A garrafa que meu irmão presenteou.

Desci para a sala para cumprimentar meu irmão, e vi na mesa de centro uma garrafa de cachaça fora da caixa, e meu irmão me encarando com um sorriso amarelo. Ao ver a garrafa de pinga ali o encarei de volta enfurecido, falando: "Não acredito que você trouxe uma garrafa de cachaça!", e ele ficou quieto. Eu queria morrer ali.

Eu quero pensar que meu irmão fez isso na inocência. Mas sinceramente não sei.

Ás vezes penso que meu irmão, por nunca ter sido alvo da cólera do meu pai como eu fui, achar que era divertido ver aquele homem todo dia ao chegar do trabalho, mal cumprimentar os filhos, e ir correndo para o bar todo santo dia. O velho chegando praticamente todo dia alterado, não apenas pela ingestão de álcool, sem autocontrole nenhum por conta do estresse me ter sempre como seu alvo.

Aquele homem que a vida inteira dizia que eu era viado. Que dizia que eu nunca devia ter nascido, pois eu ter nascido nunca o deixou aproveitar a vida de solteiro. Que dizia que eu tinha tetas igual uma mulher. Que eu era gordo. E as inúmeras vezes que ele, "de brincadeira", dizia que iria me expulsar de casa, me fazendo a vida inteira achar que essa família nunca era a minha, que ninguém aqui em casa me defendia, que achavam engraçado uma criança de cinco ou seis anos ter que se defender de um adulto com mais de trinta enfurecido com ela por motivos que até hoje eu tento entender o que eu fiz — além de ter nascido.

Existem dois tipos de pessoas bêbadas: as que ficam engraçadas, e as que ficam violentas. Meu pai é desse segundo tipo. Mas meu irmão parece que ignora totalmente quando traz de presente para ele uma garrafa de aguardente.

Eu queria morrer naquele domingo. Só de pensar que agora esse homem, que não consegue fazer nenhuma refeição sem antes beber algo alcoólico antes, agora teria ali em casa uma garrafa para tornar seus domingos ainda mais movidos a cachaça.

Naquele dia eu só almocei, deixei meu prato, e me tranquei no meu quarto, totalmente furioso com aquilo que meu irmão tinha feito. Não é ele que tem que conviver com esse pinguço todos os dias da semana. E agora meu irmão havia facilitado ainda mais para esse drogado ter sua substância no domingo — o único dia que o corno do filho da puta que tem o buteco onde ele bebe todo dia bebe.

Meu pai, como todo alcoólatra, perde o controle muito fácil. Teve um almoço ano passado que ele, depois de muito esbravejar, falar alto, fazer aquelas brincadeiras sem graça e insuportáveis, começou a chorar copiosamente. Tudo o que consigo ver é uma pessoa miserável, uma pessoa viciada igual um crackudo na cracolândia, dependente químico dessa merda chamada cachaça.

Ás vezes imagino como seria minha vida se meu pai nunca fosse alcoólatra. Consigo imaginar um pai amigo, um pai que não chegava todo dia alterado do bar me xingando e me humilhando de todas as formas possíveis. Consigo imaginar um pai que eu pudesse contar com ele, e não um cara que tudo o que descobre sobre mim usa isso para me manipular. Consigo imaginar um pai que faz as coisas pela sinceridade, e não um cara que quando chega bêbado em casa e furioso fica gritando comigo: "Mas eu te fiz isso e aquilo!", destruindo toda a sinceridade de seus atos por jogar na cara tudo o que faz por mim.

Enquanto ele colocava a pinga no copo eu o encarava furioso. Queria que meu irmão entendesse também esse meu sentimento. Que não é brincadeira você dar uma garrafa de bebida para quem tem problemas com bebida. Que não é um presente você dar uma droga para quem já é drogado. Mas talvez para ele meu pai seja exatamente essa mesma imagem que eu tenho: apenas um alcoólatra que nunca tomou jeito na vida.

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