A garrafa estava vazia. Mas minha alma despedaçada.

Enquanto eu via meu pai virar cada copo americano daquela cachaça pura, eu sentia uma pontada maior cada vez mais. Um verdadeiro sentimento de asco e decepção dominava minha mente. Muita gente tem uma imagem de que um drogado apenas pode fazer mal a si mesmo, mas ninguém imagina que a vida de todos ao redor dele também é destruída com o vício. E situações assim só me fazem ter mais raiva de tudo o que o álcool é capaz de destruir em uma família.

Esse homem não consegue fazer uma única refeição na vida sem antes ir ao bar da esquina. O bar que pra ele tanto significou o alívio de um dia de trabalho — mas que depois quando chegava alterado em casa, nós, filhos e minha mãe éramos o alvo de todo a agressividade que era liberada quando o álcool entrava no corpo.

Por muito tempo minha mãe dizia que "era culpa dos espíritos da macumba da avó dele". Hoje eu entendo que era pura e simples vergonha de admitir que tinha um marido alcoólatra que detonava a família sempre depois que ia ao bar.

Hoje em dia vejo muitas pessoas falando sobre indivíduos dentro do espectro autista. Ele não foi atrás de um diagnóstico (e não irá especialmente agora, depois de velho) mas uma coisa que ninguém fala é desse aspecto nojento de autistas: muitas vezes por falta de tratamento, sendo todos sempre tão isolados da sociedade, a solução era se tornarem alcoólatras. Não apenas pois achavam que isso seria uma forma de se tornarem mais sociais, mas também para silenciar aquele turbilhão de pensamentos gerados pelo hiperfoco.

O que mais me doeu hoje foi ver meu pai virar metade de uma garrafa de cachaça pura, e depois se tornar a pessoa que eu mais detesto nele: o homem que ele se torna quando está sob efeito dessa substância. Começa a fazer brincadeiras sem nenhuma graça, a falar alto e desrespeitar todo mundo, xingando as pessoas e as rebaixando para seu próprio prazer, e chegando a ponto até de nessa bagunça sentimental toda ele até mesmo entrar em prantos do absoluto nada.

O que ninguém fala é que o vício no álcool é tão forte que nos dias que ele não está alcoolizado — isso é, os dias que eu acredito que ele não estava, pois não dá para acreditar em uma única palavra que ele diz, pois além de tudo é um grande mentiroso — que quando ele não bebe fica abatido, fica quieto, fica pra baixo. A necessidade do cérebro de se estar constantemente embriagado é tão grande, que não conhece outra forma de funcionar, que não seja daquela maneira.

Tudo o que sinto é raiva.

Raiva pois aquele cheiro da bebida que sai da boca dele me faz na hora emburrar a cara na hora. Que eu prometi pra mim mesmo que não conversarei com ele quando ele estiver bêbado. Pois eu tô cansado de dar chances, não tem como seguir vivendo e aceitando que ele precisa beber. Aceitar que a bebida vai estar entre nós não é negociável. E isso faz com que eu não tenha uma relação sadia com ele por quase todos os dias do ano, pois como eu disse, ele não consegue fazer uma única refeição da vida sem (pelo menos) tomar uma. 

Se ele existe é antes da hora do almoço, depois disso prometi a mim mesmo que não conversarei com ele. Chega de tentar conversar com ele depois dele beber algo, pois ele sempre machuca, nos humilha, nos faz sentir péssimos, e chega no outro dia nas poucas horas sóbrio que consegue ficar, e fica nos encarando com cara de cachorro abandonado, como se isso nos fizesse esquecer das barbaridades que ele cometeu. E é claro que ele nunca pedia desculpas depois das atrocidades que cometia.

Tudo o que sinto é decepção.

Pois a bebida sempre ganha. Teve um dia que eu estava na cozinha, e ele sabe que eu fico encarando ele feio toda hora que ele bebe, pois o ódio em ver aquela cena sempre me domina. Nesse dia que eu ficava de olho na garrafa, ele sempre entrava e saía da cozinha, esperando o momento certo de tirar o copinho americano que ele sempre bebe e colocar ali a cachaça pura que tanto preenche sua medíocre existência.

E uma vez que começa, não consegue parar. E se está numa situação como a de hoje, onde toda a família veio almoçar em casa, ele perde realmente o pé e bebe tudo o que tiver. E quanto maior o efeito do álcool em seu corpo, mais insuportável de se conviver ele se torna.

Tudo o que sinto é nojo.

Ele sempre faz aquela cara, onde seu rosto é uma mistura de aceitar o que é inevitável, com a vontade de ser preenchido pela bebida. Seu olho perde o brilho, ele tenta esconder de mim que está bebendo, mas a vontade é sempre mais forte, e sempre vence.

Sua feição baixa, mas logo aquela vergonha que acredito que sente é rapidamente substituída pelo prazer que deve sentir quando a bebida desce pela sua garganta. Fazendo sempre a mesma cara azeda, por conta de toda a ardência que a pinga pura causa ao descer pela garganta, sinto que ele se sente até um pouco campeão. Mais um gole disso, e mais uma vez ele foi o machão que suportou e venceu a aguardente.

Mas quando se é alcoólatra, não há como se vencer.

São em dias como hoje que eu me sinto derrotado também. Todo dia eu sinto que morro um pouco, vítima do alcoolismo do meu pai. E tenho certeza que a minha vida, e de toda a minha família, teria sido totalmente diferente se meu progenitor nunca tivesse colocado uma gota de álcool na boca em sua vida.

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