A cabeça erguida em meio aos problemas.
Essa semana a Meg passou mal. Começou com uma bolinha nascendo no dedo, um negócio que não doía, não secretava nada, e nem dificultava sua locomoção. Operamos uma vez, ela cresceu de novo. Depois uma segunda em julho, se não me engano, e cresceu de novo. Hesitosos sobre a decisão de operar uma terceira vez ou não, deixamos, e o negócio cresceu muito rápido e ontem chegou a abrir uma ferida.
Minha mãe entrou me chamou aflita, dizendo que a meia que colocamos para que ela não tentasse lamber ou morder estava encharcada de sangue. Nesse momento eu a acalmei e disse que tá tudo bem — afinal a cachorra estava bem. Só agora que ela está reclamando um pouco de andar, talvez porque o negócio abriu uma ferida. Mas até então ela sempre esteve bem, apetite nunca mudou, fezes e xixi tudo bem, até subir a escada ela continuava fazendo (mesmo a gente não querendo que ela fizesse isso.
Eu entendo que a Meg está bem velhinha. Já está com seus quartorze anos, mas mesmo todos esses anos ela sempre foi muito saudável, e chegar nessa idade mesmo sendo de raça e tudo mais é um grande feito. Se ela partir, vou sentir saudades, vou chorar muito, mas estarei grato por ela ter vivido tanto tempo entre nós, e nos feito felizes por quase uma década e meia. Se a cirurgia der tudo certo e ela voltar, com certeza me sentirei grato também, pois terei a cachorrinha por mais um tempo comigo.
A reação do meu pai que me deixou bastante brabo. Meu pai, pra variar, perde o controle muito fácil. Ontem mesmo com a cachorrinha aqui precisando ficar no canto dela quietinha, para não abrir mais o ferimento, quando deu 18h30 ele correu pro bar, como se nada estivesse acontecendo. Fica bufando na casa, e mesmo eu entendendo que seja a maneira tosca dele lidar com essa situação, não consigo deixar de pensar se eu no lugar dele não estaria fazendo a mesma coisa.
Eu sempre tive uma relação de antagonismo com meu pai muito forte. A minha sorte é que meu pai é uma pessoa extremamente problemática, muito machista, ignorante, manipulador, mentiroso, e egocêntrico. E isso porque nem falei do diagnóstico de autismo que ele deve ter. Mas ser antagonista dele também é se esforçar para ser o oposto dele mesmo nas coisas boas. A minha sorte é que no caso dela as qualidades são bem menos que os defeitos, mas ainda assim isso dificulta muito a minha vida.
Com minha mãe desesperada, eu tentando acalmá-la dizendo que vai ficar tudo bem, enquanto fazíamos o curativo na Meg, que operará amanhã (terá que amputar um pedaço do pata), meu pai saiu do banho, olhou pra mim, e chacoalhou a cabeça negativamente, como se eu tivesse culpa naquilo.
Pra variar, é um ódio que esse homem tem por mim, que eu acho que vou morrer sem entender o que foi que eu fiz pra ele me tratar assim.
Acho que o que mais incomoda meu pai é que eu não sou igual a ele. Ele sempre teve uma relação igualmente de ódio pelo pai dele, mas ele sempre se comportou igual meu avô (ou até pior). E eu sei que é uma linha muito tênue para que eu caia pro lado e me torne alguém como ele. Mas como nesses momentos de desespero eu, talvez um pouco pela minha personalidade, e um pouco da minha espiritualidade, tento manter um pouco de controle, sem gritar ou espernear, fazendo o que deve ser feito, mesmo que dentro de mim meu coração esteja até mais desesperado do que os das pessoas ao meu redor, sempre me levanta a dúvida se meu carma não seja apenas continuar essa corrente de machismo, ignorância, e falta de controle.
E quando penso nisso eu me sinto tão impotente, sabe?
Existe algo que eu possa realmente fazer para evitar esse destino? Será que essa constante desconstrução, ressignificando todos os valores machistas e patriarcais com os quais eu fui criado, tentando colocar na minha cabeça que o jeito que eu fui criado não foi a maneira correta, e todo o sofrimento para realizar essa mudança se faz necessário, mas será que vai me fazer colher frutos lá na frente?
Eu morro de medo de ser com a minha futura esposa do jeito que ele é com minha mãe. Eu protejo minha mãe, mas será que isso tudo poderia servir de ensaio para quando eu conhecer minha mulher?
Vejo que tudo é sempre tão difícil, e o caminho mais fácil poderia ser alguém como ele. Vejo as coisas em que ainda somos parecidíssimos e me desanimo. Parece que estou fadado apenas a ser mais um elo da corrente, pois não tenho a capacidade de quebrar ela e mudar meu destino.
Depois que o ferimento da Meg ontem foi estacado, fui até a minha mãe e a abracei. Ela estava em prantos, e eu, mesmo não chorando ali com ela, também estava chorando por dentro. É claro que amo a Meg tanto quanto ela, e estou tão desesperado quanto ela está, mas acho que por conta de toda a proteção espiritual que tenho, tenho conseguido suportar um pouco para ser quem pudesse lhe prestasse esse tipo de suporte. Por isso agradeço aos budas por todo esse autocontrole.
Mas ambos estávamos bastante putos com meu pai, que saiu pro bar, chegou gritando e doido depois de ter bebido, mesmo entendendo que ele está tão aflito com o estado da Meg quanto nós. Eu poderia ser a pessoa que se rende à bebida e desconta a raiva na base dos berros e violência. Mas algo dentro de mim me diz para que eu não seja isso, mesmo que esse seja o caminho mais simples.
Amanhã (quarta) a Meg passará por mais uma operação. E estamos esperando que dessa vez tudo dê certo de novo, e tenhamos de volta nossa cachorrinha de volta em casa por mais uns meses, quiçá anos.

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