Livros 2026 #11 - Claudia Vera Feliz Natal (2026)
Eu não canso de render elogios para Mariana Salomão Carrara. Mas esse livro em específico acho que é o que eu menos gostei dela, embora ainda assim seja um grande livro. Tem que haver um nota oito no meio de tantos nota dez. Mas ainda assim não tem como não dar uma nota elevadíssima pra esse livro!
Cláudia Vera Feliz Natal narra a história de um juiz, cujo nome não é revelado, apenas sabemos que ele é um homem, e que pratica sua magistratura em cidades do interior do Mato Grosso — daí vem o título, "Cláudia", "Vera", e "Feliz Natal" são todas cidades pequenas do interior desse estado. E por se tratar de um funcionário do judiciário, acho que foi algo que deu a oportunidade da autora criar um personagem ainda mais realista, pois ela trabalha na defensoria pública também. Esses detalhes que ela coloca da vida de alguém de uma área que ela atua e tem muito conhecimento sem dúvida enriquecem demais a construção da história.
Transitando entre essas cidades, vemos o protagonista além de lidar com toda a rotina e os percalços de ser um juiz em cidades pequenas — como o preconceito e respeito que as pessoas nutrem por ele, além da distância e solidão que ele sente por conta da personalidade e profissão — ainda testemunhamos os casos que lhe são encaminhados, as soluções que ele tenta encontrar, as defesas, e até os autos dos processos.
Acho que isso foi uma das coisas que mais me incomodaram nesse livro, esse monte de juridiquês que dificulta muito a minha vida, por isso não fazer parte do meu léxico. Apesar de ter acesso a dicionários, me cansava muito, e muitas palavras eu nem mesmo ia atrás de entender o que ela significava. E nem digo que esse palavreado aparece apenas na papelada dos processos que são mostrados ao longo do livro, mas muitas vezes o próprio protagonista em suas falas acaba soltando um ou outro aqui, e isso foi me cansando ao longo da leitura.
Mas a verdade é que Mariana Salomão Carrara é Mariana Salomão Carrara. Tem uma coisa que eu estava falando clube do livro que uma das coisas que fazem a gente entender que a arte de alguém é uma Arte, com um "a" maiúsculo, é saber equilibrar o quadro geral com os detalhes. E isso é uma das coisas que mais me faz apreciar toda a obra da Mariana:
Por exemplo, existe um roteiro geral, que é a vida do protagonista, a rotina dos processos, os percalços do dia-a-dia, o romance com a Vitória e o filho que acaba eventualmente sendo o fruto dessa relação, os outros coadjuvantes, sejam as pessoas envolvidas nos processos, como os outros magistrados também (eu adorei que existem três personagens chamados Dúzio, e eles são diferenciados como "Dúzio I", "Dúzio II", e "Dúzio III", hahaha!), mas em meio a esse quadro geral, existem os detalhes que são desenhados ali.
Lembro de uma parte, mais ou menos ali no começo, em que dois algemados são levados à presença do protagonista, e ali pra compor a cena a Mariana pinta os detalhes todos dessa maneira ímpar que ela sabe fazer: desde o som dos metais a tintilar, até o cheiro de fome que os presos exalam.
Toda Arte requer esse equilíbrio de micro e macro. E falo para toda arte, inclusive a minha que são plásticas — afinal o que é uma pintura, se não um conjunto de várias pinturas menores agrupadas?
E eu percebo que são pouquíssimos autores que sabem dosar na medida certa. Existem autores que só focam ali nos detalhes, trazendo aquelas descrições cansativas, detalhes que não adicionam em nada na história, coisas extremamente descartáveis, enquanto outros (especialmente os de best-seller genéricos estadunidenses) que só ficam ali narrando a história, sem trazer nenhuma profundidade ou detalhe que nos faça olhar para outra coisa que não seja a ação desenfreada acontecendo ali.
E por isso eu acho que, apesar do juridiquês que me fez dar uma nota baixa para essa obra, ainda assim não deixa de ser "um Mariana Salomão Carrara". E quando esse nome dessa autora que eu admiro tanto está na capa, eu tenho certeza que será um livro inesquecível, original, tocante, e brilhantemente sensacional.

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