Será que o problema do funk seria o ritmo?
Esses dias eu reparei na viralizada que deu na versão produzida por IA da canção do MC Jhey, "Predador de perereca". Acho que praticamente todo mundo que usa redes sociais deve ter esbarrado na versão feita pelo Blow Records. Pegou uma música do funk brasileiro e transformou em uma produção que parece ter saído dos anos 1980, com todo o groove da Motown. Porém essa versão feita por IA simplesmente estourou dentro e fora do Brasil, e esse sucesso me deixou com uma pulga atrás da orelha.
Acho que quase todo mundo que ouviu a versão da Blow Records foi no Spotify ver a versão original do MC Jhey. E a versão original também não é de se jogar fora, tem o tamborzão, o cantor é afinado, com uma estrutura bem mais simples, mas também está lá passando sua mensagem.
Muita gente que detesta funk fala da questão das letras obscenas. Acho isso um argumento muito fraco, pois músicas sempre falaram de sexo, e quem não pratica isso? Isso é parte essencial das nossas vidas, então qual seria o problema pudico de não aceitar uma manifestação artística que fale de uma coisa tão natural nas nossas vidas?
Mas aí me veio outro pensamento: em como o ritmo usado meio que mascara a letra. Na versão da Blow Records soa diferente, quase uma coisa romântica, uma declaração de amor meio atrapalhada, quando o cara fala que eles vão botar nela, pois são predadores de perereca. Já no funk, o ritmo, que é tão associado com periferia, coisas mal vistas na sociedade, a letra parece soar ainda mais vulgar — mesmo que em ambos os casos a letra seja literalmente a mesma coisa.
Não vou entrar aqui no mérito de ter sido usada inteligência artificial na criação da música. Eu sou artista e tenho uma opinião extremamente crítica com o uso delas para roubar meu ganha pão.
O que meio veio à cabeça foi um acontecimento aqui na minha rua de umas duas semanas atrás: onde na favela aqui no final da minha rua começou a tocarem funk no último volume, com umas caixas de som bem fortes ligadas por essas adegas que parecem umas celas, todas cheias de grades na entrada e tal, muito presentes aqui na quebrada.
Eu lembro que a polícia baixou, não teve nenhum tiroteiro, mas teve confisco e ouvi falar que desceram a porrada em algumas pessoas ali na rua no momento. São uns oitenta metros da minha casa até a comunidade carente, mas o som era tão alto que parecia que a caixa de som estava dentro do meu quarto. Cheguei até a conversar com uma vizinha da rua que mora mais perto deles e ela disse que mesmo com tudo fechado ela não conseguia ouvir nem conversar com as pessoas dentro da casa dela.
Foi um exagero? Foi. E até acho justificável a vinda da polícia. Podem fazer seu baile, mas tudo tem limite.
Minha relação com funk, mesmo sendo alguém que mora no Capão Redondo, sempre foi muito ambígua. Entendo a importância dele, em como o sonho de ser um MC de sucesso é como ser jogador de futebol pra muito jovem que não tem tantas oportunidades. Entendo que também existe muita ancestralidade, e pessoas de amplo conhecimento musical por trás de produções, é uma coisa bem séria e profissional.
Todavia, e se a música que estivesse tocando fosse no estilo da Blow Records, iria me incomodar tanto? Será que meu vira-latismo tupiniquim se incomodaria menos com uma canção no estilo R&B, que eu sempre gostei, do que se fosse com uma batida tão genuinamente brasileira como o funk brasileiro tradicional? É bem feio, e tenho vergonha de admitir, mas acho que teria sim me incomodado bem menos se fosse a versão da Blow Records tocando no máximo.
Mas tem sábado que só queria deitar a cabeça na cama e dormir, sem a casa inteira ficar tremendo com o som alto vindo do final da rua...

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