Adeus, Meg


Esse ano tá difícil, viu. Meg, minha cachorrinha, minha irmãzinha, minha bolinha de neve, partiu essa madrugada. Esse é um daqueles dias que a gente se sente completamente destruído, por mais que tente não acreditar, não tem como fugir da verdade.

Quando a Meg partiu entendi o que é a dor da morte. A gente diz temer a morte, mas o que a gente teme mesmo é o abandono. E a morte é exatamente isso. Somos todos sozinhos nesse mundo, onde a coisa mais básica que nos une é estarmos vivos, e compartilharmos da mesma existência. Mas quando alguém morre, deixa essa existência, nos deixa também com essa profunda ausência. A gente se sente sozinho, sem ter mais essa pessoa do nosso lado. E olhar para o lado e ver que minha branquinha não estará mais lá me dá um sentimento de solidão que destroça meu coração.

 

A primeira notícia da chegada da Meg foi em 2011. Estávamos voltando para casa, eu tinha acabado de apresentar meu trabalho final da faculdade, e no carro mesmo meu pai disse que teríamos dentro de pouco tempo uma nova moradora da casa. Ela era um filhotinho cuja dona era uma amiga do meu pai. Como na época gostávamos muito dos Simpsons, lhe batizamos de Meg, pois era nosso bebê.

Eu lembro que ela chorava muito. Aquele choro de cachorro super agudo, que enchia nossa paciência. Não demorou muito para crescer e eleger meu pai como seu amor maior da casa — eu e meu irmão éramos o segundo lugar.

Meg sempre fazia muita bagunça quando a gente chegava, ao ouvir a gente abrindo o portão corria pela casa igual doida, latindo. Dessas recepções eu guardo uma muito especial, de quando voltei depois de um mês fora do país, em 2012, onde ela ficou tão feliz de me rever que pensei até que passaria mal, de tão elétrica que ela ficou. E mesmo com a idade chegando, ela continuava sempre me esperando, talvez nem sempre com a mesma energia de antes, mas sempre com muita presença. 

Por ser albina, ela sempre teve vários probleminhas de saúde. A começar por uma coceira que não passava, que tratávamos com um corticoide. Também era cardíaca, embora que no final da vida descobrimos que o coração dela na verdade estava bom, e não precisava mais tomar aquele medicamento. Vômitos e diarreias comuns para qualquer cachorro da face da Terra. E para ajudá-la na longevidade, éramos bem regrados quanto à alimentação — que nunca foi problema para ela, já que ela comia frango e legumes variados todos apenas cozidos no vapor, sem nenhum tempero, nem sal.

Acho que o maior arrependimento que muitas pessoas têm ao encarar a morte de alguém próximo é o pensamento de: "Eu poderia ter dado mais amor!", mas eu não tenho nenhum tipo de arrependimento com a Meg nesse sentido. Todo dia fazia questão de abraçar, beijar, deixar ela no colo me lambendo, ou nem que fosse deixar ela do meu lado no sofá enquanto eu tomava café-da-manhã. Já fazia uns cinco anos que a veterinária havia dito que ela poderia adoecer e partir, então eu vivia com ela cada dia como se fosse o último, amando ela com toda a minha sinceridade e gratidão.

Há mais ou menos um ano, depois de chegar do banho no petshop, a dona do estabelecimento nos mostrou um caroço, na época bem pequeno, que estava crescendo no dedo dela da pata direita traseira. Ela estava preocupada, e disse que talvez seria necessário fazer uma incisão para cortar aquele caroço. Era um tumor cancerígeno.

E nossa família que, sempre graças a muita proteção, não tínhamos nenhuma experiência do que seria um câncer, submetemos ela à primeira cirurgia. Mal sabíamos naquela época que essa doença é um negócio grave que sempre consegue voltar, nos obrigado a submeter a pobre da Meg a outras três, num total de quatro cirurgias ao longo desse ano. A última foi em meados de janeiro, mas não levou semanas para que o tumor saísse dos dedos da pata e avançasse ao longo da perna dela, subindo.

Nossa ideia não era apenas a cura, mas que ela vivesse bem até o último momento.

E então apelamos para uma assessora mais especializada — o hospital público veterinário. Que embora sempre fôssemos sempre muito bem atendidos, e lá contassem com profissionais extremamente gabaritados, a estrutura do local deixa muito a desejar — nem mesmo medicamos e pomadas para os animais eles tinham lá muitas vezes.

Ficamos ali desde meados de fevereiro realizando diversos exames enquanto o tumor avançava sobre a perna dela a olhos vistos. Mesmo com a fila imensa para cirurgia, conseguimos um encaixe emergencial para ontem, dia 24. A pele dela estava literalmente em carne viva, mesmo todo dia eu e minha mãe fazendo a assepsia e aplicando pomadas sob prescrição médica. A dor era dilacerante, mas Meg sempre encarou bem. Só nessa última semana que começou a realmente passar mal — que coincidiu com o tumor estourar na perna dela, literalmente deixando um pedaço de seu músculo pra fora, como se fosse uma carne morta.

Porém ontem, ela já na mesa de cirurgia, o médico resolveu abortar o procedimento. A pressão dela havia caído muito, e o coração estava fraco. Os rins dela já havia sido alertado que estavam fracos num exame anterior, e acho que esse conjunto de coisas acabou fazendo com que os profissionais hesitassem lá. Apesar do tumor estar isolado, e não ter metástase, a idade avançada, os dias sem fome, tudo isso foram elos da corrente para que ela chegasse em casa literalmente uivando de dor. Nunca vou me esquecer, fiquei desesperado, mas ainda tentei manter a calma e esperançoso, pois os médicos nos deixaram seguros de que ainda havia a chance da amputação da perna acontecer e tudo acabar bem.

Demos analgésicos, ela se acalmou, chegou até a dormir, mas minha mãe que passou a noite toda com ela na cama, foi quem a acolheu no seu último momento, e a viu partir em seus braços.


 

Em 2015 quando perdemos o Beto e o Bidu, lembro de ter chegado na Meg, apontado o dedo pra ela, e quase que ordenado para ela: "É bom que você viva por pelo menos uns quarenta anos pra demorar para que eu passe por isso novamente!". E hoje, quando ela partiu, vejo que dentro das possibilidades dela ela cumpriu sua promessa. Em breve ela faria quinze anos, o que é até mais do que quarenta anos se adaptar contagem de anos para a vida de um cachorro.

Me aperta o coração pensar que não vou mais dar um bom dia pra ela do jeito que ela sempre gostava, falando: "Bom dia minha branquinha, como vai?", ou não receber mais seus beijinhos na boca, ou fazer a comidinha que ela tanto gostava.

Por mais que eu tentasse me preparar para esse momento, eu sempre tive noção de que eu iria chorar muito. Hoje vejo que não tem como se preparar para isso. Meus olhos estão doendo de tanto chorar, e eu daria tudo para ter minha branquinha de novo do meu lado.

Ao mesmo tempo meu coração está repleto de uma gratidão imensa por tudo o que ela nos ofereceu por todos esses anos. Todo cachorro amado é visto pelo seu dono como um animal excepcional, que o nosso amor era único, que não tinha ninguém igual. E mesmo isso sendo uma mentira, pois amor não é algo que se é medido, na minha cabeça tudo o que vivemos com a Meg vai estar não apenas gravado para sempre no meu coração, mas também nas cicatrizes, como da vez que ela mordeu meu nariz, deixando marcado até hoje.

Obrigado por tudo, meu amor. Obrigado por ter topado lutar e ser a guerreira que você sempre foi. Obrigado por todos esses momentos de profundo amor que guardarei para sempre no meu coração. Obrigado por ser essa inspiração. Obrigado por ter existido e colorido nosso mundo todos os dias.

E obrigado, muito obrigado por preencher nosso coração com gratidão por tudo o que vivemos juntos.

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