Livros 2026 #1 - Vinte mil léguas submarinas (1870)
Eu acho que já comentei aqui a relação que tenho com esse livro. Como já escrevi aqui, foi o primeiro livro que li na vida, quando eu tinha uns dez anos. Porém dessa vez eu peguei numa promoção o texto integral dele, e não o resumo para o público infanto-juvenil (como o que li da primeira vez). Não vou entrar tanto no roteiro do livro aqui, e sim focar nas diferenças de se ler o texto integral dessa aventura. No post da adaptação que li eu entro com mais detalhes no roteiro.
Quando leio obras como esses clássicos, fico com um sentimento misto. O primeiro sentimento é de compreensão, de entender que obras como essas, e tantas outras, acabam tendo seu texto adaptado pra cortar grande parte do lenga-lenga que existe nele. E não vou negar que Júlio Verne — embora escreva muitíssimo bem, e consegue prender nossa atenção até nessas partes mais arrastadas — deixa ali muitas partes que são descartáveis.
Já persegui muitos cetáceos, arpoei muitos, matei muitos, mas, por mais poderosos e bem armados que fossem, nem suas caudas nem suas defesas poderiam quebrar as placas metálicas de um steamer.
Mas por outro lado tenho um sentimento de valorizar o texto integral pois acabo refletindo em como a literatura contemporânea perdeu essa essência dos clássicos. Em tempos que não haviam tevê, celulares, computadores, a mídia que se consumia eram justamente os livros. E esses livros tinham o objetivo de entreter, mas também ensinar. Não havia a preocupação de se ter pouco tempo para ler, pois não deviam haver tantas distrações como hoje em dia, então o autor poderia discorrer melhor sobre detalhes que nas adaptações seriam todas sumariamente descartadas.
Obviamente não há nenhuma mudança no roteiro. Mas, por exemplo, no livro original o Conseil (o mordomo do protagonista, o professor Arronax) é uma verdadeira enciclopédia. Sempre que o professor encontra um bicho novo, lá está seu mordomo como uma espécie de Google, sabendo descrever o bicho, seu filo, espécie, e tudo mais. Curioso que essa versão mantém termos usados na época de Verne para se referir a alguns animais, como o termo "zoófitos", que hoje a biologia os chama de "celenterados".
Se esse homem contava 35 ou 50 anos de idade, eu não era capaz de precisar. Ele era alto, tinha testa grande, nariz reto, boca bem desenhada, dentes belíssimos, mãos finas e alongadas, eminentemente “sensitivas”, para usar uma palavra de quiromancia, o que significa que eram dignas de servir uma alma elevada e apaixonada. Esse homem era certamente o tipo mais admirável que já encontrei. era certamente o tipo mais admirável que já encontrei.
Entendo que essas descrições (como acima, de como seria o capitão Nemo) possam ser descartáveis, mas pensava que a pessoa que estivesse lendo isso lá no século XIX não tinha acesso a uma pesquisa mais ampla como hoje nós temos com a internet. Se aparece um bicho citado pelo Verne eu em alguns segundos hoje consigo imagens, habitat, e informações sobre ele na palma da minha mão graças ao celular. Mas lá atrás isso não era possível. Então entra a importância da obra não apenas servir como uma peça de entretenimento, mas também de conhecimento.
Outra parte que percebi que foi bem descartada da adaptação que li foram participações do baleeiro canadense Ned Land. No texto original ele participa muito mais, seja pelo seu temperamento explosivo e impaciente, como suas diversas propostas e planos de se escapar do Nautilus. Mesmo o capitão Nemo tem ali sua personalidade muito melhor desenhada, especialmente quando se trata da profunda depressão que ele sofre perto do final.
Compreendi tudo! Aquela clareira era um cemitério, aquele buraco, um túmulo, e o objeto oblongo, o corpo do homem que morrera naquela noite! O capitão Nemo e sua tripulação tinham vindo enterrar seu companheiro naquela morada comum, no fundo do inacessível oceano!
Lembro que na leitura da versão resumida eu fiquei muito confuso numa parte, que depois que pesquisei alguns resumos entendi que se tratava de um funeral que o capitão Nemo realizava para um tripulante que havia se ferido gravemente por acaso. Dessa vez não tive dúvida alguma sobre o que aconteceu ali, toda a cena é descrita, desde o acidente que causou o seu ferimento, até seu cortejo fúnebre num cemitério submerso (trecho acima).
Curioso também as soluções da época da ficção científica de Júlio Verne. O capitão Nemo retira literalmente tudo do mar: desde alimentação, até vestimentas. Muito pelo fato do próprio se recusar a pisar em terra firme. Existe uma parte onde eles aportam numa ilha e Ned Land diz estar com muita vontade de comer carne suína, e vai à caça, mas é apenas um trecho da aventura. Tudo se passa dentro do mar. O que achei curioso mesmo é que para um submarino funcionar é imprescindível eletricidade. E estamos falando duma época em que a própria ainda estava em uma fase muito basal comparado com hoje. A solução que o capitão Nemo encontra pra resolver isso é bem curiosa:
— Sódio? — Sim, senhor. Misturado com mercúrio, ele forma um amálgama que substitui o zinco nos elementos do Bunsen. O mercúrio nunca se esgota. Só o sódio é consumido, mas o mar me fornece tudo de que preciso. Devo dizer, além disso, que as baterias de sódio devem ser consideradas as mais energéticas, e que a sua força eletromotriz é o dobro daquela das baterias de zinco.
Eu pessoalmente não manjo, embora dando uma pesquisa rápida tem muita gente na internet que se debruçou sobre esse trecho, tentando entender e explicar essa produção de eletricidade dentro do Nautilus usando química e física. Independente se isso é viável ou não, não vou negar que é convincente, haha. Eu pelo menos saí acreditando que é possível se criar eletricidade usando sódio extraído da água do mar.
Revendo essa adaptação da Hemus, vejo que uma parte essencial do livro original foi retirada. Na adaptação é contada sobre um confronto do capitão Nemo e a tripulação do Nautilus contra "polvos", que foi difícil e deixou o capitão Nemo profundamente abalado — e essa experiência acaba levando ao náufrago do Nautilus no Maelstrom no desfecho do livro.
— A besta pavorosa! Olhei também e não consegui conter um gesto de repulsa. Diante de meus olhos, estava um monstro horrível, digno de lendas teratológicas. Era uma lula de dimensões colossais, com 8 metros de comprimento. Ela se movia para trás com extrema velocidade na direção do Nautilus e olhava fixamente com seus enormes olhos de tom glauco.
Na versão original é muito melhor explicado. Esse combate existe, contra possivelmente o que conhecemos hoje como uma Lula Gigante, que de facto é uma parte bem traumatizante para o capitão Nemo, mas logo depois disso tem uma parte importantíssima que foi cortada desse versão adaptada que é uma batalha naval, movido por um sentimento de vingança, do capitão Nemo contra um navio de um país que havia destruído sua terra natal.
Não é citado explicitamente a nação agressora, mas imaginei que fossem os Estados Unidos.
E aí entendo o motivo de talvez essa parte ter sido retirada dessa adaptação para o público infanto-juvenil. É uma parte repleta de violência, onde o capitão Nemo, que já estava abalado desde a jornada até a Antártida quando todos quase morreram ao ficarem encalhados no gelo, perde total noção da realidade e só para quando estraçalha totalmente o navio dessa nação e afunda sua tripulação, fazendo um verdadeiro massacre que choca Arronax e Ned Land. Sente-se só o nível da fúria do capitão quando confrontado pelo protagonista:
– Eu sou a lei, eu sou a justiça! – ele disse. – Eu sou o oprimido, e aí vem o opressor! Foi por causa dele que vi perecer tudo que eu amava, estimava, venerava, pátria, esposa, filhos, meu pai, minha mãe, tudo! Tudo que odeio está ali! Cale-se!
Depois dessa chacina, e a vingança de Nemo, ele acaba se fechando dentro de si mesmo, deixa o Nautilus meio que ser levado pelas correntes, até a costa da Noruega. Lá está o famoso Maelstrom (que existe de verdade, mas nem de perto é tão ameaçador como no livro), e essa corrente indomável leva para as profundezas do submarino enquanto Arronax, Conseil e Ned Land conseguem fugir dele.
Eu que tinha um carinho especial por essa obra, sinto que aumentou ainda mais depois que li o texto original. Como eu disse, é um livro extenso, bem longo, mas valeu a pena cada página. É como se eu tivesse lido primeiro a adaptação em forma de filme, e agora vi a mesma história sendo contada numa série com muitos episódios. Deu pra aproveitar muito mais!
Uma aventura que serviu de tapete de boas vindas na literatura para mim, e que revisitei e pretendo revisitar ainda muitas vezes na minha vida!

olá vim visitar seu blog e fiquei surpresa com sua escolha de livro, eu também esse clássico quando jovem, eu compra as publicações da Edições de Ouro, que era a febre dos estudantes da época. Meu livro favorito era David Cooperfied , anos mais tarde comprei a edição completa e me assustei com a quantidade de paginas. São livros que ficam marcados. Reler abre novas janelas. meu blog: https://blogmingdolls.blogspot.com/
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