encruzilhada de tentar se desconstruir, querendo ser um homem melhor não apenas para suas parceiras, mas para a sociedade em si, eu te encorajo a, por mais que isso seja doloroso, tentar encarar essa mudança.

É muito difícil você mudar um comportamento. Comportamentos são também parte da nossa personalidade. E quando tentamos mudar algo assim requer atenção, dedicação, mas acima de tudo aceitar que vamos errar, e cometer o erro que mais temíamos muitas e muitas vezes até a gente aprender.

Errar NUNCA será o problema. A questão é o que você FAZ DEPOIS DO ERRO. Uma pessoa redpill depois do erro, mesmo sendo apontado por alguém, ignoraria isso e se manteria num pedestal de egocentrismo, culpando sempre o outro, inferiorizando, ou relativizando tudo.

Mas uma pessoa que genuinamente quer mudar, ao cometer um erro durante essa mudança, vai apontar o dedo para si mesmo. E vai pedir sinceras desculpas a quem ofendeu. E promete que vai se policiar para que isso nunca mais aconteça.

Vou dar um exemplo: lembro de uma vez estar andando com uma amiga na rua, e eu comentei com ela que eu me perdia quando me davam instruções para ir de um endereço ao outro. E disse algo como: "Comigo quando me dão instruções para chegar num lugar, não funciona dizer pra andar cem metros e virar à direita. Tem que ser que nem mulher, tem que falar pra andar até encontrar uma casa na cor tal e virar ali".

Minha amiga me deu um puxão de orelha (corretíssima), e pedi desculpas. Mas esse episódio me fez refletir e encontrar na minha cabeça qual a origem desse pensamento: e lembrei que, tanto por parte do meu pai, que dizia que as mulheres eram todas burras e inúteis, quanto pela minha mãe que dizia preferir ser bonita e burra do que inteligente e feia, ambos fixaram, mesmo que no meu inconsciente, que mulheres são inferiores em questão de inteligência.

Mesmo eu, até mesmo naquela época, sendo um admirador da inteligência e superioridade feminina em tudo o que um homem tenta fazer, tendo noção do quão machista é dizer que toda mulher é burra naturalmente, mesmo tendo todo tipo de preconceito desse tipo aparentemente eliminado, eu ainda acabei falando uma asneira dessas. Algo que hoje, depois do episódio, sei que me esforçarei para evitar de repetir.

Perceba que esse tipo de comentário infelizmente foi no automático. Foi o jeito que eu fui criado. Foi o tipo de valor que meu foi passado desde criança. Algo que pensei que era nada demais, mas sim, era problemático. Mas que hoje eu quero mudar. Quero extinguir o machismo que meus pais, meu avós, e todas as gerações anteriores não conseguiram fazer.

Só que ninguém avisou que errar é dolorido. E sim, virão julgamentos e ataques. E quando alguma mulher numa rede social apontar um comportamento machista, a gente vai sentir que isso é pra gente. E mesmo que seja, é muito difícil não querer se jogar de uma ponte ao perceber o quão difícil é esse processo. A gente se frustra, a gente se sente o pior homem do planeta Terra. A gente acha que nunca vai conseguir mudar, e que não há ninguém para nos acolher, apenas para apontarem o dedo pra gente.

Mas falando bem sério: não se jogue da ponte.

Pois aos poucos, mudando comportamentos e valores, existe algo muito melhor lá na frente que vamos colher. Não se trata apenas do mundo que vamos deixar para as gerações seguintes, mas de construir um mundo melhor para as pessoas ao nosso redor hoje.

E para fazer isso acontecer, algumas dicas são fundamentais: parar de achar que mulheres são apenas objetos para uma satisfação amorosa/sexual. Comece tendo amigas mesmo, sem nenhum interesse amoroso. Perceba que elogiar apenas a beleza não é algo legal. Repare nos hobbies, nos comportamentos, admire sua inteligência.

Eu sempre tive amigas mulheres. Isso obviamente não afetou em nada minha atração por elas. Mas é necessário entender que mesmo que uma relação amorosa dê eventualmente frutos com alguma amiga, isso aconteceu pois antes de tudo você foi um amigo genuíno dela. Você esteve lá para ouvir, dar risadas, contar coisas sobre seu dia, assim como você faz com qualquer outra. Quando eventualmente estou interessado em ter algo a mais, não vejo motivos para externar isso para uma amiga. Comigo nunca deu certo, mas esse post não é sobre meu azar no amor. O facto é que com quase todo mundo dá certo. Uma coisa sempre leva à outra, e quanto mais sinceridade você oferecer, mais certa será a recompensa.

Leia livros de autoras mulheres, assista séries e filmes sobre vidas de mulheres, até chegar no nível que você estude sobre o feminismo, seja por conteúdos de influenciadores da área, ou até publicações. Isso tudo não é apenas por repertório, mas você deve criar uma sincera admiração pelas mulheres pelo que elas são: inteligentes, independentes, esforçadas, profissionais, afetuosas, e outros adjetivos que não se refiram à aparência física delas.

Vão existir alguns babacas que eventualmente vão dizer que isso tudo é comportamento de uma pessoa gay. É uma das coisas que eu pessoalmente mais ouço, tem muitos caras que adoram supor que eu sou homossexual. Mas aprendi a não ligar para isso: a única pessoa pra quem devo satisfação da minha sexualidade é minha namorada.

O mais importante é ter noção que, em tempos de redes sociais, devemos saber colocar limites na nossa privacidade. É óbvio que eu, por me sentir atraído por mulheres, vou naturalmente apreciar a beleza delas. Se uma mulher bonita passa na minha frente, eu acabo olhando sua beleza, é o que me atrai, seja amorosamente ou sexualmente. Sim, meu algoritmo nas redes sociais sabe que eu gosto de assistir, por exemplo, alguma mulher atraente de biquini fazendo alguma dancinha no Tiktok.

O importante aqui é saber separar as coisas: eu posso achar uma mulher atraente, mas não há motivos para externar isso. Guarde para você essa atração. Quando você externa, você está mais uma vez objetificando elas apenas como um pedaço de carne para você se satisfazer, e esse discurso acaba encontrando outros caras frustrados que replicam isso, é como jogar merda no ventilador.

Eu me sinto atraído pela beleza e corpo das mulheres. Mas no momento que eu as estou conhecendo tento pensar: o que ela é além disso? E descubro que são inteligentes, inspiradoras, que superaram inúmeras coisas, que possuem gostos similares, e nasce aí algo muito mais profundo e inabalável, seja através de uma amizade sincera, ou uma relação amorosa que evolui disso.

O legal é quando a gente começa a colher os frutos dessa mudança, depois de muito apontarmos o dedo para nós mesmos, nos policiarmos e aprendermos a pedir desculpas. Vou dar um exemplo:

Ano passado minha cachorrinha Meg teve um tumor no seu pé, e sem querer minha mãe acabou pisando nesse pé dela, abrindo uma ferida que sangrou muito. A reação do meu pai foi brigar com ela, gritar, mandar olhares fuzilando e julgando ela. Outro comportamento tóxico que, na cabeça dele, é o suprassumo do seu amor incondicional (só na cabeça dele, óbvio).

Eu estava no meu quarto e não vi o ocorrido. Minha mãe me chamou desesperada, gritando. E, embora eu tivesse tido essa mesma criação de apontar o dedo e criticar, naquele momento eu vi uma mulher desesperada, em prantos, segurando uma cachorrinha sangrando pela pata, e a primeira coisa que eu disse quando ela me explicou o que aconteceu foi: "Tudo bem, isso acontece, vamos passar uma pomada pra estancar o sangramento e vai ficar tudo bem. Fica tranquila, a cachorrinha está bem". A Meg eventualmente se recuperou, minha mãe se acalmou, e tudo deu certo.

São momentos assim, com esses tipos de insight, que me dão a certeza de que apesar de toda a dor que uma desconstrução exige, ainda vale a pena o esforço. Mesmo com a certeza de que ainda me falta muito pela frente, e tenho muito a crescer ainda.

Comentários

  1. Seu texto é muito verdadeiro, existe muitas familias como a sua e depois de tanto tempo ter a disposição de crescer como ser humano, já é uma vitória.Seu esforço para se livrar dessas cicatrizes é inspirador,meu desejo que continue assim sempre.

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