Livros 2026 #10 - Pálido ponto azul (1994)
Não sei como passei tanto tempo da minha vida sem ler Carl Sagan antes. Peguei na biblioteca, e depois de folhear o primeiro capítulo, e me apaixonei na hora. Eu já tinha ouvido um texto do Sagan, chamado "Pálido ponto azul", mas não sabia que na verdade era o título de um livro dele! O excerto que conhecia era o trecho final do capítulo 1 desse livro, na verdade. Sagan aqui mostra porque ele foi um excelente divulgador científico — explicando conceitos complexos de maneira acessível para o público em geral.
É difícil elencar o que faz esse livro ser sensacional. Eu sou apaixonado por astronomia desde criança, até hoje é uma coisa que me fascina e eu devoro qualquer conteúdo sobre o espaço. Isso por si só já me faz dar muitos pontos para essa obra. Mas existem outros motivos para considerar essa obra algo extraordinário.
Antes de inventarmos a civilização, nossos antepassados viviam principalmente ao relento, a céu aberto. Antes de inventarmos luzes artificiais, poluição atmosférica e formas modernas de diversão noturna, observávamos as estrelas. Havia razões práticas relativas ao calendário para esse hábito, mas ele significava muito mais. Mesmo hoje, o habitante mais fatigado das cidades pode se comover de repente ao ver o céu de uma noite clara salpicado de estrelas cintilantes. Depois de todos esses anos, isso ainda me deixa sem fôlego.
Carl Sagan é um excelente escritor. Cada capítulo trata de um tema diferente, e em muitos ele sempre faz uso de uma estrutura literal que aguça muito nossa vontade de ler: normalmente começando com algum fato curioso, podendo ser alguma experiência ou passagem da sua vida pessoal, um fato histórico, ou uma teoria sagaz. Depois ele consegue fazer a ligação disso com a matéria científica que ele quer tratar, e depois as implicações ou resultados do negócio para concluir.
Mas ele escolhe tudo tão bem que cada capítulo parece ser uma obra de arte. Imagino o trabalho que deve ter dado para escrever algo tão perspicaz, ainda mais ali em meados dos anos 90 — o livro foi lançado em 1994, dois anos antes dele falecer — numa época sem internet e menos acesso à informação como é hoje.
Uma colega cientista me falou de sua recente viagem aos planaltos da Nova Guiné, onde ela visitou uma cultura ainda na idade da pedra e quase sem contatos com a civilização ocidental. Eles desconheciam os relógios de pulso, os refrigerantes e a comida congelada. Mas sabiam da Apollo 11. Sabiam que os humanos tinham caminhado sobre a Lua. Conheciam os nomes de Armstrong, Aldrin e Collins. Queriam saber quem estava visitando a Lua no momento.
Como um divulgador científico, Carl Sagan entrega uma obra prima. Tudo bem que muitas coisas ali eu já sabia, mas muitas outras me fascinaram. Ele nos presenteia com diversas informações de bastidores de missões como as sondas Voyager: quando uma plataforma de varredura simplesmente emperrou, por falta de lubrificação, e obviamente não teria como levar uma lata de óleo para algo que estava na órbita de Saturno. Os cientistas então descobriram que alternando o uso das engrenagens poderia-se aquecer e resfria-las, e assim desemperrar a plataforma sem precisar de lubrificante! Que bagulho insano!
Outra coisa que não sabia era a história de como foi descoberto que os CFCs provocavam o buraco na camada de ozônio do planeta Terra, um medo que todos tínhamos nos anos 90:
O trabalho teórico sobre o papel dos CFCs na diminuição da camada de ozônio foi logo confirmado por um grupo chefiado por Michael McElroy, em Harvard. Como é que eles tinham todas essas redes ramificadas de cinética química halógena em seus computadores, prontas para serem testadas? Porque estavam trabalhando sobre a química do cloro e do flúor na atmosfera de Vênus. Vênus ajudou a proporcionar e a confirmar a descoberta de que a camada de ozônio da Terra está em perigo. Uma conexão inteiramente inesperada foi encontrada entre as fotoquímicas atmosféricas dos dois planetas. Um resultado importante para todos os habitantes da Terra proveio do que poderia parecer a pesquisa menos realista, mais abstrata e menos prática: compreender a química de elementos secundários na atmosfera superior de um outro mundo.
E nosso vizinho Vênus não apenas nos ajudou a entender sobre o buraco na camada de ozônio, como também nos revelou o que é o efeito estufa:
Como foi que James Hansen se interessou pelo efeito estufa em primeiro lugar? Sua tese de doutorado (na Universidade de Iowa, em 1967) versava sobre Vênus. Ele concordava que as altas radiações do brilho de Vênus se devem a uma superfície muito quente e que os gases de efeito estufa conservam o calor do planeta, mas propunha que a principal fonte de energia não era a luz solar e, sim, o calor do interior. Em 1978, a missão Pioneer 12 deixou cair sondas de entrada na atmosfera de Vênus; elas demonstraram a superfície diretamente que a causa atuante era o efeito estufa comum aquecida pelo Sol e o calor retido pelo cobertor de ar. Foi Vênus, portanto, que fez Hansen pensar sobre o efeito estufa.
Outras duas coisas que adorei no livro foi perceber que mesmo lá em 1994 muitas teorias que hoje ainda estamos buscando resposta já eram de conhecimento geral. Carl Sagan cita até mesmo a hipótese da matéria escura, eu achava que era uma coisa bem mais atual, e não algo considerado há mais de trinta anos.
E outra foi ver como diversos avanços astronômicos de hoje, ainda estavam embrionários ali na década de noventa. Carl Sagan não viveu para ver o lançamento da Estação Espacial Internacional em 1998, mas já na sua época sabia que algo grande viria ali — ainda chamado prematuramente de "Estação Espacial Alfa". Com outro nome, sob outra administração, mas com um imenso potencial do que viria a ser a ISS (Estação Espacial Internacional) hoje:
Em 2 de setembro de 1993, o vice-presidente Al Gore e o primeiro-ministro Viktor Chernomyrdin firmaram, em Washington, um acordo de ampla e minuciosa cooperação. O governo Clinton deu ordens para que a Nasa faça um novo projeto da estação espacial norte-americana (chamada Freedom nos anos Reagan), de modo que ela entre na mesma órbita da MIR possa ser acoplada à estação russa: módulos japoneses e europeus serão ligados à estação, bem como um braço robótico canadense. Os projetos agora se transformaram no que se chama Estação Espacial Alpha, envolvendo quase todas as nações que participam das viagens espaciais. (A China é a exceção mais marcante.)
Curioso que em outra parte ele até cita o foguete Longa-marcha do programa espacial chinês. Quem diria que ele evoluiria para o que temos hoje (trecho abaixo)! Isso o Sagan previu, e acertou em cheio!
Existem muitas coisas que Sagan comenta que foram aceleradas. Ele comenta, por exemplo, do uso de Hélio-3 para motores de fusão nuclear. No seu texto ele fala que isso seria para cinquenta ou cem anos dali para ele, mas em 2022, menos de três décadas depois dele ter escrito isso, os primeiros reatores de fusão nuclear haviam produzido mais energia do que a utilizada para ligá-los.
Já em outras previsões, como sobre o programa espacial chinês, Sagan acertou em cheio:
No mundo real, os funcionários espaciais chineses estão propondo colocar em órbita uma cápsula para dois astronautas no final do século. Seria propelida por um foguete Long March 2F modificado e lançada do deserto de Gobi. Se a economia chinesa continuar em crescimento, mesmo moderado — muito menor que o crescimento exponencial que a caracterizou do início até a metade dos anos 1990 —, a China poderá ser uma das principais potências espaciais do mundo na metade do século XXI. Ou antes.
Outras previsões ainda não podemos confirmar. Sagan fala um capítulo inteiro sobre antimatéria, por exemplo, e jogava que o uso em benefício da humanidade só aconteceria no século XXII. Ele também fala em hipóteses de terraformação de planetas vizinhos, como Vênus ou Marte, e em como que mesmo que essas coisas não aconteçam, a humanidade pode colher soluções ambientais para a própria Terra através dessas pesquisas.
Na busca por vida fora da Terra, incluindo toda aquela baboseira de Roswell (que foi tipo o caso Varginha, mas para os estadunidenses) muitas ficções da época propagavam o medo de que alienígenas usariam os humanos como alimentação. Foi então que o próprio Sagan, querendo mudar esse ethos popular, conversou com ninguém menos do que Steven Spielberg:
Em 1983, Ann Druyan e eu sugerimos ao cineasta Steven Spielberg que esse era o projeto ideal para contar com o seu apoio. Rompendo com a tradição de Hollywood, em dois filmes, de grande sucesso, ele transmitira a ideia de que os seres extraterrestres poderiam não ser hostis e perigosos. Spielberg concordou.
Um desses filmes conhecemos muito bem, "ET: O extraterrestre" foi lançado em 1984. Mas qual seria o segundo? "IA: Inteligência Artificial" com aqueles alienígenas no final, conta? Ou será que Spielberg só cumpriu sua promessa ao Sagan esse ano, ao lançar "Dia D"? Se bem que esse segundo pelo que se vê no trailer não é nada amigável.
O medo da extinção de nossa espécie era algo bem considerado naquela época, como revela o trecho a seguir:
Qual é, portanto, a longevidade projetada de nossa espécie? Gott conclui, com um nível de segurança de 97,5%, que os seres humanos não viverão mais de 8 milhões de anos. Esse é o seu limite superior, quase igual à duração média de muitas espécies mamíferas. Nesse caso, a nossa tecnologia não causa danos, nem ajuda. Mas o limite inferior de Gott, com a mesma alegada confiabilidade, é de apenas doze anos. Ele acha que a probabilidade de os seres humanos ainda estarem vivos na época em que os bebės de hoje se tornarem adolescentes é de uma em quarenta.
Tenho uma amiga que acredita muito em vida alienígena, e que conseguiremos (ou até já conseguimos) contato extraterrestre. Eu sempre brinco com ela que eu acho que vida inteligente, a ponto de desenvolver ciência como a nossa, não deve existir. Ao menos não agora enquanto estamos aqui. Não acredito pois as variáveis para que tudo isso aconteça tornam o negócio muito improvável.
E uma coisa que eu brinco muito com essa minha amiga, é que a velocidade da luz é o negócio que mais empata esse contato, e Sagan comenta que mesmo que as primeiras ondas de rádio, que agora estão a centenas de anos-luz de nós viajando pelo espaço, encontrasse um planeta com vida inteligente que conseguisse captar esse sinal hoje, nesse momento, ainda demoraria mais cem anos para que a resposta enviada por eles do outro lado chegasse até nós. Isso se tiver vida inteligente.
É como se cada sistema solar, por conta das distâncias imensas, estivesse cada um numa quarentena eterna, sem chance de contato nem com seu vizinho mais imediato.
Mas ainda estamos muito longe de tudo isso, é o que você deve estar pensando. Como Voltaire disse em seu Memnon, "o nosso pequeno globo terráqueo é o hospício dessas centenas de milhares de milhões de mundos". Nós, que não conseguimos por ordem sequer em nosso planeta natal, dilacerado por rivalidades e ódios, que estragamos o nosso meio ambiente, que nos matamos uns aos outros por irritação ou desatenção, e também intencionalmente, e, ainda mais, que somos uma espécie que, até bem recentemente, estava convencida de que o Universo era feito só para o seu proveito, vamos nos aventurar pelo espaço, deslocar mundos, reestruturar planetas, nos espalhar pelos sistemas de estrelas vizinhas?
A vida de Sagan rende relatos que tocam o coração. Logo no começo ele comenta sobre seu avô, Leib Gruber, que vivia no então Império Austro-Húngaro, e que trabalhava ajudando pessoas a atravessar um rio chamado Bug. Não havia pontes, nem barcos. Pessoas pagavam e, literalmente montavam em suas costas, e ele as levava até a outra ponta.
De acordo com Sagan passou anos e anos fazendo isso, até que decidiu imigrar para os Estados Unidos (segundo Sagan diz, supostamente fugindo de uma condenação por assassinato). Deixou a mulher, Chaiya, na Áustria-Hungria, até ter dinheiro para trazê-la para este continente. Ela chegou sem ler e escrever, nem saber falar inglês, e com apenas um dólar no bolso.
Viveu ao lado do marido, e teve duas filhas — uma delas a mãe de Sagan. Porém, por conta de complicações no parto, acabou falecendo. A mãe de Sagan, Rachel Molly Gruber, por exemplo, não tinha lembranças de sua mãe. A única coisa que sabia era que o nome dela "Chaiya" era anglicizado como "Clara". E por conta disso, em homenagem à sua mãe, batizou seu filho como Carl.

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