Como você descobriu o que era sexo?

Quando meu pai viajou para Barcelona quando eu era criança, uma das coisas que ele trouxe (que, obviamente ele escondia embaixo do colchão pra eu não ver) foi uma revista da Private, uma famosa revista para o público adulto que existe até hoje. Eu devia ter uns dez anos quando a abri pela primeira vez, e foi ali que entendi o que era sexo, haha! Essa é uma história engraçada que vou compartilhar aqui.

Eu sempre quis saber como foi que outras pessoas descobriram o que era sexo. É o tipo de coisa que a gente descobre quando se é criança — ou pelo menos deveria ser assim. Talvez seja aquele momento bem na nossa fase de descobertas, ali na época da puberdade, e a minha é no mínimo curiosa. Já compartilhei uma vez com minha psicóloga e rendeu boas risadas na sessão!

A inocência que eu tinha era algo fora do comum. Curioso que eu sempre gostei de assistir filmes de James Bond, e mesmo ele tendo a fama de ser um personagem muito sexual, as cenas de sexo são sempre sutis: era sempre o casal se beijando, deitavam na cama, a câmera dava um fade para a próxima cena, e lá estavam os dois sem roupas, cobertos pelo lençol, e só.

Para mim inicialmente o que eles faziam eram apenas se beijar sem roupa. Não conseguia, por exemplo, conceber o que seria penetração, ejaculação, e orgasmo.

Desde criança sempre me senti atraído pelo sexo oposto. Quando meus pais não estavam em casa eu tinha o costume de pegar no esconderijo do meu pai as edições da Playboy que ele tinha e ficar vendo aquilo e gostar muito. Eu era completamente apaixonado pela Débora Secco e por uma tal de Débora Stroligo, que era uma dublê de corpo das novelas da Globo. Tanto que lá nos idos do tempo que a internet era só mato, e a gente não revelava nem mesmo nossos nomes verdadeiros, um dos nomes que eu usava "Stroligo", como um nick na internet, justamente em homenagem à tal Débora Stroligo.

Mas tudo o que eu sabia fazer era isso. Ver, sentir a excitação, ter uma ereção, achar aquilo gostoso, mas sem fazer nada em específico ainda, como me masturbar. Por mais que eu visse ali a vagina das famosas, pra mim aquilo era apenas um negócio para se fazer xixi — não um negócio que eu deveria usar meu pênis para penetrar, por exemplo.

Porém, toda vez que eu pegava emprestado as revistas playboys, tinha uma revista pequena ali que sempre me chamava a atenção. Não havia nenhuma famosa na capa, apenas escrito Private bem grande, e uma mulher loira com os seios à mostra vestindo apenas um quepe da marinha:

 

Eu olhava pra essa mulher loira, com os seios à mostra, e nem tinha ideia do conteúdo que tinha lá. Mas como ela não era famosa, ia adiando o dia que iria vasculhar o que era aquela revista. Mas com o tempo fui enjoando de ver as mesmas playboys, e parti para matar minha curiosidade. E tudo mudou desde então, hahaha!

A revista Private não é uma revista de nudez feminino. É uma revista de sexo explícito. Não sei como é hoje em dia, ou se ainda existe, mas na revista sempre tem uma historinha, onde um dos personagens dá uma indireta, e todos começam ali a transar. Não é um roteiro nada elaborado elaborado, é uma revista erótica que está lá para suprir uma necessidade rápida como qualquer outra.

O que eu achava engraçado era que as modelos sempre tiravam uma foto com um sorriso aberto, desses dignos de serem postado em redes sociais, segurando um cacetão duro na mão. Pelo menos nessas edições ali de meados da década de noventa era assim:

E ali eu, criança, descobri o que era sexo. Eu já havia tido aulas de ciências na escola que falavam sobre as mudanças do nosso corpo antes. Que iriam aparecer pelos, a voz iria engrossar, ganharíamos musculatura, e o pênis ganharia tamanho. As professoras também tinham um cuidado especial com as meninas, explicando que em breve teriam a primeira menstruação, e lembro de uma vez perguntar se a tal "ejaculação" dos meninos era algo parecido com a menstruação das meninas. Eu realmente não conseguia conceber nada, hahaha.

Mas o assunto sempre me fascinou. Pensar que eu estaria prestes a viver aquilo tudo, que um dia eu experimentaria sexo, teria uma namorada, aquilo parecia olhar para frente na vida imaginando o tanto de coisa que mudaria em um curto espaço de tempo.

Não sei se outras pessoas quando criança e descobriram sobre as mudanças que nosso corpo nutriam essa mesma curiosidade e fascínio pelo que estava por vir. Que em breve eu olharia para as meninas com outros olhos, que haveriam alguns que já iria experimentar ter uma relação, e que nossos corpos chegariam na maturidade em um espaço de tempo tão curto e intenso.

Curiosamente para mim, apesar de sempre ter vontade, as coisas demorariam muito. Enquanto meus colegas com sete ou oito anos já tinham dado o primeiro beijo, eu só fui dar o meu primeiro beijo com catorze. E sexo, que geral já estava fazendo com seus 14 ou 15 anos, eu só fui fazer depois dos vinte.

Depois que abri a Private 129 pela primeira vez enfim tudo aquilo que ninguém queria me falar enfim fez sentido. Todos os professores falavam dos pêlos e da barba, mas ninguém falava de como era ter uma relação. Entendi que a vagina não era apenas um órgão excretor — na verdade era a menor parte dela ali, onde fica a uretra feminina, o resto era feito pra sexo — e comecei na época a me tocar.

Como eu entendia que era para o pênis ser inserido, pensei comigo: "Será que se eu simular esse movimento que os caras fazem dentro da mulher, tirando e colocando, vou sentir algo parecido?", e assim eu me masturbei pela primeira vez, acho que eu devia ter uns dez anos.

Eu era uma criança tão inocente, mas tão inocente, que depois daquela sensação orgástica pela primeira vez sentida, aquele misto de dor e prazer, o frio na barriga e o alívio depois do ato, a única coisa que me veio à cabeça na hora foi: "Será que mais alguém no mundo sabe que dá para se fazer isso?", hahaha. Juro!

E claro, como qualquer moleque, depois dessa injeção de testosterona, não havia outra coisa que eu não sabia fazer. Não deu nem um mês os pelos pubianos começaram a aparecer. Eu lembro de um dia até para testar meus limites decidi me masturbar para saber quantas eu aguentava até passar mal. E lembro que uma vez fiz umas seis vezes, e vi que ali era o meu limite. Coitado de mim, hoje beirando os quarenta se eu consigo uma é muito... hahaha.

Tenho até hoje guardado aqui essa edição da Private, com a capa da Laura, "La Grande Capitanessa". Compartilhei uma vez essa história com minha psicóloga, e foi um dia de muitas risadas, ela achou um negócio curiosíssimo.

A descoberta da nossa sexualidade tem que ser assim, de maneira natural. Nunca deve ser através de um abuso de um adulto, ou algo do gênero. Eu lembro de brincar de médico com outras meninas da minha idade, e isso é um processo natural e basal para que desenvolvamos uma sexualidade saudável ao crescer. É através dessas descobertas do nosso corpo, e do corpo do outro, que vamos significando nosso mundo para irmos passo a passo desenvolvendo de maneira natural nossa educação sexual.

Claro que a informação também é importante — como eu disse, sempre tive professores de ciências que explicavam nas aulas não apenas sobre as mudanças que estavam ocorrendo no nosso corpo e o desejo aflorando por experimentar — e aqui cito também as orientações que recebi sobre ISTs na época, e orientações sobre o uso correto de camisinha, por exemplo. Esse tipo de informação fez com que pelo menos uma grande parte ali fizesse do jeito correto: sem o risco de engravidar ninguém, por exemplo.

Bom, pelo menos pra mim serviu. Serve até hoje.

Não acho que de alguma forma aprender através da pornografia me foi um problema. Eu não sei se outras pessoas também tinham esse nível de inocência que eu tinha também. Uma vez uma amiga me disse que no caso dela era bem óbvio: as meninas tinham um buraco, e os meninos um pinto, logo um devia entrar no outro. Mas pra mim isso não fazia sentido algum, pois como eu disse acima, pra mim a vagina era apenas para se fazer xixi.

Nesse momento eu penso em como, por conta da estrutura machista da nossa sociedade, se fala muito mais de pênis do que de vaginas. Existem até festivais, como aquele do Kanamara Matsuri, onde existem trocentas figuras de falos, os imbuindo essa imagem de serem a figura máxima da fertilidade, quando a fertilidade não se dá pelo pênis sozinho — e não existe nenhum festival similar a esse em tributo à vulva como símbolo de fertilidade.

Acho que era por isso que a relação sexual nunca foi algo óbvio para mim. Não conseguia associar uma coisa à outra.

Ao mesmo tempo existe uma cultura individualista entre meninos muito grande. Homens não se ajudam, e se você conquista alguma coisa — como, por exemplo, a maneira com a qual você usa para paquerar garotas que nunca falha — ninguém sai por aí falando aos sete ventos como faz. Compartilhar suas táticas de conquista é como perder um segredo que você guarda a sete chaves, nenhum homem fala sobre. A pessoa desenvolveu aquilo, os outros que se virem. Idem sexo. Talvez até houvessem outras crianças na minha época que soubessem tudo sobre como era o intercurso sexual, mas a ganância de se ter uma informação era tão grande que entre os meninos (e posteriormente entre homens também) que ela vira uma ferramenta de poder e de opressão de certa forma.

Eu comentei sobre isso quando achei no computador do trabalho o e-mail aberto de um ex-funcionário, e lá eu via todo o léro-léro que ele jogava para conseguir levar a amante pra cama. Sim, ele tinha uma namorada, e eu ficava lendo toda a conversa picante que ele tinha com uma amante.

Até hoje fico pensando se alguém mais teve uma jornada tão curiosa ao descobrir o que era sexo como eu. Devem ter boas histórias por aí, com certeza!

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