Livros 2026 #5 - A vegetariana (2014)
E mais uma vez invento de ler um livro de um vencedor do Nobel de literatura, e mais uma vez não acho um mega livro. Como se não bastasse o Nobel da paz ser extremamente questionável, acho que o Nobel de literatura também pode entrar nessa gaveta. Fui com uma mega expectativa e não achei tão bom assim.
Eu já tinha tido um primeiro contato com "A vegetariana" da Han Kang antes: baixei uma amostra no Kindle e achei o começo extremamente promissor. Era narrado por um marido, o Jeong, assalariado comum, sem grandes ambições na vida, que subitamente ouve sua esposa Yeonghye dizer que não irá mais comer carne.
Acontece que essa decisão dela não apenas o pegou de surpresa, como ele também não aceita de forma alguma essa decisão dela. Yeonghye diz que a inspiração para sua decisão veio depois de um sonho que ela teve, um sonho onde ela estava sempre ensanguentada com sangue animal, e sofria muito com isso, fugindo de tudo aquilo em diversos cenários diferentes. E durante o livro outros sonhos também vão acontecendo, piorando ainda mais a relação dela com a carne.
Diferentemente das outras mulheres, a minha não gostava de usar sutiã. No curto e modorrento período em que namoramos, quando percebi a ausência do cós do sutiã ao passar as mãos em suas costas, fiquei levemente excitado. Para ter certeza de que com isso ela queria me mandar algum sinal, eu a observei por um tempo com olhares renovados. Mas percebi que ela não tinha a intenção de me mandar um sinal. Então, por que não usava sutiã? Preguiça? Displicência? Eu não conseguia compreender. Os seios dela não eram lá grande coisa. Nem combinava ficar sem sutiã. Se, em vez disso, ela ao menos usasse sutiãs com bojos generosos, eu teria me sentido melhor quando a apresentava para meus amigos.
Desde o começo do livro uma das coisas que são logo citadas era um detalhe que Jeong gostava de um hábito de sua esposa: o dela não gostar de usar sutiã, e os mamilos sempre ficarem marcados por debaixo da roupa.
Esse detalhe me fez pensar em como isso também é um negócio que me chama a atenção na mulher — e acho que também de muitos homens também. Em como é bonito, e ao mesmo tempo excitante, uma mulher vestida sem sutiã. Quando li isso me senti até um pouco envergonhado de ser tão fiel à essa caricatura de uma autora mulher.
E aparentemente desde o começo isso era algo que tanto excitava Jeong, como também era algo cômodo para a Yeonghye, que detestava usar essa peça de roupa (só usava em ocasiões que não tinha escolha para usá-los, achava muito desconfortável).
Em certas ocasiões cheguei a pensar que não era tão ruim assim viver com uma mulher esquisita. Vivíamos como dois estranhos. Estranhos, não: ela era como uma irma que faz comida e limpa a casa. Ou uma criada mesmo.
Só que conforme a decisão de Yeonghye de se tornar vegetariana não é aceita pelo marido, e também pela sua família durante um almoço com seus pais e irmã, o ato de se alimentar torna-se algo cada vez mais tortuoso para ela. E Yeonghye começa a sofrer de inanição, emagrecendo a olhos vistos.
O próprio estado dos seus seios é algo que é citado várias vezes ao longo do livro, como um símbolo disso tudo o que ela está passando: começam a ficar menores, perderem a cor, ficarem flácidos, até sumirem. Vale a pena prestar atenção nesse detalhe enquanto se lê o livro.
Mas o livro não é todo de se jogar fora. Acho que Han Kang consegue criar personagens masculinos muito verossímeis (não que isso seja difícil, nós homens somos todos muito óbvios), sem parecer forçado nem nada. Um retrato muito bem desenhado para nós homens refletirmos sobre dois pontos principais do livro: o abandono de nossas companheiras quando elas não mais nos servem, e a vulnerabilidade (até mesmo sexual) em diversas passagens da obra, de abusos que a Yeonghye sofre.
Gritos e choros se sobrepõem e ficam encravados aqui. É por causa da carne. Comi carne demais. Todas essas vidas estão entaladas aqui. Tenho certeza. Sangue e carne foram digeridos e se espalham por todos os cantos do meu corpo; os resíduos foram colocados para fora, mas as vidas insistem em obstruir o plexo solar.
A obra possui três partes: a primeira, que é narrada pelo marido, a segunda que é narrada pelo cunhado da Yeonghye, e uma terceira narrada pela irmã Inhye (que é casada com esse cunhado). Todos eles mostram pontos de vista diferentes e abordagens diferentes à condição da Yeonghye.
E como se não bastasse, o livro também tem referências ali a questões psicológicas, especialmente da Yeonghye. Conhecemos uma mulher não apenas com distúrbios alimentares, mas também isolada do mundo ao seu redor, vendo e ouvindo coisas que não existem, e o preconceito da sociedade ao seu redor em tentá-la fazer a todo custo voltar ao mundo real.
É um pouco cansativo em algumas partes, mas embrulha o estômago em outras. Não dá pra negar que a Han Kang escreve muito bem, mas acho que ainda falta alguma coisa nesse livro. Um roteiro que deixa tantas pontas abertas não é algo que eu aprecie tanto — exceto se for um livro de fantasia. Trazer isso pro mundo real faz nós leitores questionarmos a própria realidade de certa forma, em como a visão de uma pessoa das coisas ao seu redor pode distorcer tudo, e essa sensação pessoalmente não acho muito legal. É um livro que a gente termina ele com uma sensação estranha, sabe?
SPOILERS ABAIXO
Depois não diga que eu não avisei!
Acho que a cena mais chocante da primeira parte é o almoço em família, quando a família descobre que a Yeonghye não está mais comendo carne. Eu acho doido em como a família dela simplesmente não aceita isso, e vão tentando de todas as maneiras fazer a Yeonghye comer carne, e não fazem o mais fácil que é aceitar que ela fez uma escolha de vida e se adaptar a ela.
Se uma pessoa se torna vegetariana não quer dizer que a família inteira também tem que ir junto. Eu vejo famílias onde uma das pessoas é vegetariana e as outras não, e tudo corre bem. Acho que a questão que a Han Kang explora aqui é que a pessoa que decidiu se tornar vegetariana é a esposa — a que, muitas vezes, é a pessoa encarregada no núcleo familiar de cozinhar, por exemplo. O fardo de cuidadoras do lar que nessa sociedade machista a mulher sempre é encarregada.
Eu lembro de quando namorei uma garota vegetariana há muitos anos atrás. Eu na época era muito jovem e quando passávamos o final de semana juntos eu sentia muita falta de comer carne, embora tivéssemos uma química legal. Acho que uma das coisas que deve ter complicado nossa relação foi um dia que comprei alguns gyoza de carne e ela brincou dizendo: "Na minha geladeira você não vai colocar isso não!". E aí acho que tanto eu como ela percebemos que a relação não tinha muito para onde caminhar e terminamos.
Talvez o Jeong não gostava tanto da Yeonghye assim. Pois depois do episódio do almoço em família, onde o pai dela chega a ponto de forçar a boca dela para colocar carne dentro dela (e a Yeonghye cospe), a própria pega uma faca e corta o pulso na frente de todos, e acaba hospitalizada e depois internada numa clínica psiquiátrica, onde ela começa a se isolar da realidade cada vez mais. Incluindo aí o divórcio.
Na segunda parte é uma história de Yeonghye com seu cunhado que é apresentado apenas como "P". Ele é um artista plástico, mas que vive às custas da esposa (irmã da Yeonghye), tem um filho pequeno e sempre sentiu um tesão pela Yeonghye. Movido pela vontade de transar com a cunhada, ele decide propor para ela um ensaio fotográfico, onde Yeonghye estaria completamente nua, e ele faria algumas tomadas de vídeo para uma obra audiovisual.
Para tornar a coisa com um apelo realmente artístico, P. decide pintar no corpo de Yeonghye várias plantas e flores, incluindo uma bem grande em sua virilha, com a desculpa e não apenas vê-la nua, como também apreciar a tal "mancha mongólica" que ela tem na bunda. Essa mancha é como se fosse uma marca de nascença, meio azulada na pele, que some nas crianças até por volta dos cinco anos de idade, mas que parece ser muito mais comum em pessoas de etnia asiática do que no resto do mundo. Só que Yeonghye, mesmo sendo uma mulher adulta, ainda possui essa tal mancha em seu corpo.
P. faz no total três ensaios com Yeonghye. O primeiro, com ela totalmente nua, e depois um segundo onde ela encenaria sexo junto de um colega de P., o "J". Apesar de ser uma coisa ali totalmente sensual, e o J. ter tido inclusive uma ereção com todo o contato ali com a Yeonghye totalmente nua com ele, o J. não faz nada com ela, não tem coragem e fazer uma penetração real nela ali, mesmo a Yeonghye depois revelando que estava molhada.
Só que P., que agora não queria apenas vê-la nua, mas literalmente transar com ela a todo custo, tenta avançar sobre ela, e ela o repele, dizendo que tinha ficado excitada por conta da pintura corporal de plantas no corpo do J. E então P. decide fazer em seu corpo uma pintura similar, e chega a transar com ela, gravando tudo em seu ateliê. Apesar da Yeonghye no começo gostar, ao gozar, ela chega a chorar, querendo saber se "os pesadelos iriam terminar depois disso", pois na mente dela era como se duas plantas tivessem copulado — por isso ela aceitou transar com o cunhado.
No dia seguinte a irmã de Yeonghye aparece no ateliê e vê seu marido dormindo num canto, e Yeonghye em outro, todos nus, e ela ali já tinha deduzido o que havia acontecido. O casamento entre os dois acaba e começa a terceira parte do livro.
Essa terceira parte é toda narrada por Inhye, a irmã da Yeonghye, a talvez única personagem que tenta entender o que se passa com a irmã. É talvez a parte mais melancólica, pois a gente vê todo o desespero da Inhye tentando salvar sua irmã, que está em inanição profunda há dias, e a Yeonghye se trancando em seu mundo de vez, dizendo que sente que está virando uma planta, que quer viver se sol, inclusive chegando a ficar em diversos momentos na clínica de ponta-cabeça apoiada na parede dizendo que estava criando raízes igual uma árvore.
Yeonghye começa a definhar a cada visita à clínica que Inhye faz. Não toma medicamentos, começa a vomitar sangue, e só se alimenta de água (como uma planta). Yeonghye implora para sair de lá e viver sua vida, mas ao ver que todos ali estão irredutíveis, e querem que ela coma normal de todas as maneiras, Yeonghye mais uma vez diz que quer morrer, perguntando à irmã: Por que eu não posso morrer?
Até que um dia os médicos decidem colocar uma sonda alimentar na Yeonghye a todo custo, e ela, que estava sempre em estado letárgico, desperta furiosa e tenta impedir a todo custo aquilo, aos berros, empurrando, travando a garganta, de todas as maneiras possíveis. Yeonghye consegue impedir que a sonda fosse implantada, mas não há nada que possam fazer ali na clínica — já haviam desistido. Por conta de todo o sangue que ela vomitava, ela é colocada numa ambulância junto da irmã para ser internada em Seul.
Yeonghye já não responde direito, e quando a irmã vê um pássaro negro voando no horizonte interpretei como que ali fosse o fim da vida da irmã, que nunca conseguiu que suas escolhas fossem aceitas por ninguém daquela família miserável.

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