Livros 2026 #7 - História do suicídio (2018)


Suicídio é aquele tema que ninguém quer falar sobre, tem um tabu imenso sobre esse assunto, mas como tudo (ou quase tudo) na vida, existe literatura que aborda sobre esse assunto. E ter contato com essa pesquisa, com tamanha metodologia histórica feita por Georges Minois, eu só consigo achar um adjetivo: é um assunto fascinante. E uma pena que o tabu na sociedade impeça a gente de falar abertamente sobre.

Eu marquei tanta coisa enquanto eu lia, pois tem cada informação interessante, que é difícil escrever aqui sobre tudo o que aprendi. Por ser uma pesquisa histórica, o próprio autor fala em como a literatura sobre o tema é rara, assim como os registros. E o bacana é que a análise dele é muito completa: ele comenta desde suicídios históricos (como Lucrécia, Catão, Brutus, Sêneca, etc), os suicidas da ficção famosos que ajudaram a criar a discussão sobre o tema (como Hamlet de Shakespeare ou Werther, de Goethe), pontos de vista filosóficos e religiosos do tema ao longo da História, sob a diferença social de um suicida nobre e um plebeu, a influência das guerras e das mudanças históricas, traçando uma linha até chegar nos dias de hoje onde é um tabu tocar no tema, e a eutanásia.

Primeiro que ele deixa bem claro que a prática de tirar a própria vida é algo tão antigo quanto a humanidade. E que principalmente nas épocas mais remotas da história, era a miséria um dos motivos principais para o suicídio. Muitas vezes o camponês pobre, sem condições, passando fome, só via como opção de acabar com seu sofrimento tirando sua própria vida. Isso me lembra de quando li Quarto de despejo, da Carolina Maria de Jesus, onde ela conta que muitas vezes considerou se suicidar de tanto sofrimento que a fome e a pobreza lhe causava. Pode parecer uma coisa distante de nós, mas infelizmente por conta de toda a desigualdade gerada pelo capitalismo ainda é algo muito atual.

"O camponês e o artesão se enforcam para fugir da miséria e do sofrimento; o cavaleiro e o clérigo se matam para escapar da humilhação e privar o infiel de seu triunfo. (...) O primeiro tipo de suicídio, identificado com um gesto de covardia e fuga, é reprimido com rigor por meio do suplício do cadáver, da recusa de sepultamento em terreno sagrado, da certeza de condenação eterna e do confisco dos bens. O segundo, considerado um gesto corajoso fiel à honra cavaleiresca ou uma demonstração de fé inquebrantável até no martírio, é transformado em modelo."

Georges Minois ainda faz uma análise da visão teológica sobre o assunto, e dois desses paralelos me chamaram a atenção: existem muitos suicídios na Bíblia, isso considerando em como os clérigos em suas pregações são críticos contra essa prática. Mas a verdade é que existem passagens que condenam, e ao mesmo tempo passagens que se é possível interpretar de uma maneira mais abrangente. Moisés, por exemplo, proíbe matar em seu quinto mandamento, mas os suicídios mostrados na Bíblia não são reprovados de maneira explícita como é o assassinato de outras pessoas. E isso abriu muitas interpretações sobre a condenação ou não do suicídio durante a Idade Média.

Um segundo ponto que me chamou a atenção é que o autor joga uma luz um tanto polêmica ao questionar se Jesus não seria um suicida. E se você parar para analisar, deixando fervor religioso de lado, essa afirmação tem algum sentido, especialmente quando o próprio Cristo diz coisas como: "Minha vida, ninguém a tira de mim: pelo contrário, eu espontaneamente a dou", e "Eu dou minha vida pelas ovelhas" (João 10, 15-18). Isso sem contar em diversos momentos ambíguos dos Ensinamentos do Cristo que João afirma que para os judeus parece que em determinados momentos a intenção de Jesus é nada menos do que o suicídio, se você analisar de maneira objetiva.

Ainda no campo da religião, o autor vai até São Tomás de Aquino, muito influenciado por Aristóteles, onde ele afirma conceitos básicos contra se tirar a própria vida que servem de base até hoje:

"O suicídio, portanto, é proibido por três razões fundamentais: 1- é um atentado contra a natureza e contra a caridade, já que contradiz a inclinação natural de viver e o dever de amarmos a nós mesmos; 2- é um atentado contra a sociedade, pois fazemos parte de uma comunidade e temos um papel a desempenhar; 3- é um atentado contra Deus, que é dono de nossa vida. A comparação é esclarecedora: 'Aquele que se priva da vida peca contra Deus, do mesmo modo que aquele que mata um escravo peca contra o dono do escravo'".

Uma prática que eu não sabia, que começou ali por volta do século V, era o confisco de bens do suicida, e inclusive mais tarde punições contra o corpo do morto. O autor explica como isso era uma ação péssima, pois ás vezes os poucos bens que o pai daquela família dispunha, acabam sendo proibidos de serem usados pela esposa ou filhos, indo tudo para posse do Estado. Isso sem contar que pegavam o corpo ali já sem vida e enforcavam, degolavam, colocavam numa charrete e arrastavam o cadáver pelas ruas até desfigurá-lo todo, isso sem contar a proibição de funeral ou enterro, o que dificultava ainda mais a vida da família daquela pessoa que eram humilhadas e julgadas ainda mais pela sociedade.

E saindo dos exemplos europeus, o autor dá o exemplo dos Baganda, da África Central, que queimam em uma encruzilhada o corpo do enforcado junto da árvore usada por ele; ou os Ewe, do atual Togo, onde arrastam o corpo do morto em espinheiros, e depois mutilam o corpo, o enterrando em uma encruzilhada em um leito carroçável. Isso sem contar superstição grega onde se cortava a mão direita do suicida para que ele "não pudesse cometer mais crimes".

Um ponto interessante que o autor cita é sobre a individualidade — uma característica muito compartilhada entre os grandes gênios da renascença, acaba isolando cada vez mais essas pessoas em suas pesquisas, e em como isso poderia ser danoso e levá-los a tirar sua própria vida:

"O gosto pelo segredo acentua ainda mais essa solidão. Encerrado em seu gabinete de trabalho com seus livros e suas esferas, o pesquisador procura sozinho, descobre sozinho, e guarda para si as descobertas. (...) Devido à preocupação em evitar críticas injustas, por temer os ataques, pela impossibilidade de provar a exatidão de suas conclusões, cada pesquisador cultiva sua verdade, com todo cuidado e, por vezes, de maneira agressiva. Não são raras as personalidades insatisfeitas no mundo científico, por exemplo Cardan, Paracelso, e Cornélio Agrippa. E essa instabilidade às vezes os leva ao suicídio, como foi o caso de Jêrôme Cardan."

E então entramos em Shakespeare, especificamente Hamlet, que assim como tantas outras peças inglesas (até Romeu & Julieta, se parar para pensar) encenam o suicídio (ou a tentativa de). Tanto que um dos únicos países que encaravam o suicídio como um problema de saúde pública e social era a Inglaterra, que trouxe para eles a péssima alcunha do suicídio como "doença inglesa".

A arte então traz na sociedade a discussão sobre o ato de se tirar a própria vida na época, e diversos autores se debruçam sobre o tema, para se entender as causas, as consequências, o ato em si, e muita literatura é criada ali daquela época em diante. Até chegarmos no livro Biathanatos, de John Donne, em 1610. É um tratado dedicado inteiramente a uma reabilitação do suicídio, afirmando que o ato de se tirar a própria vida pode ser justificado. 

"John Donne sabe que infringe um tabu e tem medo de ser responsabilizado pelos suicídios que seu livro provocaria. Pois uma coisa é manifestar publicamente a admiração por Brutus e Catão, outra é demonstrar que o suicídio é um ato que não viola nem a natureza nem a lei divina, e que ele não deveria ser penalizado."

O que as reflexões que esse autor trazem é que não existe alguma evidência bíblica que o suicídio é o pior dos pecados, e talvez nem mesmo seja considerado um pecado. Por isso não se deve julgar que a pessoa está condenada às penas do inferno porque se matou. E então o autor divide seu pensamento em três partes sobre o suicídio: sobre ele ser contra a lei da natureza, à lei da razão, ou à lei divina. E para cada um dos três ele traz uma reflexão filosófica bem interessante.

Curioso que pouco depois outros autores que pesquisam o assunto sugerem como fonte disso algo que na época chamavam de "melancolia", como talvez uma das maneiras mais primitivas de se tentar diagnosticar a depressão (isso no século XVI!). Curioso era a forma que achavam de se curar da melancolia: ouvir boa música, ar puro, tomar sol, bons vinhos, e namorar mulheres bonitas cuja visão alegra o coração. Não sou eu que tô dizendo, é o que tá no livro, hahaha!

Mas é curioso como as coisas não mudaram. A tal da melancolia é o que tira a vontade de viver da pessoa, a fazendo chegar a atos extremos como se matar.

"Shakespeare não é um moralista, e sim um observador da condição humana. Ele não faz apologia do suicídio, e uma de suas observações mais penetrantes é justamente a oposição entre o falar e o agir. Hamlet, o personagem que mais fala em se suicidar, não se suicida. (...) Falar demais do suicídio enfraquece a determinação: vemos aí o começo de uma terapia através da desmistificação dos verdadeiros motivos do suicídio, que são basicamente egoístas."

Mas é curioso que nessa época já apontam como força motriz do suicídio o maldito capitalismo: que quando uma pessoa se mata, isso é a acusação indireta sobre o fracasso do Estado em assegurar a justiça e uma vida decente para todos os seus habitantes. É a sociedade que não conseguiu garantir a felicidade de seus membros e consolar os necessitados. Que o mundo que os líderes da sociedade tornaram para a pessoa que se mata vira um inferno tão grande que prefere o nada, ou os riscos do além, do que viver naquela condição. 

Gente, o doido é que isso faz MUITO sentido, não? (nessa hora eu olho para os políticos com um olhar de julgamento)

E é claro que as autoridades nunca reagiriam bem a tantas obras e tratados se referindo ao suicídio escritas ali no século XV e XVI, especialmente quando a Igreja resolveu entrar no meio. Para não acabar tendo que condenar todos automaticamente, um jesuíta chamado Léonard Lessius em seu tratado cita algumas circunstâncias onde se matar pode ser perdoado, como se por exemplo a pessoa se jogar do alto de uma torre no caso de um incêndio, pois a intenção não seria propriamente em tirar a própria vida, e sim escapar de uma morte ainda mais horrível (que seria ser consumido pelas chamas).

E quando a Reforma e a Contrarreforma chegam, que usam sempre o medo como base de sua doutrina, isso faz as pessoas perderem a esperança na salvação, e uma vez pensando que se a condenação é certa, o que importa quando irá partir? Até que um pastor chamado John Sym propõe que a luta só é eficaz quando combate a causa: "Impedimos menos a morte de si mesmo fornecendo argumentos contra o ato (...) do que descobrindo e eliminando os motivos e as causas que induzem a realizá-lo".

"Para muitos médicos, os temperamentos depressivos resultam de uma sobrecarga de humor melancólico negro no sangue. Portanto, em 1662, Moritz Hoffman sugere que se trate a depressão por meio da transfusão de sangue: são retiradas dele dez onças de sangue, que são substituídas por sangue de vitelo, e isso, aparentemente, o deixa totalmente curado."

Apesar de todas as obras que tratam do suicídio, se analisar os números e o crescimento populacional, o número sempre permanece proporcional. No século XVII começam também as vozes contra o confisco de bens do suicida pelo estado. E com essas discussões reiniciadas sobre o ato de se matar, foi então que um inglês chamado Thomas Browne cria o termo "suicídio" (ou "suicide", em inglês), da união de sui (de si) com caedes (assassinato), para diferenciar do termo self-killing cristão e do pagão suicidium de Catão.

Mas isso também não impede criticismo, como Edward Phillips em 1658 disse: "Uma palavra que eu gostaria que fosse antes derivada de sus, uma porca, do que do pronome sui, (...) como se, para um homem, matar-se fosse um ato animalesco".

"Sem sombra de dúvida, o desenvolvimento do capitalismo é um fator importante da alta do índice de suicídios ao longo desse período. Baseado no individualismo, no risco, na concorrência e nas apostas imprudentes, ele é um elemento de instabilidade e insegurança. Os sistemas de solidariedade das guildas e corporações desaparecem e deixam o indivíduo sozinho diante de sua ruína. As quebradeiras se sucedem com frequência ainda maior porque o controle dos mecanismos econômicos ainda é rudimentar e os erros são frequentes."

E é claro que assim como qualquer questão social nesse mundo machista, quando se tratam das mulheres o negócio sempre tem como piorar. As causas de suicídio das mulheres vai desde desonra na família por não ser mais virgem, maridos violentos, abandono, e gravidez indesejada. Mulheres se suicidam mais jovens: entre os 20 e 30 anos, e por motivos puramente pessoais, que não têm nada a ver com acontecimentos políticos. Já homens a preferência é entre 40 e 50 anos, o que autores chamam de "a idade das desilusões". 

Tem um caso de uma pobre moça chamada Marie Jaguelin, em 1718, que até dando uma googlada achei informações sobre ela, de tão brutal que foi o que se passou com ela:

Ela, plebéia, não tem o tratamento de um suicida nobre. Marie Jaguelin, grávida de seis meses, se envenena para escapar da desgraça. E ao invés de ser perdoada por ser pobre, tem o corpo exumado, julgado, e arrastado na grade com o rosto virado para baixo. Quando chega na praça pública o carrasco abriu seu ventre putrefato e extraiu o que restava do feto ali, que é levado para a parte do cemitério onde enterram os mortos sem batismo. E o que aconteceu com o resto do corpo da pobre Marie? Foi pendurada pelos pés, seus restos destroçados são expostos ao público de maneira degradante, e depois o cadáver ainda foi queimado e as cinzas jogadas ao vento.

Uma coisa que eu descobri que achei interessante também é como períodos de mudança profunda dos hábitos coletivos e valores tradicionais têm relação com o aumento de suicídios. Se analisarmos fases de equilíbrio das civilizações, com as fases antes e depois de transformação da mente humana na sociedade, são períodos de aumento da morte voluntária: como o Renascimento, a primeira e segunda Crise da Consciência Européia, a era das revoluções e o final do século XX. E fazendo um comentário pessoal aqui, com essas mudanças cada vez mais acontecendo mais e mais rápido hoje em dia, não duvido que possamos ver um aumento de novo nesses casos hoje e no futuro nesses momentos de evolução da sociedade.

Até que chegamos em filósofos, em especial a Voltaire:

"A força do instinto de sobrevivência é tamanha que é preciso uma extraordinária firmeza de caráter para se matar. É por isso que Voltaire rejeita a acusação de covardia utilizada com frequência contra aqueles que se suicidam: 'É preciso uma alma forte para superar assim o instinto mais poderoso da natureza. Essa força é às vezes a força de uma pessoa impetuosa; mas isso não a torna uma pessoa frágil'"

E isso sem contar a associação que Voltaire faz do suicídio com ociosidade, pois apenas os que não têm o que fazer que pensam se tirar a própria vida, comparando um camponês que por sempre estar tão ocupado nunca tem tempo de pensar em se matar. São os indivíduos da metrópole que se matam, pois não têm acesso ao remédio: um pouco de exercício, música, caça, comédia, e uma mulher amável.

Georges Minois traz uma reflexão importante no papel da filosofia como algo que se evita suicídios. Entre todos os filósofos modernos é um número ínfimo os que acabam tirando sua própria, mesmo havendo diversos como o próprio Voltaire, Diderot e tantos outros que escrevem sobre o tema. Esse último por exemplo traz uma reflexão importante: "Se as ações do governo de repente lançam na miséria um grande número de indivíduos, os suicídios fatalmente ocorrerão".

David Hume também traz uma contribuição filosófica bem interessante:

"Um homem que se retira da vida não faz mal à sociedade: ele apenas deixa de fazer o bem; o que, se é um erro, é um dos menores. Todas as nossas obrigações com a sociedade parecem implicar uma certa reciprocidade".

Parece que o único filósofo que escreve tratado sobre suicídio e acaba tirando sua própria vida é Johan Robeck (1672–1739). E nenhum deles escreve uma apologia ao suicídio, e sim tentam escrever sobre todo o contexto do meio social do indivíduo que o faz pensar que quando a vida se torna sofrida demais, seja física ou mentalmente, o suicídio lhes parece algo legítimo.

E entra em cena outro filósofo, o barão D'Holbach, que afirma o seguinte em suas reflexões:

"Livros e mais livros de apologia ao suicídio não provocarão uma única morte suplementar se ninguém tiver bons motivos para se matar. Por outro lado, seria muito melhor se as pessoas aprendessem a não ter medo da morte. É na exploração desse sentimento que se baseiam todas as tiranias e todas as situações de injustiça. Só é livre quem não tem medo da morte."

E aí entramos em duas obras que tratam sobre suicídio e que alçaram uma fama tão grande quanto Hamlet: "Os sofrimentos do jovem Werther", e "Fausto", duas obras de Goethe, mas que abordam duas facetas do suicídio: o romântico e o filosófico, respectivamente

Por um lado temos Werther, que por nutrir uma paixão por uma mulher que havia sido prometida a outro homem, sofre e termina se matando movido pela desilusão amorosa. Porém diferente de Hamlet, que apesar de falar tanto em se matar, nunca chega às vias de facto, o jovem Werther chega a se suicidar na ficção. 

Acontece que depois da publicação do livro algumas pessoas se mataram carregando o livro. A obra chegou até mesmo a ser proibida em diversos países, e acusam o pobre Goethe como um incentivador de suicídios. O que o autor Georges Minois rebate veementemente:

"Goethe escreveu um romance, não uma apologia ao suicídio. Torná-lo responsável pela morte voluntária de todos esses jovens é acusar toda a literatura. Milhares de romances relatavam suicídios há séculos sem atrair a cólera de moralistas. Se as reações a Werther são tão explosivas é porque muitos têm a impressão de que o suicídio se tornou um 'fenômeno social', um temível flagelo com o qual não se tem o direito de brincar".

Já Fausto, a peça de Goethe, vem anos depois mostrando outro aspecto: quando o desespero por não chegar nem perto de alcançar o saber universal e se igualar a deus aflige Fausto, ele constata o quão inútil são seus estudos e todo o saber enciclopédico que acumulou. Se Hamlet se perguntava: "ser ou não ser?", o doutor Fausto diz que "o que é o ser que não é tudo, não sabe de tudo, que não pode tudo? Um nada". E então tomado por essa frustração, ele decide se matar, correndo o risco de encontrar o inferno ou o nada.

E a Inglaterra, que por ser um dos países que mais investigavam e registravam estatísticas claras sobre o suicídio, ao ponto de se referirem a este como "a doença inglesa", começa então no século XVIII a criar organizações para oferecer amparo a tantos que tentam se matar e não conseguem.

Isso numa época em que o alcoolismo já era um fator que aumentava ainda mais os número de pessoas que tiravam suas vidas. Vimos também com a alfabetização cada vez maior das pessoas, no mesmo século começam a aparecer também os bilhetes suicidas. Bilhetes esses que em sua maioria revelam na verdade o desejo de viver, ao permanecer depois da morte e ao dar ao seu gesto uma eficácia que não conseguiu ter em vida.

E a postura da Inglaterra nessa época é oposta ao resto do mundo: eles divulgam em jornais, publicam as histórias dos suicidas, tudo com a intenção de banalizar e secularizar o facto. Apesar de hoje em dia pensarmos que esse tipo de conteúdo incentivaria, acontece o contrário:

"Essa literatura toda desmistifica o suicídio, transformando-o em um ato natural. Embora a maioria dos jornais expresse sua hostilidade de princípio em relação ao "assassinato de si mesmo", a forma como eles retratam os diferentes casos, simpatizando com os sofrimentos dos suicidas e explicando seu desespero, estimula, na verdade, a compaixão pelas vítimas".

Curioso também é que apesar desse desejo de morte que, tanto os religiosos, quanto os filósofos, adoram abordar em suas obras seja verdade, não conduz nenhum deles ao suicídio. Por mais pessimista que o que escrevem seja, é através de toda essa reflexão do mundo e também sobre a vida, que isso acaba tendo o efeito contrário: servindo de antídoto ao desejo de morte.

E até hoje o estigma é grande: recai sempre tanto sobre a família quanto para a sociedade, que ao ver a morte de um de seus membros percebe também como a constatação de seu próprio fracasso — seja a família que ás vezes não soube oferecer o suporte amoroso necessário, ou a sociedade que continua desigual e deixando essa opção como única perante todos os desafios insuperáveis de se viver.

Sem dúvida esse livro levanta uma quantidade imensa de questionamentos.

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E cara, que livraço! Eu levei muito tempo para lê-lo, foram algumas idas e vindas durante pelo menos uns quatro meses, mas terminei agora no começo de junho. A obra tem pouco mais de 400 páginas.

Acontece que eu costumo muito ler enquanto estou em ônibus, em filas, no carro, na rua, em qualquer oportunidade tento colocar a leitura em dia. E eu estava com um pouco de receio de andar por aí com um livro cujo título é "História do suicídio" e acabar atraindo atenção de algum crente chato que não entenderia que esse livro é apenas uma pesquisa histórica, e não uma apologia ou algo do gênero.


Então eu tive uma ideia genial: seria menos embaraçoso para mim andar com uma capa escrita: "COMO VIVER MELHOR COM SEU PÊNIS COM MAIS DE 30 CM", hahaha. E eu andei por aí com esse livro, em metrôs, ônibus, bibliotecas, ruas, e tudo mais.

Acontece que isso me provou uma coisa: ninguém repara no que a gente está lendo. Acho que todos esses meses lendo se eu percebi umas duas ou três risadinhas ao meu redor, foram muito. E duvido muito que eram por conta de eu estar lendo um livro por ter uma disfunção no tamanho do meu órgão sexual. Acho que inclusive vou deixar essa capa fake nele, vai que minha mãe acha na prateleira, pelo menos ela vai achar que o filho tem um pinto gigante e está lendo um livro pra saber como lidar com isso.

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